Scar Tissue – Anthony Kiedis com Larry Sloman

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Após ler Scar Tissue, a autobiografia de Anthony Kiedis, não restaram dúvidas de que o vocalista do Red Hot Chili Peppers foi/é adepto daquela velha máxima: sexo, drogas e rock ‘n’ roll. No entanto, esse lado de Anthony nunca foi segredo para ninguém e suas peripécias não surpreendem tanto. O que realmente nos pega de surpresa e chega até a ser inspirador é a sinceridade e a humildade com que o vocalista do RHCP narra sua própria trajetória – não importa se é um momento de vitória, derrota ou até mesmo desespero.

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Claro que, em sua autobiografia, Anthony conta muito sobre a evolução dos Chili Peppers – afinal, esse episódio ocupa mais da metade de sua vida. No entanto, eu diria que, apesar da grande importância, a história da banda não é o principal foco do livro e, muitas vezes, serve como contextualização para o que vem a seguir. As temáticas das canções e as circunstâncias sob quais elas foram escritas, porém, estão presentes em toda a obra e são um de seus principais ingredientes. Mas ainda arrisco a dizer que  Scar Tissue é, na verdade, um relato das viagens narcóticas que guiaram e provavelmente ainda guiam, mesmo que de forma indireta, a vida de Anthony.

A amizade também é um dos pilares da autobiografia de Anthony. Em todos os momentos, ele ressalta a convivência com os amigos e destaca a importância dessas relações, por vezes conturbadas e até ambíguas. As (muitas) mulheres que passaram pela vida do cantor também marcam presença na obra e confirmam a minha teoria: sempre achei que ele era o típico pegador, antes mesmo de ser famoso, e agora tenho certeza absoluta. No entanto, por trás da pose de garanhão, parece existir um homem romântico ao seu modo e eternamente apaixonado – ainda que cada vez por uma mulher diferente.

Além de simples e sincero, Anthony também parece ser um cara espontâneo e engraçado. Por outro lado, foi inconsequente e egoísta em muitos momentos de sua vida – principalmente em se tratando do seu vício em drogas. E acho que todas essas qualidades e defeitos aparecem com clareza desde a primeira página de Scar Tissue, o que faz do livro algo extremamente verdadeiro e ainda mostra o lado oposto ao “Anthony Kiedis, o rockstar”.

Essa foi a primeira autobiografia que li e, apesar da minha vida não ter nada a ver com a de Anthony, me identifiquei e, de alguma forma, me senti próxima a ele. E talvez isso tenha acontecido principalmente por causa da grande diferença que encontrei entre biografia e livros de outros gêneros literários: chorei não por imaginar as cenas, mas, sim, por saber que elas realmente aconteceram.

Título original: Scar Tissue
Editora: Ediouro
Autor: Anthony Kiedis com Larry Sloman
Ano: 2004
Páginas: 335
Tempo de leitura: 7 dias
Avaliação: 4,5 estrelas

As Aventuras de Pi – Yann Martel

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Piscine Molitor Patel, ou apenas Pi Patel, é um garoto que vive em Pondicherry, na Índia, onde sua família é dona de um grande zoológico. Apesar de obter certo sucesso com o negócio, o pai de Pi decide vender os animais e recomeçar a vida no Canadá. Após negociar algumas espécies, a família Patel segue viagem em um cargueiro, onde também são transportados alguns dos ex-habitantes do zoológico. No entanto, no meio do trajeto, uma forte tempestade ocasiona o naufrágio do navio, ao qual sobrevivem apenas Pi, um orangotango, uma hiena, uma zebra e Richard Parker, um tigre-de-bengala.

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As Aventuras de Pi não deveria se chamar As Aventuras de Pi e, sim, A Vida de Pi, como em seu título original (Life of Pi). Isso porque a história é muito mais do que uma aventura, por mais espetacular que ela seja. Na obra, uma versão mais velha de Pi conta sua trajetória em primeira pessoa para um interlocutor, que também faz algumas observações durante o livro. No início, o protagonista conta um pouco de tudo, desde como funciona um zoológico até como surgiu seu peculiar nome.

E o primeiro ponto a chamar a atenção é como ele fala sobre religião. Pi nasceu hindu, mas, um dia, conheceu e se interessou pelo Cristianismo. Em seguida, ele foi apresentado ao Islã e “se tornou” também muçulmano. Os mais conservadores podem torcer o nariz logo de cara, mas a verdade é que Pi trata as religiões como diferentes caminhos em direção ao mesmo objetivo (amar a Deus, seja ele qual for) e, o mais importante, como algo capaz de agregar e não segregar – se mais pessoas tratassem mais assuntos dessa forma, o mundo com certeza seria diferente.

Iniciamos a leitura sabendo que Pi sobrevive e descobrindo algumas coisas a seu respeito que, na verdade, não irão fazer grandes diferenças na história que vem a seguir. Mas, ainda assim, e mesmo a aventura demorando a começar, é impossível ficar entediado – afinal, queremos saber, como um garoto poderia sobreviver por 227 dias em alto mar, na companhia de um tigre-de-bengala? No entanto, conforme a história se desenrola, o desfecho vira quase detalhe. Porque a aventura de Pi é como uma metáfora extrema e radical da nossa própria vida: uma trajetória, na maioria das vezes, longa, permeada por momentos de otimismo e pessimismo, medo e coragem, alegria e tristeza, esperança e descrença. Também repleta de dor e sofrimento, mas abastecida por momentos de pequenas satisfações ou felicidade plena.

E se engana quem pensa que Pi não mantém o senso de humor durante sua longa aventura. Mesmo em condições tão extremas, ele ainda é capaz de fazer piadas e observações bem-humoradas. O sarcasmo, a ironia e até um pouco de amargura estão presentes em todas elas. Mas como poderíamos esperar um humor doce, fofo e inocente de um garoto na situação em que Pi se encontra?

Por fim, poderíamos dizer que As Aventuras de Pi é sobre esperança, coragem ou até resistência. E não estaríamos errados. Mas a verdade é que a história pode ser sobre essas e muitas outras coisas, no entanto, a principal delas é, sem dúvida, a superação. Ao finalizar a leitura, percebemos que talvez o sofrimento seja capaz de distorcer fatos, amenizar, acentuar ou até ignorar os detalhes de uma grande história. Mas o melhor é também descobrirmos, ou simplesmente lembrarmos, que só existe um lugar de onde a força e a vontade devem vir: de dentro de nós, pois somos nossos melhores amigos e inimigos. E não é preciso se ver em um bote salva-vidas na companhia de um tigre-de-bengala – situação que, com sorte, a maioria de nós não terá a chance de viver – para entender que ser forte, às vezes, significa também se permitir enfraquecer. Porque, no final, tudo passa e só o que fica é o aprendizado, ainda que em forma de cicatrizes.

Título original: Life of Pi
Editora: Ediouro
Autor: Yann Martel
Ano: 2001
Páginas: 371
Tempo de leitura: 7 dias
Avaliação: 5 estrelas

**Em 2012, As Aventuras de Pi foi transformado em filme, com direção de Ang Lee. Indicado a 11 categorias do Oscar, o longa faturou quatro estatuetas, sendo uma delas a de Melhor Diretor. A versão cinematográfica, como é de costume, se preocupa mais em contar a trama por meio dos efeitos visuais e deixa um pouco de lado a “parte teórica”. Mesmo assim, transmite com fidelidade a moral da história.