Livro x Filme: Fale! | O Silêncio de Melinda

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Eu queria ler Fale! já há algum tempo, mas só descobri que a história havia sido adaptada ao cinema quando li a orelha do livro (shame on me, eu sei). Então, assim que terminei a leitura, aproveitei que estava tudo “fresquinho” na memória e fui assistir ao filme, que no Brasil recebeu o título de O Silêncio de Melinda.

O longa começa com uma cena que não existe no livro, mas que acaba se tornando bastante emblemática e resume bem a história de Melinda Sordino. A atriz escolhida para interpretar a protagonista, aliás, foi Kristen Stewart, que aos 14 anos já sofria da falta de expressão e, por isso, acabou sendo uma escolha certeira para o papel – afinal, Melinda tem pouquíssimas falas e, quando abre a boca, também não é um poço de empolgação.

O filme segue o mesmo ritmo do livro, mesclando o presente com flahbacks do passado, mais especificamente da noite da festa que deu início a todo o problema. No entanto, no longa, o espectador demora menos para descobrir o que realmente aconteceu, o que é um ponto positivo, já que, na minha opinião, o livro demora muito para revelar a verdade.

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No geral, os personagens secundários, como Rachel, Heather e o Mr. Freeman, são bastante fiéis aos dos livros, mas achei os pais de Melinda muito mais compreensivos e atenciosos, o que torna os conflitos um pouco mais leves do que na obra original. O maior ponto negativo de Fale! foi a resolução relativamente fácil e simples dos problemas de Melinda. E lamento dizer que, na adaptação, a protagonista tem ainda menos dificuldade em superar os conflitos que a transformaram em uma espécie de muda por opção.

Como na maioria das adaptações de livros, a de Fale! faz questão de entregar a moral da história de bandeja e, como grande parte dos filmes em geral, também dá aquela romantizada básica nas situações. No final, O Silêncio de Melinda é uma adaptação digna do livro de estreia de Laurie Halse Anderson: mediana como a obra original.

Título original: Speak
Diretor: Jessica Sharzer
Ano: 2004
Minutos: 89
Elenco: Kristen Stewart e Steve Zahn
Avaliação: 3 estrelas

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Resenha de Fale! – Laurie Halse Anderson

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A vida de Melinda Sordino era tranquila e cheia de diversão, até o dia em que ela acabou com uma festa após ligar para a polícia. Depois do ocorrido, os antigos amigos começaram a ignorá-la e até mesmo quem não a conhecia passou a manter distância. Sozinha, Melinda se fecha cada vez mais em seu próprio mundo, até o dia em que acredita não ter mais nada de relevante para falar. O problema é que existe, sim, algo importante que ela tenta ignorar, quando é aquilo sobre o que mais deveria falar.

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Eu sempre ouvi muitos elogios a Fale!, que foi finalista do National Book Awards for Young People’s Literature em 1999, e depois de ler o incrível Garotas de Vidro, também de Laurie Halse Anderson, minha curiosidade pela obra de estreia da autora apenas cresceu. No entanto, lamento dizer que a leitura não foi tudo o que eu esperava. Decepção é uma palavra forte demais, até porque o livro é pertinente, corajoso e super sensível, mas alguns pontos definitivamente deixaram a desejar, na minha opinião.

O intuito de não conversar sobre aquilo, de silenciar a lembrança, é fazer com que ela vá embora. Mas não é o que acontece.

Fale! é um livro pequeno e a leitura é fluida, no entanto, a demora para descobrir o que exatamente aconteceu na festa antes de Melinda ligar para a polícia é cansativa e exagerada. O mistério é bem-vindo, até para simbolizar o silêncio da protagonista (que me lembrou um pouco a Laurel, de Cartas de amor aos mortos), mas realmente acho que rolou um excesso de suspense, que deixa a leitura pouco interessante em alguns momentos.

Quando as pessoas não se expressam, vão morrendo aos poucos.

Porém, para mim, o maior defeito de Fale! é que, após tanto mistério em torno do segredo de Melinda, tudo se resolve de forma relativamente fácil e simples, ainda mais em se tratando de um assunto tão sério e delicado (que não posso me aprofundar muito, pois não quero dar spoilers). No entanto, acredito que a leitura valha a pena, sim, se não tanto pela forma como aborda a temática central, pela maneira como mostra o quanto é importante não apenas falar, mas também ouvir.

Título original: Speak
Editora: Valentina
Autor: Laurie Halse Anderson
Ano: 1999
Páginas: 224
Tempo de leitura: 3 dias
Avaliação: 3 estrelas

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Garotas de Vidro – Laurie Halse Anderson

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Lia Marrigan Overbrook sofre de anorexia e acaba de perder Cassie, sua melhor amiga, vítima de bulimia. Elas estavam brigadas, mas, mesmo assim, Cassie ligou para Lia 33 vezes antes de morrer. Lia mora com o pai, a madrasta, Jennifer, e a meia-irmã, Emma, e não tem uma boa relação com ele, nem com a mãe, a médica Chloe. E esses são os principais motivos que fazem Lia contar caloria por caloria, pular a maioria das refeições e almejar um peso cada vez mais baixo. Nem mesmo a morte de Cassie é capaz de fazê-la enxergar o mal que está fazendo para o próprio corpo.

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Logo nas primeiras páginas de Garotas de Vidro, é possível sentir a culpa que a protagonista sente em relação à morte da amiga e à própria condição e como isso apenas faz com que a anorexia se agrave. O tom doentio e, por vezes, desesperado, também fica evidente, assim como a acidez que, de uma forma estranha, traz uma pitada de humor à narrativa.

O grande ponto positivo da obra de Laurie Halse Anderson é a possibilidade que ela oferece de adentrar a mente de uma pessoa com anorexia. Eu nunca conheci alguém que sofresse da doença e o meu contato mais próximo com a condição foi por meio de reportagens e programas de TV. Por isso, foi interessante, e também triste e impressionante, saber como funcionam os pensamentos de uma pessoa anoréxica – e como eles, de certa forma, fazem sentido.

O bullying é outra temática abordada pela autora, ainda que de forma mais discreta. Mas fica claro como a prática contribui para o desenvolvimento de distúrbios alimentares, que também não deixam de ser uma espécie de auto-bullying. Por tudo isso é que Garotas de Vidro é, e infelizmente deve continuar sendo por um bom tempo, um livro extremamente atual.

Eu já tinha percebido que meus olhos estavam quebrados muito antes daquilo. Mas naquele dia comecei a achar que as pessoas responsáveis não conseguiam enxergar também.

O lado dos pais e das pessoas que convivem com quem sofre de distúrbios alimentares também é retratado no livro de Laurie, ainda que de forma indireta. Muitas vezes, a atitudes dos pais podem parecer negligentes (às vezes, realmente são), mas, em outros momentos, fica claro o desespero, a impotência e a frustração.

Além de mostrar o drama de Lia e sua batalha contra a anorexia, Garotas de Vidro ainda conta com uma pitada mórbida e sobrenatural. Culpada pela morte de Cassie, a protagonista passa a ser assombrada pela amiga, o que, confesso, dá mais medo do que muito conto de terror por aí. No entanto, o estado de Lia já é tão crítico que não fica claro se é o espírito de Cassie que realmente aparece para ela ou se são apenas alucinações causadas pela saúde debilitada. Apesar de girar em torno da luta de Lia, a história ainda resgata a memória das melhores amigas, o que contextualiza a doença da protagonista e retrata os laços entre elas para o leitor.

Garotas de Vidro traz uma trama densa, impressionante e que, infelizmente, é a realidade de muitas meninas mundo afora. A história choca por retratar os pensamentos de uma pessoa que sofre de distúrbios alimentares sem censuras e torna quase possível mensurar o sofrimento de não enxergar o que todos veem. O final, na minha opinião, acabou sendo um pouco simplório, mas nada utópico ou que comprometa o restante da obra.

Título original: Wintergirls
Editora: Novo Conceito
Autor: Laurie Halse Anderson
Ano: 2009
Páginas: 269
Tempo de leitura: 4 dias
Avaliação: 4 estrelas

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