Resenha de Até que a culpa nos separe – Liane Moriarty


Amigas desde a infânciaClementineErika sempre foram opostos: enquanto a primeira cresceu em uma família bem-estruturada, a segunda teve que aprender, desde cedo, a lidar com as questões da mãe acumuladora. Depois de adultas, as diferenças se mantiveram, e a vida sem filhos e extremamente organizada de Erika não poderia contrastar mais com a rotina quase caótica de Clementine, que se tornou violoncelistamãe de duas meninas. A amizade das duas sempre foi frágil e peculiar. No entanto, depois de um inocente churrasco que se torna palco de uma proposta delicada e de uma tragédia anunciada, a relação das duas é, mais do que nunca, colocada à prova.

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Eu juro que tento, mas é muito difícil controlar as expectativas quando se trata de um autor que já me surpreendeu não apenas uma, mas duas vezes. Conheci Liane Moriarty com O Segredo do Meu Marido, que eu pensava ser um daqueles romances de banca. Então, imagina a minha surpresa quando me deparei com uma história com muito suspense e segredos? Depois, veio Pequenas Grandes Mentiras, que também envolve mistério, com direito até a assassinato. Ou seja, com esse retrospecto, foi impossível não esperar muito de Até que a culpa nos separe.

Seria exagero dizer que o novo livro de Liane Moriarty foi uma decepção. Mas que deixou a desejar, ah, deixou! Em Até que a culpa nos separe, a autora segue a mesma fórmula das obras anteriores: boas doses de mistério com uma pitada de segredo. A isso, adicionamos negligência, culpa e consequências. Ou seja, um prato cheio para uma trama intrigante e envolvente, certo? Sim, mas só até determinado ponto.

Em Até que a culpa nos separe, Liane Moriarty narra os acontecimentos sob diferentes pontos de vista, no passado (dia do churrasco) e no presente. E, realmente, a leitura é super envolvente, até que descobrimos qual foi o acontecimento que transformou a vida de todos os envolvidos. Depois disso, a história fica arrastadaperde um pouco do propósito. Muitas vezes, a sensação chega a ser de que a autora está “enrolando” o leitor, tentando manter um clímax que, na verdade, já se perdeu. E o resultado é um final fácil, simples demais se comparado a tudo o que os personagens enfrentam durante o livro.

O que faz a leitura de Até que a culpa nos separe valer a pena é a habilidade que Liane Moriarty tem de criar personagens tridimensionaishistórias muitos bem amarradas. Também gosto muito de como a autora traz elementos do chick lit (no caso, maternidadevida a dois) para suas obras, mas de uma maneira realista. Apesar de não ter me cativado enquanto trama, Até que a culpa nos separe tem seu valor, por fazer refletir sobre como a culpa transforma as pessoas e, consequentemente, as relações.

Título original: Truly, Madly, Guilty
Editora: Intrínseca
Autor: Liane Moriarty
Ano: 2016
Páginas: 464
Tempo de leitura: 9 dias
Avaliação: 3 estrelas

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Pequenas Grandes Mentiras – Liane Moriarty

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Pequenas Grandes Mentiras narra as histórias de três mulheres que moram em Pirriwee, na Austrália, e cujas vidas se conectam de maneira inesperada – mas que irá trazer mudanças drásticas e definitivas para todas elas. Madeline está em seu segundo casamento, é mãe de três filhos, adora se vestir bem e não perde a chance de entrar em uma briga. Quando Nathan, o ex-marido, se muda para Pirriwee com a nova – e impossível de odiar – esposa e reconquista a filha que abandonou muitos anos antes, Madeline vê a oportunidade perfeita para criar um confronto.

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Celeste é dona de uma beleza estonteante e forma o casal perfeito com Perry. Ela parece viver em seu próprio mundo, o que é totalmente compreensível, já que é mãe de um par de gêmeos hiperativos. No entanto, pode ser que a verdade por trás do temperamento aéreo de Celeste seja, na verdade, um segredo impossível de revelar. Jane, por sua vez, é uma jovem mãe solteira que se muda para Pirriwee com o filho, Ziggy, em busca de um recomeço. Logo, ela é acolhida por Madeline e Celeste, que nem imaginam como a presença de Jane e Ziggy irá mudar toda a dinâmica da pacata comunidade.

Toda a história de Pequenas Grandes Mentiras gira em torno de um assassinato misterioso. No entanto, diferente de O Segredo do Meu Marido, em que o segredo em si é revelado na primeira metade do livro, o mistério permanece por toda a leitura de Pequenas Grandes Mentiras e a gente só descobre o que realmente aconteceu – quem morreu? Como? Por quê? Quem matou? – nas últimas páginas. Pode parecer cansativo ou enervante, mas Liane Moriarty foi capaz de conduzir o suspense de maneira brilhante, ao mesmo tempo em que, aos poucos, reconstrói o assassinato.

Em meio a todo o mistério, a autora ainda encontra espaço para explorar questões como maternidade, divórcio, violência, bullying, relacionamentos e vida a dois de maneira profunda o suficiente para que nos coloquemos no lugar dos personagens e reflitamos sobre o que faríamos em tais situações. A autoestima e a autoimagem da mulher e a influencia que os outros, sobretudo os homens, têm sobre estes aspectos também são temáticas abordadas de maneira realista, porém totalmente crua e, às vezes, cruel, em Pequenas Grandes Mentiras.

Assim como o O Segredo do Meu MaridoPequenas Grandes Mentiras propõe discussões e reflexões sobre moral e ética, por meio de dilemas que nem sempre podem ser resolvidos pela objetividade do “certo ou errado” – um verdadeiro exercício de lealdade e empatia. Por abordar situações mais delicadas, mas que, infelizmente, fazem parte da vida de muitas mulheres, Pequenas Grandes Mentiras tem uma história, digamos, mais pesada do que O Segredo do Meu Marido, que conta um caso muito mais difícil de acontecer na vida real.

Além de criar um suspense muito bem amarrado e manipular o leitor, Liane Moriarty ainda foi capaz de surpreender com uma reviravolta final que eu, sinceramente, não imaginei. Após ler os dois livros da autora, posso dizer que, na minha opinião, ela é uma versão menos doentia e mais realista de Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar. Uma mistura perfeita entre chick lit, suspense e thriller, que explora como as pequenas mentiras que contamos a nós mesmos podem nos ajudar a sobreviver, mas também podem nos destruir.

Título original: Big Little Lies
Editora: Intrínseca
Autor: Liane Moriarty
Ano: 2014
Páginas: 397
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 5 estrelas

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O Segredo do Meu Marido – Liane Moriarty

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Cecilia Fitzpatrick pode ser considerada a dona de casa ideal: mãe de três meninas, Isabel, Esther e Polly, e esposa de John-Paul, ela se divide entre o emprego de consultora da Tupperware, a presidência da Associação de Pais da Escola e diversas tarefas do dia a dia. Sempre alegre e prestativa, Cecilia parece levar a vida perfeita. Mas tudo pode mudar quando ela encontra uma carta de John-Paul, que contém um grande segredo e só deve ser aberta na ocasião da morte dele.

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Rachel Crowley convive com o peso da morte da filha, Janie, assassinada quando ainda era adolescente, e não se conforma com o fato de que, quase 30 anos depois do ocorrido, ainda não sabe quem foi o responsável pelo crime. Viúva, Rachel é também mãe de Rob, de quem não é exatamente muito próxima, enquanto o neto, Jacob, é a única alegria de sua vida. No entanto, até mesmo isso está prestes a ser tomado de Rachel: Rob e a esposa, a executiva Lauren, estão de mudança para Nova York.

Tess O’Leary é casada com Will, com quem tem o pequeno Liam, e acredita levar uma vida familiar exemplar. No entanto, quando o marido e Felicity, prima e melhor amiga de Tess, anunciam que estão apaixonados, o mundo parece desmoronar. Com a desculpa de cuidar da mãe, que está com o tornozelo quebrado, em Sidney, Tess deixa Melbourne, Will e Felicity para trás. Traumatizada pelo divórcio dos próprios pais, ela precisa descobrir se vale a pena manter o casamento pela felicidade de Liam.

O Segredo do Meu Marido não estava na minha wishlist, mas, depois que a editora Intrínseca me enviou o livro, pensei em ler, já que a sinopse prometia uma história cheia de segredos e surpresas. No entanto, foi a resenha da Julia G, do Conjunto da Obra, que realmente me deu ânimo para começar a leitura, já que ela teve as mesmas primeiras impressões que eu. Antes de falar da trama em si, quero dizer que as letrinhas miúdas do livro me cansaram antes mesmo de começar a lê-lo, no entanto, conforme avançava nas páginas, se tornaram um detalhe praticamente imperceptível. Durante a leitura, os dilemas e pitadas históricas me fizeram lembrar de Jojo Moyes (de A Última Carta de Amor), enquanto as questões familiares e maternais das personagens me levaram a Emily Giffin (de O Noivo da Minha Melhor Amiga). A essas características, some ainda doses certeiras de mistério e humor ácido, que tornam a trama ainda mais cativante.

Como é narrado em terceira pessoa sob o ponto de vista de Cecilia, Rachel e Tess em capítulos alternados (às vezes, duas em um só capítulo), a história demora um pouco para engrenar, já que é preciso contextualizar não apenas uma personagem, mas três. No entanto, muito antes da metade do livro, a leitura já se torna bastante fluida. O segredo que dá título à obra de Liane Moriarty é rodeado de mistério, mas logo é desvendado – na hora certa, diga-se de passagem -, deixando em seu lugar o dilema, as questões morais e as repercussões.

Adorei a forma como a autora interligou as histórias de Cecilia, Rachel e Tess e, apesar de o grande segredo ser o fio condutor da obra, pode-se dizer que a forma como cada personagem lida com a maternidade  e a família é também o que une as três mulheres da trama. Cecilia e Rachel estão extrema, direta e indiretamente ligadas na história, enquanto Tess fica um pouco mais avulsa. No entanto, acho que ela é a responsável por trazer uma leveza ao enredo, além de causar uma identificação maior com o leitor.

Enquanto eu lia O Segredo do Meu Marido, achei que sabia mais ou menos o que iria acontecer no final. No entanto, fui completamente pega de surpresa por uma reviravolta enorme. Se o livro tivesse terminado como eu previa, já teria valido muito a pena pela amarração dos fatos e personagens. Mas o desfecho criado por Moriarty tornou a história ainda mais incrível. A obra acabaria bem aí, no entanto, um epílogo traz surpresas ainda maiores e incita reflexões interessantes não apenas sobre as histórias de Rachel, Cecilia e Tess, mas também a nossa própria.

Título original: The Husband’s Secret
Editora: Intrínseca
Autor: Liane Moriarty
Ano: 2013
Páginas: 364
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 4 estrelas

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