Entrevista com Gustavo Ávila, autor de O Sorriso da Hiena


Eu não tenho dúvidas de que O Sorriso da Hiena é um dos livros nacionais mais comentados de 2016 entre os Instagrams literários. E não é à toa! Com uma trama inteligente e intrigante, a obra de Gustavo Ávila entretém e atiça a curiosidade do leitor, ao mesmo tempo em que suscita reflexões e discussões sobre o comportamento e os valores da sociedade atual. E o fato de que o livro, até então independente, será publicado pela Verus Editora, é a prova de que O Sorriso da Hiena realmente tem seus méritos – e que não são poucos.

Costumamos cultuar grandes e renomados autores e rapidamente erguemos altos muros que nos separam de autores emergentes. No entanto, muitas vezes nos esquecemos de que, antes de serem criadores de “universos paralelos”, eles também são pessoas comuns, exatamente como nós. Então, além das influências e inspirações por trás de O Sorriso da Hiena, essa entrevista procura explorar um pouquinho também da “pessoa física” de Gustavo Ávila e do sonho que ele divide com muitos outros: o de ser escritor e ter suas histórias reconhecidas.

– Você sempre teve o sonho de ser escritor?
Não, eu não sou daqueles que já sabia o que queria ser desde criancinha. Eu descobri essa vontade mais tarde. Eu sempre achei incrível a capacidade de quem conseguia criar mundos, porque uma história é isso, toda ficção é um mundo único onde aquela história acontece. Isso é mágico, e parecia tão distante que eu nunca pensei nisso pra mim. Só quando eu comecei a trabalhar como redator publicitário que essa possibilidade se abriu. Essa vontade de escrever minhas próprias histórias. Eu descobri que tinha uma facilidade para escrever, de imaginar coisas, e esse desejo começou a crescer. E cresceu tanto que todo o resto se tornou monótono.

– Quais foram as suas principais influências?
Eu nunca tive um autor preferido. Eu tenho alguns livros que me fizeram pensar sobre algo e sentir algo. E são essas duas coisas que busco enquanto escrevo: pensar e sentir. Tanto faz a ordem. Um dos meus livros preferidos é o O Médico e o Monstro. E o motivo é porque ele é muito mais do que uma história, ele levanta um debate, ele tem uma ideia muito maior por trás das palavras, ele fala sobre uma coisa real dentro de cada um de nós. Pra mim, esse é o grau máximo que um livro pode alcançar, ser mais do que uma história. Mas ele também não é só uma reflexão intelectual, ele tem uma trama que faz você querer saber como vai acabar, que te instiga. Eu, nas minhas histórias, quero empregar a influência que esse livro é pra mim. Conseguir levantar um questionamento que te faça pensar sobre algo junto com uma história que também te carregue para o mundo dela, seja de forma leve ou pesada, mas que te entretenha e passe uma ideia.

– E quais foram suas inspirações para escrever O Sorriso da Hiena?
A maior inspiração foi o incômodo com as coisas que nós, seres humanos, fazemos uns com os outros. Eu odeio parecer pessimista, mas é difícil ser otimista quando se vê tanta coisa errada ao nosso redor. E não falo isso só sobre os atos mais cruéis como, cortar a cabeça de alguém que não segue a mesma religião, falo também de coisas “pequenas” como levar uma vantagem rápida em cima da pessoa que está do seu lado, como ser dono de uma empresa e ser um filho da p*** com os funcionários. Eu acho que nosso maior erro é a comparação dos nossos atos com os atos que vemos nos outros, assim parece que é possível justificar porque, nesta comparação, nossa maldade nem chega a parecer maldade. Criamos uma escala imaginária que nos permite fazer coisas que são escadas para outras ainda piores, e que vai amargando a vida. Não é à toa que você abre as redes sociais e tem tanta gente reclamando. É uma maldade contínua e cíclica. O livro fala sobre uma maldade específica e que todo mundo acha cruel, absurda, mas o que ele quer debater mesmo é a maldade em si, presente em todos os atos de crueldade. A inspiração veio disso, do como o ser humano, em diversas ocasiões, consegue se transformar em um bicho tão ruim.

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– Quando você terminou de escrevê-lo, pensou que faria tanto sucesso ou foi mais uma aposta para “ver no que dava”?
Ainda é cedo para ter uma resposta concreta para essa pergunta. Foi uma tiragem independente, um número bastante reduzido. A resposta para essa pergunta será dada mais pra frente, quando um número maior de pessoas tiver acesso ao livro. Mas é claro que estou muito feliz por tudo que o livro tem despertado nas pessoas que leram até agora. É difícil saber se algo que você faz vai fazer sucesso ou não. Eu esperava que as pessoas gostassem, mas era só um querer, um desejo. Você espera por causa do sonho que tem, mas ao mesmo tempo é preciso saber dosar a expectativa porque a realidade mostra que a possibilidade de dar errado é muito maior. Do como é difícil ser escritor, do como é difícil conseguir um tempo na correria de cada pessoa. Quando começaram a sair os primeiros comentários dos leitores foi realmente incrível. Foi uma onda muito positiva. E muito calorosa.

– Qual você acha que foi o segredo do sucesso de O Sorriso da Hiena?
Acredito que é uma série de fatores. Acho que o tema do livro aborda algo que todos temos curiosidade: a maldade humana. O ser humano é curioso demais quando se trata de algo cruel. A maior prova disso é quando ocorre um acidente na rua e os outros carros reduzem a velocidade para ver o que aconteceu. Também acredito que as pessoas ficaram meio surpreendidas por essa história ter sido escrita por um autor desconhecido e independente. A verdade é que a gente não espera algo de valor de quem nunca ouviu falar. Então ter gostado de algo novo atiça a curiosidade e faz o sabor ficar ainda melhor. A forma como os leitores abraçaram a história fez toda a diferença para ela alcançar outras pessoas. Acredito que por terem gostado do livro, mais o fato de ser um autor nacional e ainda por cima independente, as pessoas se conectaram com o mesmo objetivo de fazer essa história voar mais alto. Normalmente, quando eu envio os livros para as pessoas eu faço questão de autografar e escrever uma mensagem que é a mais pura verdade: “Agora você também faz parte dessa história”. Há alguns motivos para o sucesso e o maior deles não é segredo: foi o apoio de todo mundo que leu e gostou. Que não simplesmente leu, curtiu e colocou na estante. Mas leu, curtiu e fez questão de falar para outras pessoas.

– Você se vê escrevendo obras que não sejam thrillers ou similares?
Sim, com certeza. Eu nunca pensei em ser um autor específico de romance policial. Eu já tinha a ideia de uma segunda história policial e que estou escrevendo agora, mas depois pretendo trabalhar em um outro projeto que está guardado que não será dentro deste gênero, apesar de ter um certo tipo de investigação. Porém, será mais uma história sobre a jornada de um homem, com uma exploração quase arqueológica. Eu não foco em um gênero, depende da ideia que surgir. E eu ainda quero escrever algo para crianças. Um dia, quem sabe, quando eu pensar em uma boa história infantil.

– Como você vê o cenário literário nacional atualmente?
Eu acho que precisa melhorar bastante. Os autores nacionais estão abrindo espaço na marra, com publicações independentes e através de editoras menores, e só depois disso, alguns (poucos) com grandes editoras. O peso para as publicações nacionais em comparação com as que vem de fora ainda é muito desequilibrado. As tiragens de livros brasileiros são bem menores. E, apesar dos leitores estarem mais abertos a livros nacionais, este cenário ainda precisa melhorar muito. Muito. Não é à toa que raramente vemos uma ficção nacional na lista dos mais vendidos. Poucos autores conseguem viver apenas de escrita, a maioria precisa escrever e ter outra fonte de renda. É preciso mais confiança e chance tanto dos leitores quanto das editoras. E isso é um ciclo. Com mais procura de obras nacionais, maior será o investimento das editoras, que vai fomentar a curiosidade de novos leitores e assim essa roda vai girando. Acho que está melhor, mas em comparação, estamos muito, mas muito longe do que podemos ser.

Pá de Cal – Gustavo Ávila

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Em uma vila misteriosa, seis pessoas acordam sem memória, cada um em uma casa diferente. Em cada residência, há uma caixa trancada e um bilhete que diz que, para descobrir quem são, é preciso reunir as seis chaves para abrir o recipiente e recuperar as memórias. O problema é que apenas um deles poderá descobrir quem é.

Durante a leitura de Pá de Cal, foi difícil não relacionar elementos da história com livros como Jogos VorazesDivergente Ser feliz e também com o filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. E o resultado desta combinação foi uma trama original e que permitiu que Gustavo Ávila abordasse, mais uma vez, a ambição sem limites e a megalomania, que parecem cada vez mais intrínsecas ao ser humano e potencialmente perigosas.

Por ser uma short story, é natural que Pá de Cal tenha ritmo acelerado e que tudo aconteça muito rápido. No entanto, acho que o autor dispunha de material para estender um pouco mais a história, mantendo-a uma short story, mas também tornando-a ainda mais envolvente, atrativa e complexa.

Com O Sorriso da Hiena, thriller de estreia de Gustavo Ávila, Pá de Cal compartilha o teor doentio e a discussão moral (e infinita) sobre até onde vale a pena em um prol de um bem teoricamente maior. Afinal, tudo tem um lado bom e outro ruim e a escolha nunca é fácil – muitas vezes, aliás, é impossível.

Título original: Pá de Cal
Autor: Gustavo Ávila
Ano: 2015
Páginas: 40
Tempo de leitura: 2 dias
Avaliação: 3 estrelas

Veja mais livros de Gustavo Ávila

Resenha de O Sorriso da Hiena – Gustavo Ávila

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Quando tinha apenas 8 anos de idade, David presenciou o assassinato brutal dos pais. Mais de duas décadas após o crime, ele decide repetir a atrocidade com outras famílias, mas não apenas por vingança ou pura crueldade: David quer descobrir o quanto esse tipo de trauma pode influenciar a vida e a personalidade das crianças órfãs. Para realizar o “estudo”, ele convida o psicólogo William, que está disposto a fazer o que for preciso para tornar o mundo um lugar melhor, para acompanhar o crescimento das crianças que perderão os pais pelas mãos do próprio David. Não aceitar é uma opção?

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Eu já havia visto alguns comentários – positivos, diga-se de passagem – sobre O Sorriso da Hiena, mas confesso que tenho um pé atrás com literatura brasileira e, por isso, ainda não tinha me interessado pelo thriller. No entanto, quando uma amiga me deu o livro de estreia de Gustavo Ávila de Natal e me contou a sinopse, foi impossível não ficar pelo menos curiosa – ainda mais eu, que adoro histórias que abordam as loucuras da mente humana. E não me arrependi ou decepcionei, pelo contrário!

… não era o bastante salvar um corpo, eu tinha que encontrar um jeito de salvar a cabeça das pessoas…

O Sorriso da Hiena é narrado sob vários pontos de vista e os protagonistas são David, o assassino; William, o psicólogo; e Artur, o detetive. Ou seja, por meio dos personagens, temos um panorama bastante completo e tridimensional dos crimes, das motivações de cada um e também da investigação. E apesar de descrever as cenas com riqueza de detalhes, o autor mantém o estilo direto e sem mais delongas, o que torna a leitura fluida e ainda mais suscetível à curiosidade inevitável do leitor.

Quando a gente entende a dor, paramos de sentir medo dela e conseguimos encará-la de frente, argumentar com ela e fazer com que ela vá embora ou que pelo menos fique em silêncio.

É claro que em nenhum momento aceitei ou concordei com as atitudes e decisões de David. Mas, assim como em Precisamos falar sobre o Kevin (guardadas as devidas proporções, claro, porque Lionel Shriver é deusa), é possível criar certa empatia para com o criminoso e, de alguma forma, entender suas motivações, ainda que sem deixar de considerá-las absurdas e cruéis. E seria redundância dizer que o suspense e o clima doentio dominam a obra de Gustavo Ávila.

Às vezes, a coragem está em não fazer nada.

Ao ler O Sorriso da Hiena, fica claro o cuidado que o autor teve ao construir o pilar psicológico da trama, abordando diversas problemáticas por meio de seus três personagens principais. Além de ser um romance policial bem amarrado e surpreendente, a obra ainda apresenta o leitor a dilemas morais passíveis de reflexão, com direito a doses de megalomania e ambição obsessiva. Admito que, com tantos acontecimentos e surpresas no desenrolar da trama, algumas pontas acabaram ficando soltas pelo caminho. Mas o que O Sorriso da Hiena nos faz realmente perguntar é: até onde os fins podem justificar os meios?

Título original: O Sorriso da Hiena
Autor: Gustavo Ávila
Ano: 2015
Páginas:
303
Tempo de leitura:
6 dias
Avaliação:
4 estrelas