Na Estrada Jellicoe – Melina Marchetta

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Uma vez por ano, os estudantes do internato da pequena Jellicoe enfrentam batalhas territoriais com os citadinos, que são os adolescentes da cidade, e os cadetes, alunos de um colégio militar de Sydney. Taylor é líder de um dos dormitórios dos internos e é escolhida para representar o internato na “guerra”. Mas, ao mesmo tempo, ela precisa lidar com situações ainda mais complicadas: o passado obscuro, que inclui o abandono pela mãe; o desaparecimento de Hannah, a única adulta em quem confia; e o ressurgimento de Jonah Griggs, o cadete que ela pensou que jamais veria novamente.

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Na Estrada Jellicoe está na minha lista de leituras desde 2013, quando li Quem é você, Alasca?, de John Green, e o Goodreads me recomendou a obra de Melina Marchetta pelas semelhanças entre as histórias. Mas, com tantos livros na fila, acabei adiando a leitura de Na Estrada Jellicoe, até que a Editora Seguinte anunciou que o publicaria em português. Aí, acabaram-se as “desculpas”. As expectativas eram altas, afinal, Quem é você, Alasca? mexeu demais comigo, e não tinha como não esperar que Na Estrada Jellicoe me causasse sensações similares.

No entanto, preciso confessar que a leitura não foi fácil como eu gostaria e esperava. O início, que mescla o presente de Taylor com a guerra territorial e um manuscrito misterioso escrito por Hannah, é bastante confuso. Aliás, para ser bem sincera, entendo que as batalhas entre internos, citadinos e cadetes seja uma forma de conectar passado e presente. Mas, na minha mais honesta e modesta opinião, este é um dos pontos que fazem com que Na Estrada Jellicoe perca um pouco do apelo, especialmente no começo.

Aos poucos, porém, vamos entendendo a história e tudo o que ela engloba: o passado complicado de Taylor – principalmente o abandono pela mãe -, a história pesada e o desaparecimento misterioso de Hannah e pequenas tramas paralelas que enriquecem o enredo. E aí é possível não apenas compreender Na Estrada Jellicoe, como também se apegar aos personagens e se identificar.

Até um pouco além da metade do livro, eu estava achando tudo bem confuso e até chato. E de repente, os fragmentos da história começaram a se conectar e a se encaixar, e foi quando eu entendi por que o Goodreads me indicou Na Estrada Jellicoe, afinal. Apesar de ser regada a tragédias e suspense, dois ingredientes que tornam quase qualquer história envolvente e interessante, a obra de Melina Marchetta peca nos dois quesitos – além de ser um tantinho previsível. Mas, no final (bem no finalzinho mesmo), o livro me conquistou exatamente pelos mesmos motivos que Quem é você, Alasca?: com base na amizade e no amor, retrata o luto com honestidade e mostra que tanto a raiva quanto a redenção coexistem justamente na dor de perder alguém.

Título original: On the Jellicoe Road
Editora: Seguinte
Autor: Melina Marchetta
Ano: 2006
Páginas: 296
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 3 estrelas

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Entrevista com Gustavo Ávila, autor de O Sorriso da Hiena


Eu não tenho dúvidas de que O Sorriso da Hiena é um dos livros nacionais mais comentados de 2016 entre os Instagrams literários. E não é à toa! Com uma trama inteligente e intrigante, a obra de Gustavo Ávila entretém e atiça a curiosidade do leitor, ao mesmo tempo em que suscita reflexões e discussões sobre o comportamento e os valores da sociedade atual. E o fato de que o livro, até então independente, será publicado pela Verus Editora, é a prova de que O Sorriso da Hiena realmente tem seus méritos – e que não são poucos.

Costumamos cultuar grandes e renomados autores e rapidamente erguemos altos muros que nos separam de autores emergentes. No entanto, muitas vezes nos esquecemos de que, antes de serem criadores de “universos paralelos”, eles também são pessoas comuns, exatamente como nós. Então, além das influências e inspirações por trás de O Sorriso da Hiena, essa entrevista procura explorar um pouquinho também da “pessoa física” de Gustavo Ávila e do sonho que ele divide com muitos outros: o de ser escritor e ter suas histórias reconhecidas.

– Você sempre teve o sonho de ser escritor?
Não, eu não sou daqueles que já sabia o que queria ser desde criancinha. Eu descobri essa vontade mais tarde. Eu sempre achei incrível a capacidade de quem conseguia criar mundos, porque uma história é isso, toda ficção é um mundo único onde aquela história acontece. Isso é mágico, e parecia tão distante que eu nunca pensei nisso pra mim. Só quando eu comecei a trabalhar como redator publicitário que essa possibilidade se abriu. Essa vontade de escrever minhas próprias histórias. Eu descobri que tinha uma facilidade para escrever, de imaginar coisas, e esse desejo começou a crescer. E cresceu tanto que todo o resto se tornou monótono.

– Quais foram as suas principais influências?
Eu nunca tive um autor preferido. Eu tenho alguns livros que me fizeram pensar sobre algo e sentir algo. E são essas duas coisas que busco enquanto escrevo: pensar e sentir. Tanto faz a ordem. Um dos meus livros preferidos é o O Médico e o Monstro. E o motivo é porque ele é muito mais do que uma história, ele levanta um debate, ele tem uma ideia muito maior por trás das palavras, ele fala sobre uma coisa real dentro de cada um de nós. Pra mim, esse é o grau máximo que um livro pode alcançar, ser mais do que uma história. Mas ele também não é só uma reflexão intelectual, ele tem uma trama que faz você querer saber como vai acabar, que te instiga. Eu, nas minhas histórias, quero empregar a influência que esse livro é pra mim. Conseguir levantar um questionamento que te faça pensar sobre algo junto com uma história que também te carregue para o mundo dela, seja de forma leve ou pesada, mas que te entretenha e passe uma ideia.

– E quais foram suas inspirações para escrever O Sorriso da Hiena?
A maior inspiração foi o incômodo com as coisas que nós, seres humanos, fazemos uns com os outros. Eu odeio parecer pessimista, mas é difícil ser otimista quando se vê tanta coisa errada ao nosso redor. E não falo isso só sobre os atos mais cruéis como, cortar a cabeça de alguém que não segue a mesma religião, falo também de coisas “pequenas” como levar uma vantagem rápida em cima da pessoa que está do seu lado, como ser dono de uma empresa e ser um filho da p*** com os funcionários. Eu acho que nosso maior erro é a comparação dos nossos atos com os atos que vemos nos outros, assim parece que é possível justificar porque, nesta comparação, nossa maldade nem chega a parecer maldade. Criamos uma escala imaginária que nos permite fazer coisas que são escadas para outras ainda piores, e que vai amargando a vida. Não é à toa que você abre as redes sociais e tem tanta gente reclamando. É uma maldade contínua e cíclica. O livro fala sobre uma maldade específica e que todo mundo acha cruel, absurda, mas o que ele quer debater mesmo é a maldade em si, presente em todos os atos de crueldade. A inspiração veio disso, do como o ser humano, em diversas ocasiões, consegue se transformar em um bicho tão ruim.

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– Quando você terminou de escrevê-lo, pensou que faria tanto sucesso ou foi mais uma aposta para “ver no que dava”?
Ainda é cedo para ter uma resposta concreta para essa pergunta. Foi uma tiragem independente, um número bastante reduzido. A resposta para essa pergunta será dada mais pra frente, quando um número maior de pessoas tiver acesso ao livro. Mas é claro que estou muito feliz por tudo que o livro tem despertado nas pessoas que leram até agora. É difícil saber se algo que você faz vai fazer sucesso ou não. Eu esperava que as pessoas gostassem, mas era só um querer, um desejo. Você espera por causa do sonho que tem, mas ao mesmo tempo é preciso saber dosar a expectativa porque a realidade mostra que a possibilidade de dar errado é muito maior. Do como é difícil ser escritor, do como é difícil conseguir um tempo na correria de cada pessoa. Quando começaram a sair os primeiros comentários dos leitores foi realmente incrível. Foi uma onda muito positiva. E muito calorosa.

– Qual você acha que foi o segredo do sucesso de O Sorriso da Hiena?
Acredito que é uma série de fatores. Acho que o tema do livro aborda algo que todos temos curiosidade: a maldade humana. O ser humano é curioso demais quando se trata de algo cruel. A maior prova disso é quando ocorre um acidente na rua e os outros carros reduzem a velocidade para ver o que aconteceu. Também acredito que as pessoas ficaram meio surpreendidas por essa história ter sido escrita por um autor desconhecido e independente. A verdade é que a gente não espera algo de valor de quem nunca ouviu falar. Então ter gostado de algo novo atiça a curiosidade e faz o sabor ficar ainda melhor. A forma como os leitores abraçaram a história fez toda a diferença para ela alcançar outras pessoas. Acredito que por terem gostado do livro, mais o fato de ser um autor nacional e ainda por cima independente, as pessoas se conectaram com o mesmo objetivo de fazer essa história voar mais alto. Normalmente, quando eu envio os livros para as pessoas eu faço questão de autografar e escrever uma mensagem que é a mais pura verdade: “Agora você também faz parte dessa história”. Há alguns motivos para o sucesso e o maior deles não é segredo: foi o apoio de todo mundo que leu e gostou. Que não simplesmente leu, curtiu e colocou na estante. Mas leu, curtiu e fez questão de falar para outras pessoas.

– Você se vê escrevendo obras que não sejam thrillers ou similares?
Sim, com certeza. Eu nunca pensei em ser um autor específico de romance policial. Eu já tinha a ideia de uma segunda história policial e que estou escrevendo agora, mas depois pretendo trabalhar em um outro projeto que está guardado que não será dentro deste gênero, apesar de ter um certo tipo de investigação. Porém, será mais uma história sobre a jornada de um homem, com uma exploração quase arqueológica. Eu não foco em um gênero, depende da ideia que surgir. E eu ainda quero escrever algo para crianças. Um dia, quem sabe, quando eu pensar em uma boa história infantil.

– Como você vê o cenário literário nacional atualmente?
Eu acho que precisa melhorar bastante. Os autores nacionais estão abrindo espaço na marra, com publicações independentes e através de editoras menores, e só depois disso, alguns (poucos) com grandes editoras. O peso para as publicações nacionais em comparação com as que vem de fora ainda é muito desequilibrado. As tiragens de livros brasileiros são bem menores. E, apesar dos leitores estarem mais abertos a livros nacionais, este cenário ainda precisa melhorar muito. Muito. Não é à toa que raramente vemos uma ficção nacional na lista dos mais vendidos. Poucos autores conseguem viver apenas de escrita, a maioria precisa escrever e ter outra fonte de renda. É preciso mais confiança e chance tanto dos leitores quanto das editoras. E isso é um ciclo. Com mais procura de obras nacionais, maior será o investimento das editoras, que vai fomentar a curiosidade de novos leitores e assim essa roda vai girando. Acho que está melhor, mas em comparação, estamos muito, mas muito longe do que podemos ser.

Baía da Esperança – Jojo Moyes

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Dona de um passado obscuro, Liza McCullen escolheu Silver Bay, na Austrália, onde mora a tia-avó Kathleen, para reconstruir a vida ao lado da filha, Hannah. Na pequena comunidade, Liza é responsável por um barco de observação de baleias e golfinhos e dirige o decadente hotel Baía da Esperança com a tia-avó. Mike Dormer trabalha na área de empreendimentos de luxo e se hospeda no Baía da Esperança a fim de avaliar Silver Bay para a construção de um glamouroso resort. A aprovação do projeto está nas mãos de Mike e ele sabe que a implantação do negócio irá trazer consequências drásticas para o local e as pessoas que aprendeu a amar.

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A Última Carta de Amor Como eu era antes de você estão entre meus livros preferidos da vida. E, logo depois que os li, em 2013, descobri que Jojo Moyes tinha obras anteriores já publicadas em português, mas por outra editora. Até cogitei comprá-los, mas confesso que rolou um preconceito infundado – os títulos não me apeteceram, tampouco as capas. Quando a Intrínseca anunciou que havia comprado os direitos sobre tais livros da autora, decidi lê-los. Comecei por Baía da Esperança e, pelo menos por enquanto, não pretendo me aventurar com os outros.

Não me entendam mal, Baía da Esperança não é um livro ruim – tanto é que dei 3 estrelas. No entanto, também não chega a ser uma história realmente boa. É como se fosse um rascunho das tramas incríveis que Jojo criou em A Última Carta de Amor Como eu era antes de você. Claro que alguns elementos do estilo da autora estão presentes no livro, como a capacidade de unir passado e presente, os dilemas e o poder de intrigar o leitor. Mas, no geral, Baía da Esperança não chega aos pés das minhas histórias preferidas de Jojo.

“Experiente” em comédias românticas e livros de chick lit, não foi difícil para mim sacar a trama logo no início do livro. Esperava uma história previsível e foi exatamente o que encontrei. É verdade que a autora criou alguns plot twists, mas nada tão surpreendente assim. Senti falta do ótimo ritmo que ela costuma empregar em suas obras e também dos personagens cativantes – nenhum realmente me conquistou em Baía da Esperança.

A  história é narrada sob vários pontos de vista – desde a adolescente Hannah até a senhora Kathleen -, recurso que Jojo adora usar e que sempre funciona! E, por mais que a trama seja até certo ponto clichê, é fato que a autora sabe como emocionar o leitor, ainda que com um pezinho no pedante! O que mais me incomodou em Baía da Esperança, porém, foi a forma com que a história, de tantos dilemas e pontas soltas, se resolveu: tudo fácil e conveniente demais.

Título original: Silver Bay
Editora: Intrínseca
Autor: Jojo Moyes
Ano: 2007
Páginas: 393
Tempo de leitura: 6 dias
Avaliação: 3 estrelas

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Loney – Andrew Michael Hurley

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Localizado na costa da Inglaterra, o Loney é um lugar sombrio e misterioso, que já foi palco de acontecimentos inexplicáveis. Ao lado do irmão, Hanny, Smith os presenciou e, 40 anos depois, é obrigado a revisitar o passado, quando os restos mortais de uma criança são descobertos após uma tempestade de inverno.

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Antes mesmo do lançamento no Brasil, Loney já era sensação nas redes sociais. Muito por conta da linda edição em hardcover publicada pela Intrínseca, mas também pela promessa de ser um livro de terror assustador. Como amo histórias de horror, é claro que criei expectativas altíssimas. E lamento informar que terminei a leitura um pouco decepcionada.

No entanto, isso não quer dizer que Loney seja um livro ruim. Ele é apenas diferente daquilo que eu havia imaginado com base nos comentários que li nas redes sociais. Se a obra de Andrew Michael Hurley fosse um filme, eu o definiria como “não hollywoodiano”. Isso porque não segue o ritmo eletrizante de um thriller típico, nem conta com os sustos característicos de obras de terror. Aguçado no terror psicológico e com uma rica e poderosa atmosfera*, Loney é pura sutileza e mistério.

Falando em mistério, acho que Hurley exagerou um pouco na dose de suspense da história. Digamos que, ao longo das 304 páginas do livro, pouco realmente acontece. E a primeira metade da trama deixa muito a desejar no quesito ritmo. Claro que esses são “efeitos colaterais” da sutileza da obra, mas é inegável que comprometem um pouco a leitura.

A relação de lealdade, proteção e aceitação que existe entre Smith e Hanny é um dos pontos altos de Loney. Esther Smith, a mãe da família, é a única coisa nada sutil da história. Extremamente irritante, ela é a forma eficaz que Hurley encontrou de explorar alguns dos pontos mais interessantes da trama: a religião* e a hipocrisia. No final das contas, para mim fica claro que, mais do que uma história de terror, Loney é um livro sobre a fé e o amor, em toda sua subjetividade.

Título original: The Loney
Editora: Intrínseca
Autor: Andrew Michael Hurley
Ano: 2015
Páginas: 304
Tempo de leitura: 7 dias
Avaliação: 3 estrelas

*Falei bastante sobre o terror psicológico, a atmosfera, a relação entre os irmãos e a influência da religião de Loney nos posts da Semana Especial dedicada ao livro, proposta pela Intrínseca!

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Semana Especial Loney: a influência católica do autor e o folclore

Loney é uma das grandes apostas da Intrínseca para 2016 e, para levar a história de Andrew Michael Hurley ainda mais longe, a editora convidou os blogs parceiros a participar de mais uma Semana Especial (já fizemos de O Regresso e também de Toda luz que não podemos ver).

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Ao lado do Loney, a religião talvez seja a personagem principal da obra de Andrew Michael Hurley. Mais do que um livro de terror ou mistério, Loney é uma história sobre a crença e a subjetividade da fé. Desde o início da trama, fica claro que Esther Smith, a mãe da família, é do tipo católica fervorosa e faz questão de impor seus valores aos filhos e ao marido. Ao mesmo tempo, é evidente que os laços de Smith com a religião, no passado e principalmente no presente, já foram mais fortes.

Ao longo da história, entendemos alguns dos motivos que enfraqueceram a relação de Smith com a religião. Mas muitos permanecem obscuros para o leitor. Coroinha dedicado, o personagem nunca havia contrariado os desejos da mãe, pois realmente acreditava nos ensinamentos do Catolicismo. No entanto, quando passa a conviver com o padre Wilfred, conhece um lado do sacerdote que o leva a questionar, ainda que silenciosamente, os valores da religião.

E é por aí que entramos na minha parte favorita da discussão, que contempla a hipocrisia, a conveniência e a subjetividade inseridas no contexto da crença e da religião. Hurley foi corajoso em fazer com que toda a lealdade do padre Wilfred e da mãe fossem colocadas à prova, devido ao comportamento intransigente e contraditório dos dois.

E é por meio dos dois personagens que a hipocrisia e a conveniência são expostas: enquanto, para a comunidade, é um padre exemplar e de caráter aparentemente irretocável, Wilfred confere tratamento duvidoso aos coroinhas. Antes de sua morte, adota um comportamento estranho e totalmente repreensível enquanto sacerdote. Já a mãe tenta impor seus valores a todos, a qualquer custo, e permite que sua fé na religião rompa as barreiras do que é aceitável. Além disso, enquanto idolatra Wilfred cegamente, julga e pune o padre Bernard de maneira infundada. Ou seja, sempre dois pesos e duas medidas.

Já a subjetividade da fé é meu ponto preferido de Loney. Primeiro porque, pessoalmente, sou mais propensa a acreditar em fé do que em religião (deixando claro que respeito as escolhas de cada um). Segundo porque, para mim, é aí que está a verdadeira beleza da história de Hurley. Assim como é sutil na dose de terror, o autor é comedido também na hora de passar a mensagem central de Loney. Sem dramas ou lições de moral, o livro nos mostra que religião e fé são coisas diferentes. A primeira é sobre “pertencer” e crer enquanto comunidade. Enquanto a segunda é sobre acreditar por si só. E aceitar e proteger Hanny como Smith faz é a maior prova de que, independentemente de religião, a fé deve vir acima de tudo.

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Semana Especial Loney: os personagens e a relação entre os irmãos

Loney é uma das grandes apostas da Intrínseca para 2016 e, para levar a história de Andrew Michael Hurley ainda mais longe, a editora convidou os blogs parceiros a participar de mais uma Semana Especial (já fizemos de O Regresso e também de Toda luz que não podemos ver).

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Loney é uma história rica em personagens tridimensionais e complexos. E todos, sem exceção, apresentam peculiaridades que tornam a trama ainda mais intrigante. Para começo de conversa, nosso interlocutor, Smith, é ao mesmo tempo um homem misterioso e um garoto bondoso, que carrega o peso de cuidar de Hanny, o irmão deficiente. Isso porque, desde o início, fica claro que a história narrada aconteceu há muito tempo, quando ele ainda era apenas um menino. No entanto, o leitor a conhece por meio das lembranças de um Smith adulto e já envelhecido, no tempo presente.

Hanny, por sua vez, sofre de uma misteriosa condição de saúde que o impossibilita de falar e lhe traz dificuldades de aprendizagem. Mas em nenhum momento restam dúvidas de que Hanny entende o que acontece ao seu redor e se comunica à sua própria maneira, apesar de suas limitações. A mãe dos irmãos Smith é, com certeza, a personagem mais irritante de Loney. Religiosa fanática, é intransigente, arrogante, hipócrita e grosseira. No entanto, é peça fundamental da história: primeiro porque, se não fosse sua teimosia e fé cega que beira a burrice, voltar ao Loney não seria exatamente uma opção; e, mais importante, porque, muito embora todos os personagens sejam católicos fervorosos, é por meio dela que vemos as incongruências deste tipo de fanatismo.

O pai dos Smith, assim como o casal Belderboss e a Srta. Bunce, são omissos e meros coadjuvantes. Ou seja, nada despertam no leitor. Já os padres Wilfred e seu sucessor, Bernard, são tão intrigantes quanto o restante da história. O primeiro, a princípio, passa a impressão de ser um homem de caráter irretocável. Em um segundo momento, porém, fica claro que Wilfred não é digno de todo o sentimento de idolatria que a comunidade tem por ele. Já o padre Bernard é, ironicamente, o alvo de todo o julgamento e desconfiança infundada da Sra. Smith, o que abre discussões sobre hipocrisia e valores da religião (que será o assunto de amanhã!).

E os personagens excêntricos não acabam por aí. Os proprietários da casa em que o grupo fica hospedado no Loney, assim como os vizinhos em Coldbarrow, apresentam comportamentos estranhos, o que não é mera coincidência. E, ao longo da história, todas as excentricidades da trama e de seus personagens se conectam, mostrando que Hurley não os criou pelo simples prazer de alimentar a curiosidade do leitor.

A relação entre os irmãos Smith

O cuidado e o sentimento de proteção que Smith tem para com Hanny chegam a ser comoventes. E mais do que apenas cuidar do irmão deficiente, Smith faz o que pode para entendê-lo e aceitá-lo da forma como é – o que é um comportamento completamente oposto ao da mãe.

Conforme avançamos na história, porém, fica evidente que a profunda relação entre os irmãos não é mero detalhe ou uma forma de tornar Loney mais “caloroso” ou humano. A maneira como Smith protege Hanny com tudo o que tem explica os rumos da trama e, mais do que isso, é a representação da subjetividade da fé, da lealdade e também do amor.

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Semana Especial Loney: a construção da atmosfera

Loney é uma das grandes apostas da Intrínseca para 2016 e, para levar a história de Andrew Michael Hurley ainda mais longe, a editora convidou os blogs parceiros a participar de mais uma Semana Especial (já fizemos de O Regresso e também de Toda luz que não podemos ver).

A criação da atmosfera talvez seja o maior mérito de Andrew Michael Hurley em Loney. O que faz todo o sentido, já que o grande protagonista na história não é um personagem e, sim, um lugar. E para mim, a ambientação física é um dos principais ingredientes para a construção da atmosfera de uma trama, seja ela alegre ou assustadora. Não por acaso, o Loney, com suas intrigantes e misteriosas peculiaridades, é o cenário propício para o desenvolvimento de uma história de suspense.

Outro ingrediente fundamental para a criação da atmosfera de Loney é o fato de que o leitor nunca sabe ao certo com o que de fato está “lidando”. Bruxaria, assombração, maldição ou até loucura? E as dúvidas e especulações acerca de tudo o que ainda vai se desenrolar contribuem não apenas para o terror psicológico da história (assunto do primeiro post da Semana Especial), mas para a construção da atmosfera pesada e, às vezes, até sufocante.

A presença fortíssima da religião (que será o tema da quinta-feira) também é determinante em Loney. Para mim, tudo o que envolve a discussão da existência ou não de Deus ou uma força superior é automaticamente polêmico e inquietante, além de flertar perigosa e tentadoramente com o oculto. E para completar, cada personagem apresenta particularidades – como o fanatismo da mãe de Smith, a dualidade do Padre Bernard, o comportamento incompreensível do Padre Wilfred – que se completam e tornam cada aspecto da trama ainda mais intrigante.

E isso tudo somado ao desconforto que o Loney como espaço impõe aos personagens , e consequentemente ao leitor, não poderia resultar em nada menos do que uma atmosfera muito bem construída, que envolve justamente por revelar, ao mesmo tempo, tudo e nada sobre a história.

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