A Sorte do Agora – Matthew Quick

IMG_7223

Em quase 40 anos de vida, Bartholomew Neil nunca trabalhou fora, nem tomou uma cerveja com um amigo ou sequer teve um encontro amoroso. Apenas morou com a mãe e cuidou dela em seus últimos anos de vida. Por isso, não é de se surpreender que, após a morte de sua única família, Bartholomew não saiba exatamente como tocar a vida. Completamente perdido, ele encontra uma carta de Richard Gere na gaveta de calcinhas da mãe, o que considera um sinal do destino, e começa escrever para o ator. Em seus relatos extremamente íntimos, Bartholomew revisita a infância, relembra o passado, mantém a memória da mãe viva e narra sua jornada em busca de novos companheiros para a vida.

asortedoagora

Não tem como negar que Matthew Quick é repetitivo em seus livros. No entanto, por mais que o comentário soe negativo, não se trata de uma crítica. Explico: por incrível que pareça, apesar de abordar os mesmos temas e formatos, o autor sempre consegue, de alguma forma, encontrar o ineditismo em suas obras e presentear o leitor com tramas envolventes e morais da história inspiradoras. Em A Sorte do Agora, Quick recorre mais uma vez à narrativa epistolar, ou seja, as cartas têm papel fundamental no desenrolar da história, assim como em O Lado Bom da Vida e Perdão, Leonard Peacock.

E o que é a realidade senão a forma como nos sentimos sobre as coisas?

Já de Quase uma rockstar, o autor empresta a forma de abordar a religião, de maneira fervorosa, mas livre de intolerância. As principais características dos protagonistas são outra semelhança entre as duas obras: tanto Bartholomew, quanto Amber Appleton são ingênuos e têm senso de humor apurado, além da compaixão e da vontade de fazer o bem. E se Dr. Patel e Herr Silverman brilham como coadjuvantes em O Lado Bom da Vida e Perdão, Leonard Peacock, respectivamente, a finada mãe de Bartholomew é quem rouba a cena em A Sorte do Agora, apesar de não aparecer no livro “em tempo real”, com suas teorias e filosofias, que se transformam em ensinamentos e motivos de reflexão.

“Reze para seu coração ser capaz de aguentar tudo o que acontecer com você no futuro. Seu coração tem que continuar acreditando que os acontecimentos neste mundo não são tudo ou nada, e sim simples variáveis transitórias sem importância”

A Sorte do Agora pode ter momentos previsíveis e não apresentar grandes novidades em relação às outras obras de Matthew Quick. Mas é mais uma prova de que o autor é capaz de navegar entre polos opostos com maestria e criar histórias sensíveis e brutais, devastadoras e bem humoradas e, acima de tudo, repletas de dor e de esperança. Com personagens de certa forma irreais, mas extremamente cativantes, Quick explora as melhores virtudes humanas e, em A Sorte do Agora, nos mostra que fingir não precisa ser sempre algo ruim – pelo contrário, pode ser a chave para transformar em realidade.

Título original: The Good Luck of Right Now
Editora: Intrínseca
Autor: Matthew Quick
Ano: 2014
Páginas: 224
Tempo de leitura: 1 dia
Avaliação: 4 estrelas

Veja mais livros de Matthew Quick

selo-2015

Quase uma rockstar – Matthew Quick

IMG_0281

Amber Appleton, a mãe e o cachorro, Bobby Big Boy, estão desabrigados e moram em um ônibus escolar, à margem da miséria.  Com apenas 17 anos, a garota já passou por poucas e boas, mas mantém o otimismo incansável e a vontade inabalável de ajudar a todos. No entanto, quando (mais) uma tragédia acontece, Amber vê toda a sua esperança abandoná-la e passa a considerar impossível enfrentar os obstáculos da vida com a graça e energia de antes.

rockstar

Logo no início de Quase uma rockstar, já damos de cara com as características típicas de Matthew Quick, como o senso de humor apurado, a sensibilidade e a habilidade de tratar assuntos pesados de forma irreverente, mas sempre responsável. A religião, que aparece bastante em Perdão, Leonard Peacock, marca presença também em Quase uma rockstar – já que Amber é católica ferrenha -, de uma maneira que me lembrou bastante de As Aventuras de PiExplico: uma das coisas que mais gostei na obra de Yann Martel foi a capacidade de trazer a religião à tona de forma democrática e respeitosa. E Quick consegue o mesmo feito, ao mostrar Deus e a fé como pilares para enfrentar dificuldades, mas não blindagens absolutas.

Não importa quantas provas existam de que a vida não faz sentido, precisamos acreditar que sim, ela faz.

Por que Deus permite que coisas horríveis aconteçam com pessoas boas?

A forma como Amber se comporta e se expressa e, principalmente, as “missões” que ela impõe a si mesma me lembraram bastante de Madison, de Condenada, o que é um ponto positivo, já que gostei bastante da obra de Chuck Palahniuk. A grande diferença entre as duas personagens é que Madison tem o diabo “ao seu lado”, enquanto Amber sempre recorre a JC, como gosta de se referir a Jesus Cristo.

Nós choramos juntos
As razões são diferentes
Mas ajuda muito.

Com personagens cativantes e uma protagonista extremamente inspiradora e tridimensional, Quase uma rockstar é um tapa na cara daqueles que adoram ser os “coitadinhos” de qualquer situação. Com a história de Amber, Matthew Quick é capaz, mais uma vez, de provocar uma esperança redentora, mas nunca cega ou irreal. No entanto, a principal mensagem de Quase uma rockstar é: mesmo quando a vida parece não fazer sentido, quem faz o bem inevitavelmente recebe o bem – ainda que não seja o que lhe é justo, mas o que lhe é possível.

Título original: Sorta Like a Rock Star
Editora: Intrínseca
Autor: Matthew Quick
Ano: 2010
Páginas: 256
Tempo de leitura: 1 dia
Avaliação: 4 estrelas

Veja mais livros de Matthew Quick

SELO BLOG

Perdão, Leonard Peacock – Matthew Quick

perdao-leonard-peacock

Leonard Peacock é um adolescente com pouquíssimos amigos e uma mãe ausente. Depressivo, ele está determinado a atirar em Asher Beal, seu colega de escola, e depois se suicidar – tudo isso no dia de seu aniversário de 18 anos. Para aproveitar suas últimas horas de vida, Leonard pretende entregar presentes aos poucos amigos para se despedir em silêncio. Basta saber se, até o fim do dia, ele ainda terá coragem e, principalmente, motivos para cumprir sua missão.

Encontre o melhor preço de Perdão, Leonard Peacock

Em Perdão, Leonard Peacock, Matthew Quick usa recursos muito parecidos com os utilizados em O Lado Bom da Vida: Leonard tem a mãe, Linda, como principal alvo de ódio e razão da maioria dos seus problemas, enquanto Pat Peoples tem Nikki; os mistérios fazem parte tanto do passado de Pat, como do de Leonard, a única diferença é que o protagonista de O Lado Bom da Vida também não sabe dos fatos ocorridos, ao passo em que Leonard apenas demora para contá-los ao leitor; as relações de ambos os personagens com as figuras paternas são conturbadas, mas essenciais; Pat tem a necessidade de agradar as pessoas pela insegurança sobre seu passado, enquanto Leonard, apesar de decidido a acabar com a própria vida, tenta, ainda que de forma inconsciente, criar algum laço com aqueles que estão ao seu redor; e, por fim, a lealdade e o apoio que, para Pat, aparecem em seu terapeuta, Cliff Patel, surgem no professor de Leonard, Herr Silverman.

Perdão, Leonard Peacock é uma obra cheia de paradoxos. O protagonista cria um clima sombrio e frio, mas, ao mesmo tempo é cheio de boas intenções e tem um ar sonhador. Às vezes, parece ser apenas um menino inocente, no entanto, em muitos outros momentos, não tem receio de ser irônico e sarcástico. Leonard não procura por uma religião e até mesmo debocha da garota evangélica que tenta converter pessoas na rua, mas a verdade é que ele busca, sim, algo em que acreditar. Talvez, este algo não seja Deus e, sim, apenas deus.  E é claro que os temas suicídio e homicídio não evocam os melhores sentimentos dentro de nós, mas Quick sabe transformar ingredientes pesados como estes em delicadeza e otimismo.

A obra de Quick tem um ritmo envolvente e narra, na maior parte do tempo, apenas o dia em que Leonard pretende matar Asher Beal e depois se suicidar. O autor intercala fatos do presente com os do passado, que mostram por que o protagonista teve esta ideia, e também cartas do futuro, que têm papel fundamental na trama. Se eu tivesse que resumir Perdão, Leonard Peacock em apenas uma palavra, ela seria “esperança”. De existir um futuro melhor e pessoas que realmente se importam.

Título original: Forgive Me, Leonard Peacock
Editora: Intrínseca
Autor: Matthew Quick
Ano: 2013
Páginas: 224
Tempo de leitura: 2 dias
Avaliação: 4 estrelas

Veja mais livros de Matthew Quick

O Lado Bom da Vida – Matthew Quick

o-lado-bom-da-vida

Pat Peoples é um ex-professor de 30 anos que acaba de sair de um hospital psiquiátrico. Pat não se lembra como foi parar no “lugar ruim”, como ele chama o local, e também nem desconfia de que passou muito mais tempo por lá do que imagina. Tudo o que sabe é que sua esposa, Nikki, pediu um “tempo separados” e, ao sair do “confinamento”, seu maior objetivo é se tornar uma pessoa melhor para reconquistá-la. No entanto, quando volta para o mundo real, Pat percebe que muitas coisas não são mais como antes: seu pai o ignora, sua mãe chora com frequência, seus amigos o tratam cheios de dedos e, mesmo assim, ninguém parece disposto a contar-lhe a verdade sobre o tempo que passou fora. Com muitos buracos em suas lembranças, Pat precisa reconstruir sua memória e, claro, encontrar uma forma de acabar com o “tempo separados”.

oladobomdavida

A leitura de O Lado Bom da Vida já começa permeada pela curiosidade sobre o passado de Pat. Conforme ele reencontra seus amigos e familiares e as situações se desenrolam, quase sempre de forma desconfortável, muitas especulações passam pela cabeça do leitor. Acontece que a obra é narrada em primeira pessoa por Pat e ele também não tem muitas informações sobre sua própria vida – como, por exemplo, que é um torcedor fanático dos Eagles. E, assim, você passa a saber mais sobre o protagonista ao mesmo passo em que ele também descobre mais sobre si mesmo.

Durante todo o livro, Pat costuma citar Nikki em tudo o que pensa e faz. Ele lê clássicos da literatura porque Nikki gostaria; ele treina ser gentil em vez de ter razão porque Nikki ficaria orgulhosa; ele se culpa por certas atitudes descontroladas porque Nikki ficaria brava; e por aí vai. E essa obsessão pode irritar em alguns momentos porque, embora não saibamos o porquê, está bem claro que Nikki não faz questão de participar da vida de Pat. No entanto, também traz doses de romantismo, otimismo e esperança à história.

Outros ingredientes bastante presentes em O Lado Bom da Vida são a sinceridade e a lealdade. Ambos são fortemente representados por Pat, que é, acima de tudo, sincero (até demais) e leal àqueles que ama – e, principalmente, à Nikki. Tiffany, que surge como mera coadjuvante, mas ganha espaço ao longo da história, também é bastante fiel à sua estranha amizade com Pat, ainda que de um jeito peculiar, assim como Cliff Patel, o terapeuta do protagonista.

A obra de Matthew Quick ensina a não desistir daquilo em que realmente acreditamos, mesmo quando tudo e todos parecem estar contra nós. Mas,antes que a palavra “clichê” brote na sua cabeça, saiba que essa história é, principalmente, sobre o tempo que cada um precisa para entender e fazer aquilo que é certo. Por fim, O Lado Bom da Vida é uma história que pode ser trágica e cômica, feliz e triste, calma e agitada. Tudo ao mesmo tempo. E é por isso que, apesar de ter um enredo incomum, é tão fácil de se identificar com ela. Afinal, a vida não é mais ou menos assim, tudo ao mesmo tempo, de um extremo para o outro?

Título original: The Silver Linings Playbook
Editora: Intrínseca
Autor: Matthew Quick
Ano: 2008
Páginas: 256
Tempo de leitura: 3 dias
Avaliação: 5 estrelas

**O Lado Bom da Vida virou filme em 2012 (lançado no Brasil em 2013) e agradou à crítica, já que foi indicado a oito Oscar, incluindo o de Melhor Filme, e faturou o de Melhor Atriz, com Jennifer Lawrence no papel de Tiffany. Apesar dos elogios ao longa dirigido por David O. Russell, que também concorreu à estatueta, a versão cinematográfica de O Lado Bom da Vida não é exatamente fiel à obra de Matthew Quick. Por isso, até vale assistir (principalmente pela atuação digna de Oscar de Bradley Cooper, a melhor parte da adaptação), mas não espere ver o livro que você leu na tela. 

Veja mais livros de Matthew Quick