Resenha de Água fresca para as flores – Valerie Perrin

Os mortos são os vizinhos de Violette Toussaint. Há 20 anos, ela trabalha como a zeladora de um cemitério na região francesa de Borgonha. E é no aconchego de sua pequena e charmosa casa que muitos visitantes choram a perda de seus entes queridos. Certo dia, Violette recebe a visita de Julien Seul, que procura explicações para o último pedido de sua mãe: ter suas cinzas colocadas no túmulo de um homem que ele não conhece.

Em Água fresca para as flores, passeamos por toda a história de Violette: o abandono quando bebê, a vida conturbada com o marido, a experiência com a maternidade… No entanto, Valerie Perrin também nos apresenta a pequenos recortes da vida de outros personagens, como Irène Fayolle, a mãe de Julien Seul, e os amigos e colegas de trabalho de Violette. E assim, cria um mosaico de existências que se complementam em suas faltas e excessos.

A escrita de Perrin é singela e singular, e realmente me transportou para dentro da história. Me senti caminhando por entre os túmulos do cemitério de Brancion-en-Chalon, sentada no sofá tomando chá com Violette ou no passado protagonizado por Irène. Em muitos momentos, pode não ficar claro onde a autora quer chegar com a história (e, talvez, algumas páginas a menos não fizessem mal). Porém, não considero um aspecto negativo, mas, curiosamente, um dos diferenciais da obra.

Água fresca para as flores é uma história sobre o amor, a vida e a morte, em suas mais variadas formas – afinal, há várias maneiras de amar, viver e morrer. É também um tributo à vida de quem partiu e um acolhimento à morte que é perder quem amamos e continuarmos vivos. Violette, com sua vivência e jeito de ser, nos mostra como é importante falar sobre a morte e os mortos. É assim que o amor continua a existir.

Embora eu tenha gostado do título traduzido, gostaria de destacar o original, que diz “changer l’eau des fleurs” – ou “trocar a água das flores”. A diferença é sutil, mas gosto da presença do verbo, implicando o nosso papel, a nossa ação nessa “reciclagem”. Porque trocar a água das nossas flores metafóricas é o que precisamos de tempos em tempos e é também uma tarefa que só cabe a nós mesmos.

Com um cemitério como pano de fundo, Água fresca para as flores pode parecer um livro mórbido. Mas é, na verdade, um refresco para a alma e um alento para o coração. Porque, acima de qualquer coisa, fala sobre tudo o que existe nos espaços entre cada fase do inevitável ciclo de nascer, viver e morrer. É uma linda história sobre regar e cultivar terrenos férteis para que possamos florescer.

Título original: Changer l’eau des fleurs
Editora: Intrínseca
Autora: Valerie Perrin
Tradução: Carolina Selvatici
Publicação original: 2018

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