Aqui ou do outro lado

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Abro os olhos e a primeira coisa que vejo é o teto de losangos do meu antigo quarto. Ouço o barulho de panelas e pratos, típicos da cozinha de casa em dia de domingo, e um som que não escutava há exatos oito anos: a voz dela, da minha mãe, de um timbre quase grave e que preenche todo o ambiente. É tão estranho quanto familiar e me faz querer rir e chorar, de saudade, de alívio, de tristeza e de felicidade. A verdade é que eu não faço ideia do que está acontecendo, mas a perspectiva de descer as escadas e encontrar minha mãe sentada à mesa da cozinha, exatamente como antigamente, é o bastante para que eu desista de descobrir.

Troco o pijama por roupas que eu nem sabia que ainda existiam e calço os tênis no topo da escada, assim como quando eu acordava tarde demais e fazia barulho só para mostrar que “já” estava de pé. Ansiosa, desço os degraus, cruzo a sala, paro à porta da cozinha e lá está ela: sentada em sua cadeira predileta, distraída e concentrada, cantando ao som de Roberto Carlos e picando a carne em pequenos pedaços. Ainda não sei o que está acontecendo, mas sorrio ao constatar que a trivialidade, muitas vezes, é mais especial do que o inusitado. Ela levanta o rosto e, por mais que eu queira acreditar que jamais esqueceria seus traços, percebo que muitos detalhes já haviam se perdido na minha memória.

– A Bela Adormecida acordou? – ela pergunta e o tom irônico que oito anos antes me faria bufar me faz correr para abraçá-la – Ai, você tá me atrapalhando – minha mãe reclama enquanto eu a aperto, mas retribui o carinho e eu sei que também sentiu saudades.
– Senti sua falta.
– Eu também – ela responde e sua expressão ligeiramente confusa me faz entender que ela também não sabe o que está acontecendo. Mas também não está preocupada – Agora pega o afiador de faca pra mim.

O CD do Roberto Carlos acaba e minha mãe pede que eu coloque o do John Lennon. Cozinhamos juntas, o que era praticamente um hábito diário nosso, em um silêncio confortável, ao som apenas da música. E ali, naquele momento que costumava ser tão familiar e agora já não existe mais, me lembro da última vez em que vi minha mãe com vida. Ela estava no hospital e, apesar da situação desconfortável, se parecia com ela mesma, o que já não era muito comum nos últimos tempos. Durante os 15 minutos de visita, conversamos sobre meu novo estágio e eu acho que pensei que aquilo tudo poderia ser, enfim, um recomeço. Mas, na verdade, foi uma despedida, o que não deixa de ser um recomeço.

E eu lembro, como se tivesse acontecido ontem, que, antes que eu deixasse a UTI, minha mãe me abraçou, me deu um beijo na testa e disse “eu te amo”. Depois eu me perguntei se, de alguma forma, a gente já sabia o que ia acontecer e que aquela seria a última vez. Inevitável pensar e impossível responder, mas, sempre que a memória vem à tona, eu agradeço pela última vez ter sido como foi. Porque naquele momento não foram a exaustão, o ressentimento e o desalento que os últimos 15 anos causaram que falaram mais alto. Foi a minha mãe de verdade. A minha leve, carinhosa e bem-humorada mãe.

– Eu adoro essa música – ela quebra o silêncio, se deliciando ao som de Woman.
– Eu sei. Sempre vou lembrar de você quando ouvi-la.
– Eu sei – ela responde como se soubesse que, nos últimos oito anos, eu escutei esta música todas as vezes em que quis muito estar com ela de alguma maneira.
– Mãe – sento ao lado dela na mesa e tomo coragem de fazer a pergunta que me atormenta há tantos anos. Ela não diz nada, mas olha para mim – você cansou de tudo?
– Quer saber se eu desisti? – assinto com a cabeça e ela continua – Talvez.
– Tudo bem.
– Tudo bem o quê? – ela pergunta, mais preocupada do que ríspida.
– Tudo bem se você cansou, se você desistiu.
– Você sente minha falta? – ela praticamente me interrompe.
– Sinto. Todos os dias. Mas eu sinto tanto que acho que até me acostumei.
– Acostumou? – ela pergunta, ligeiramente magoada.
– Ah, mãe… você sabe, o ser humano se acostuma a tudo. É uma questão de sobrevivência. E você sempre me disse que a gente não recebe uma missão que não é capaz de cumprir.
– Talvez eu tenha recebido.
– Claro que não! Eu aprendi muitas coisas com você. Boas e ruins – digo e dou risada.
– Tipo o quê? – ela pergunta, ávida e curiosa, e eu me delicio com sua gargalhada nada discreta.
– Tipo ser corintiana. Tipo falar palavrão e dizer sempre o que eu penso. Ter senso de humor e ser espontânea. Me vestir de um jeito diferente a cada dia. Ser “curta e grossa” e talvez um pouco rígida demais.
– Você me entende?
– Melhor do que você imagina. E, às vezes, é isso que me assusta – confesso.
– E você aceita tudo o que aconteceu?
– Eu acho que, por um tempo, eu pensei que aceitava, quando talvez não fosse bem assim. Hoje, eu continuo sem saber se aceito ou não – faço uma pausa, toco a mão dela e a olho nos olhos – Mas eu respeito.
– Obrigada. E me perdoa – ela pede.
– Eu não tenho o que perdoar. Você não errou ou acertou mais do que qualquer outra pessoa – ela permanece em silêncio, então continuo – Quando eu penso em você, mãe, eu não desejo que as coisas tivessem sido diferentes, sabe? Depois que elas acontecem de uma maneira, é difícil imaginá-las de outra. É irreal demais, não faz sentido. Mas eu espero, muito, que você tenha conhecido a felicidade.

Ainda com as mãos entre as minhas, ela olha para baixo, talvez relembrando todos os momentos bons e ruins que passou e tentando decidir se conheceu a felicidade ou não. Volta a olhar para mim e sorri. Ela não responde e eu sei que não irá responder com palavras. Mas, de alguma forma, quando eu penso nos 18 anos em que dividimos nossas vidas, eu sinto, ou eu quero sentir, que absolutamente tudo valeu a pena.

– Mãe? – eu a chamo, saboreando cada letra da palavra que, desde 2007, vem acompanhada por verbos no passado (exceto um – amar).
– Sim?
– Eu também te amo. Muito e pra sempre.

Enquanto as palavras passam pelos meus lábios, abraço minha mãe apertado e dou um beijo em sua testa. Fecho meus olhos e, quando os abro novamente, vejo o teto branco do meu quarto. E, então, eu sorrio, feliz pela chance de reencontrá-la, nesta ou em outra dimensão, em um momento repleto daquilo que machuca tanto quanto cura e destrói tanto quanto constrói, aqui ou do outro lado: o amor.

[I love you. Now and forever]

“Não gosto mais de fazer aniversário”

Era pouco mais de meia-noite e eu estava terminando os cupcakes para a festa de 9 anos da Liz, quando ouvi passos de pés pequenos e descalços atrás de mim. Em dias normais, eu ficaria brava por causa do horário, mas, além de ser sexta-feira, tecnicamente já era o aniversário dela.

– Não quero mais festa – anunciou Liz, com a certeza que só as crianças conseguem ter, antes mesmo de eu me virar para encará-la.
– Como assim, querida?
– Não gosto mais de fazer aniversário. E não quero mais festa.
– Como assim? – repeti, como uma boba, enquanto procurava a coisa certa a ser dita – Até hoje à tarde você estava me perguntando, de hora em hora, quanto tempo faltava para sua festa.
– Eu sei, mas mudei de ideia, mãe, e não gosto mais de fazer aniversário – ela anunciou, decidida, e eu me perguntei há quanto tempo ela havia parado de me chamar de “mamãe”.
– Querida, as pessoas não mudam de ideia por nada. O que aconteceu?

Liz já estava grande demais para o colo, mas fiz um esforço e coloquei-a sentada em cima do pequeno espaço vazio no balcão da cozinha. Algo me dizia que a conversa que estávamos prestes a ter exigiria olhos nos olhos.

– Não aconteceu nada, mãe. É só que…
– Só que… ? – encorajei-a.
– Só que eu estava pensando que os aniversários só são legais por causa dos presentes, dos doces, das festas, das visitas e dos parabéns.
– Claro que não, Lizzie! – respondi, exaltada demais, porque a verdade é que eu concordava com a minha filha – Os aniversários são legais porque são um dia especial para nós e para aqueles que nos amam.
– Hum… pra mim, poderia ser qualquer dia, desde que tivesse presentes, doces, festas, visitas e parabéns. É tipo um… como se diz?
– Prêmio de consolação – respondi automaticamente, porque sabia exatamente do que ela estava falando.
– Isso! Um prêmio de consolação por estar ficando mais velho.
– Não, querida – era difícil contrariar e justificar algo com o que eu mesma concordava – Você não se lembra, é claro, ninguém se lembra do dia em que veio ao mundo. Mas o dia em que você nasceu foi muito especial para mim. Eu estava louca para te conhecer e ver o seu rostinho pela primeira vez foi simplesmente o momento mais incrível da minha vida! E é por isso que o SEU aniversário é especial para mim!

Liz sorriu pela primeira vez desde que nossa conversa havia começado, mas assumiu um ar pensativo, como se estivesse tentando decidir se minha justificativa era satisfatória ou não. Confesso que precisei me esforçar para manter o semblante sério.

– É… talvez você esteja certa, mamãe – ela decidiu, mas, antes que eu pudesse respirar aliviada, completou, com a sabedoria de um adulto e a descontração de uma criança: – Mas é que ninguém gosta de estar um dia mais perto de morrer, né?
– É. Ninguém gosta, querida. Mas faz parte da vida, não faz? – concordei, depois de pensar por alguns segundos se deveria discordar ou ser sincera – Agora é hora de voltar para a cama e descansar porque amanhã é dia de festa, meu amor! Está animada de novo?
– Estou, mamãe! – ela respondeu e nem parecia a garotinha angustiada que havia entrado na cozinha há alguns minutos – Boa noite!

Observei minha filha descer do balcão da cozinha com um pulo e subir as escadas correndo, e foi inevitável sorrir. Às vezes é difícil entender, por mais óbvio que seja, que uma criança de 9 anos já tem seus próprios pensamentos. E eu queria dizer à ela que estava certa, que aniversários são uma droga e que presentes e parabéns só servem para nos fazer esquecer, nem que seja por um minuto, de que, na verdade, estamos apenas um ano mais velhos, um ano mais perto da morte.

No entanto, por mais que eu tente ser sempre honesta com a minha filha, algumas verdades têm o momento certo para serem ditas. E acho que esta, que chegou tão perto de ser desvendada, deve permanecer em segredo por mais alguns anos. Então, repito para mim mesma a frase que meu pai sempre me dizia quando eu reclamava de fazer aniversário: “algumas pessoas não têm a chance de envelhecer”. Muitas pessoas, pai, muito mais do que eu gostaria.

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Vida após a morte

Querida Maureen,

Então é isso. É assim que chega ao fim a vida de uma pessoa. Com um tombo bobo e uma batida na cabeça. E pronto. Ela tem morte cerebral e só o que nos resta é esperar.

Já é de madrugada e eu estou sentado à poltrona ao lado da sua cama. É sábado e por isso estou passando a noite aqui, com você. Ou com o que sobrou de você. Nos outros dias, preciso trabalhar e só venho visitá-la duas ou três vezes durante a semana. E antes que você reclame, deixe-me explicar que eu quis largar meu emprego e viver com você, aqui, neste quarto de hospital. Mas os médicos me convenceram de que não era sábio, tampouco necessário. Que você já não precisa de mais nada, além de tempo.

Não importa quantas provas existam de que a vida não faz sentido, precisamos acreditar que sim, ela faz. – Quase uma rockstar, Matthew Quick

Confesso que esta não é a primeira vez que, desesperado de saudade, começo a escrever para você. Em todas as outras, desisti porque cheguei à conclusão de que não havia sentido em escrever uma carta que jamais seria lida pela única pessoa que deveria lê-la. Mas a verdade, a dolorosa verdade, é que colocar tudo isso no papel é apenas a pontinha desse meu iceberg de loucura. É apenas dar vazão a tudo aquilo cujo destino cada vez mais deixa de existir: você.

Sabe, nos filmes e nas novelas, quando eles mostram as pessoas à beira da morte, em uma cama de hospital, elas estão acinzentadas e sem vida. Mas quase nunca inchadas, amareladas, cheias de tubos e fios, vazias e irreconhecíveis. É tao pacífico quanto turbulento. É assustador. E, meu Deus, como eu queria poder virar para o lado e falar com você sobre como os filmes são generosos com as pessoas à beira da morte. Mas, adivinhe só, por mais que, neste momento, eu ainda possa virar para o lado e falar sobre isso, você não irá me escutar. E é isso o que me mata todos os dias: acordar e lembrar de tudo o que aconteceu e principalmente do que deixou de acontecer nos últimos meses.

Conheço a vida bem o suficiente para saber que não podemos acreditar que as coisas vão ser sempre iguais, não importa o quanto a gente queira. Não podemos impedir que as pessoas morram. Não podemos impedi-las de ir embora. Não podemos impedir nos mesmos de ir embora. – Por Lugares Incríveis, Jennifer Niven

“Bem, só morre quem está vivo”. Era o clichê que você dizia para encerrar o assunto sempre que ficávamos chocados com a morte de um conhecido ou até mesmo um famoso. Mas não é bem assim, Maureen, minha Maureen. Você não está muito viva, mas também não morreu. Ainda não está morta e tampouco vive mais. Pelo que os médicos dizem, pode ser uma questão de dias, meses ou, em hipóteses mais remotas, até anos. Meu bem, eu não quero me livrar de você e eu sei que saberia disso se ainda pudesse saber de algo. Mas eu simplesmente não aguento mais saber que você, assim como eu, está presa à tênue linha que separa a vida da morte. A diferença entre nós é que você está, definitivamente, condenada à morte, enquanto eu estou, aparentemente, condenado à vida. E o mais irônico é que, ao mesmo tempo em que eu desejo que você, enfim, abrace seu destino, ainda acordo durante a madrugada com medo de que você – ou os aparelhos que respiram por você – não esteja mais respirando. Nossa vida… sempre um paradoxo.

Sem você em casa para preencher minhas horas de descanso com sua mera existência (ah, como eu sinto falta disso), tenho tido bastante tempo para pensar. Infelizmente, só consigo pensar em tudo o que não fizemos, ainda que tenhamos feito tantas coisas. Nós não viajamos de Paris para Londres de trem. Não adotamos um gatinho para chamar de Nosso – HA HA HA, acho que sempre vou rir dessa sua piada horrível. Não compramos um forno elétrico – o que tudo bem porque você não vai mais fazer bolos para mim. Não vimos o por do sol juntos, da janela de casa. Não arrumamos o armário de bagunças. Não assistimos a todos os filmes do Jason. E etc.

O problema não é você não sobreviver, mas sobreviver. Todo mundo sobrevive. É isso que torna tudo uma desgraça do cacete. – O Mundo Pós-Aniversário, Lionel Shriver

Ah, também não deu tempo de ter filhos. E por isso eu agradeço. Porque assim nunca terei que assisti-los crescer com um buraco no peito. Nunca terei que guardar pra mim tudo o que, como pai, só poderia compartilhar com você, a mãe. Mas lamento mais, muito mais, por não poder, nunca mais, olhar para um pedaço seu que ainda vive. E por não ter nada nesse mundo, além de fotografias e histórias, que prove que eu e você existimos juntos. Ah, minha Maureen, o que nós fizemos foi muito mais do que existir juntos!

Eu sempre admirei você por ser, entra tantas outras coisas, inteligente e esperta. Mas até as pessoas mais geniais podem ser bobas e inocentes de vez em quando e, para mim, o seu ponto fraco sempre foi acreditar em vida após a morte. Só eu sei o quanto você tentou me fazer acreditar que sua avó ainda vagava pela casa da sua mãe. E que valeria a pena pagar para receber uma carta psicografada da minha querida madrinha, a tia Vitória. Era difícil me fazer mudar de ideia, Maureen, e você conseguiu me convencer de muitas coisas, muitas vezes. Mas, sobre esse assunto, você nunca havia feito progressos. Pelo menos até agora.

Sabe por que se apaixonar é o que pode acontecer de mais profundo com uma pessoa? Porque quando estamos apaixonados, estamos totalmente em perigo e completamente salvos, os dois ao mesmo tempo. – Cartas de amor aos mortos, Ava Dellaira

Se você ainda existe em algum lugar desse ou de outro mundo, quero que saiba que eu me rendo. Sim, você estava certa: a vida após a morte existe. Mas talvez não seja feita de céu, inferno, purgatório e fantasmas como você acreditava e, sim, de simples memórias. E é por isso que, apesar de ainda achar que tirar você de mim depois de apenas dois anos é a maior injustiça que já se viu, eu agradeço, porque sei que minha tristeza é feita de saudade e desespero, e não de culpa ou remorso.

A dor precisa ser sentida.  A Culpa é das Estrelas, John Green

Mentira. Eu me culpo, sim. Porque não lembro quais foram as últimas palavras que você disse para mim. E acho que, se eu pudesse voltar no tempo, não impediria você de subir naquela pedra. Porque se a aventureira e destemida Maureen não insistisse em subir naquela pedra, então não seria a verdadeira, a minha Maureen. E eu também não pediria mais tempo com você. Eu só queria realmente olhar nos seus olhos, seus olhos cor de café, sabendo que seria a última vez. E eu gravaria cada segundo desse momento derradeiro, consciente de que o fim é inevitável e esperançoso de que o esquecimento é uma escolha.

Acho que consigo viver sem você. Mas não uma vida de verdade. – LigaçõesRainbow Rowell

Por enquanto, eu só queria que você partisse de vez. Dizer isso talvez seja cruel, até insensível, e é definitivamente egoísta, mas então eu poderia lamentar e sentir saudades. Poderia viver sua ausência e tentar me acostumar a ela. Poderia fantasiar sobre todas as coisas que não tivemos a chance de fazer. Porque eu sei que enquanto o seu corpo ainda estiver aqui, por mais irrecuperável que ele tenha se tornado, eu vou esperar, mesmo com todas as chances contra mim, pelo dia em que nunca mais poderei comer pizza, tomar cerveja, jogar videogame, ir à praia, entre outros prazeres que prometi em troca da sua vida – e que Deus, ou quem quer que seja, aparentemente não achou tão interessante quanto tirá-la de mim. Me entenda, querida Maureen, que eu não aguento mais imaginar como é viver sem você. E eu só quero saber como será a minha vida após a morte.

Com amor,
Theo

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A garota que odiava o Natal

O Natal é uma época mágica, uma data que todos amam, um dia que todos comemoram. É quando todos se sentem mais felizes e são mais gentis porque é isso que o espírito natalino faz.

Não é? Bem, não para mim. Eu ODEIO o Natal.

No entanto, verdade seja dita, nem sempre foi assim. Até os 15 anos, o Natal era tudo para mim. No dia 26, eu já entrava em contagem regressiva, literalmente, para o próximo 25 de dezembro. Eu também adorava meu aniversário, era legal ganhar presentes de todo mundo e ter um dia que parecia ser só meu. Mas nada era como o Natal. Nada era como comprar uma árvore e enfeites novos todos os anos. Esperar o primeiro dia de dezembro para começar a decorar toda a casa. Escolher cuidadosamente e comprar presentes para todos que eu amo. Preparar o verdadeiro banquete que era nossa ceia. E, por fim, receber toda nossa família e amigos para celebrar o melhor dia do ano. E o engraçado é que eu nunca acreditei em Papai Noel. Talvez, porque sempre tenha tido um que existia de verdade: minha mãe.

Connor diz que presentes não são importantes, mas eu acho que são, não pelo quanto você paga por eles, mas sim pela oportunidade que oferecem de dizer Eu entendo você. – David Levithan, O Presente do Meu Grande Amor

Mas, há quatro anos, a história mudou e eu passei a odiar o Natal. Acho esse negócio de espírito natalino uma piada e odeio admitir que fui vítima dele por tanto tempo. Não compro árvores e enfeites de Natal novos todo ano porque não os uso mais. Não preparo mais a ceia porque nossa família e amigos não comemoram mais conosco – ou, talvez, sejamos nós que não comemoramos mais com eles. Agora, a ceia do dia 24 é na casa da minha avó, onde a decoração de Natal se resume a uma pequena árvore velha na mesa de centro da sala de estar. E, apesar de amá-la, se eu pudesse, não iria ao jantar. Mas vou porque é importante para o meu pai. Ainda ganho alguns presentes, mas não há mais surpresas, são sempre coisas que eu mesma escolho – meu pai, meus avós e tios dizem que, assim, eles têm menos chances de errar. E eles só querem que eu seja feliz.

É começo de novembro e, neste ano, meu pai quer recomeçar – seja lá o que isso significa – e decidiu que precisamos de uma nova árvore de Natal. E essa é mais uma das coisas que vou fazer porque é importante para o meu pai. E ele foi a única família de verdade que me restou.

– Verde ou branca? – ele me pergunta, a caminho da loja de decorações natalinas.
– O quê? – respondo, distraída.
– A árvore de Natal, Lori. Verde ou branca?
– Ah, tanto faz, pai – digo e o ouço suspirar.
– Qual você acha mais bonita?
– As duas são bonitas.
– Tudo bem. Vamos ver o que tem na loja e aí decidimos, ok? – ele se esforça para manter a voz animada, mas sei que perdeu a paciência.
– Ok – é o que respondo porque me sinto culpada.

A loja a que vamos é um negócio familiar e fica aberta apenas por alguns meses porque é especializada em festas de final de ano. E eu me pergunto o que eles fazem para ganhar dinheiro no restante do tempo. Antes mesmo de entrarmos, sinto o cheiro do Natal. Não sei qual é, mas sei que é esse. Logo, os verdes, os vermelhos e os brancos invadem meu campo de visão e as lembranças parecem vir em enxurradas. Sinto um leve desespero. No entanto, meu pequeno surto é interrompido pela voz suave e solícita de um garoto, que deve ser um dos filhos dos donos e talvez tenha mais ou menos a minha idade. E que também é muito bonito, diga-se de passagem.

– Olá, posso ajudar?
– Oi, estamos procurando árvores de Natal – responde meu pai, simpático até demais.
– As árvores de Natal ficam no segundo andar, senhor. Posso acompanhá-los até lá.
– Seria ótimo.
– Eu atendo apenas aos clientes do primeiro andar, então, vou deixá-los com o Liam, tudo bem? –  assentimos e, ridícula que sou, fico desapontada quando ele nos deixa com outro atendente. Mas minha decepção dura pouco. Assim que coloco os olhos sobre Liam, percebo que ele é muito parecido com o (que deve ser) seu irmão, mas é ainda mais bonito.
– Vocês já têm uma ideia de que tipo de árvore procuram? – Liam nos pergunta e, quando seus olhos cruzam com os meus, sinto como se todos os pisca-piscas tivessem se acendido dentro de mim.

Depois de uma hora de indecisão – por incrível que pareça, minha mãe era muito mais objetiva – e muitas trocas de olhares entre Liam e eu, escolhemos uma enorme árvore verde, porque minha mãe preferia as brancas, que terá de ser entregue com o caminhão da loja, de tão grande que é. Missão cumprida.

Talvez tenhamos que quebrar tudo para construir algo melhor em nós mesmos. – Clube da Luta

Faz uma semana que compramos a árvore de Natal e, desde então, não consegui tirar o tal do Liam da cabeça. O que é ridículo, já que eu nem o conheço e, provavelmente, nunca mais irei vê-lo. Ou, na melhor das hipóteses, só irei vê-lo daqui um ano. Estou pensando sobre o quanto pareço uma adolescente de 15 anos com uma paixonite de verão, quando o telefone toca e me traz de volta à realidade: tenho 19 anos e sou mais amarga do que muita viúva de 70.

– Alô?
– Alô, gostaria de falar com o senhor Andres, por favor? – diz uma voz que não me é familiar, tampouco completamente estranha.
– Quem gostaria?
– É o Liam, da árvore de Natal.
– Ah, oi – digo, sem jeito porque sempre sou antipática ao telefone, e sinto minhas bochechas queimarem – ele não está. Aqui é a filha dele, posso ajudar em algo?
– Ah, oi Lori – Liam diz, e minhas bochechas queimam ainda mais por eu perceber que ele lembra do meu nome – é que tivemos um problema com a árvore de Natal de vocês. A fornecedora nos enviou a branca em vez da verde e eu gostaria de saber se podemos adiar a entrega para amanhã.
– Claro, não tem problema.
– Ótimo. Então, até amanhã.
– Até.

Desligo o telefone e permito me sentir a adolescente de 15 anos com uma paixonite de verão. Sorrio porque se ele disse “até amanhã” deve ser porque virá fazer a entrega. E sorrio mais um pouquinho porque esse não me parece exatamente o tipo de conversa que se tem com o entregador da sua árvore de Natal.

Liam não especificou o horário da entrega, então, em vez de passar a manhã de pijama, visto minha melhor calça jeans e uma camiseta simples e divertida, para não parecer que me arrumei demais apenas para receber uma árvore de Natal. Nunca esperei tão ansiosamente por uma entrega. Perto do meio-dia, a campainha toca e, antes de atendê-lo, dou uma olhada no espelho, só por desencargo de consciência. Assim que abro a porta, os olhos verdes de Liam pousam sobre mim e é como se toda a neve  que há dentro de mim derretesse. Não sei dizer se o momento dura dois segundos ou dois minutos, mas acaba quando ele sorri e pergunta se pode entrar. Coincidentemente, ele encosta a enorme caixa na parede em que costumávamos deixar a árvore e me pergunta se preciso de ajuda para montá-la. Quero dizer que sim, apenas para passar mais tempo com ele, mas sei que é algo que preciso fazer com meu pai, então digo que não. Liam assente e começa a caminhar na direção da porta, onde fica parado, me olhando, como um namorado que se recusa a ir embora.

– Escuta, Lori – ele diz, por fim – é meu horário de almoço e eu sei que é estranho, mas… será que você não quer almoçar comigo?
– Almoçar com você? – repito a pergunta dele porque quero dizer “sim”, mas não tão rápido – claro, por que não? – finalizo, enquanto tento soar casual.
– Perfeito. Conheço um ótimo lugar aqui perto.
– Legal. Me dá um minuto?
– Claro. Te espero ali – Liam diz e aponta para o gramado em frente de casa.

Enquanto pego minha bolsa e tranco as portas,  sinto o receio de não ter assunto com Liam, afinal não é como se fôssemos amigos. No entanto, quando o vejo, parado de costas para a casa e com as mãos nos bolsos, me permito pensar, pela primeira vez em quatro anos, que milagres de Natal realmente existem e que Liam é o meu.

Como vou sobreviver a esta saudade? Como os outros fazem? As pessoas morrem o tempo todo. Todo dia. […] Há pessoas em todo lugar na fila do cinema, comprando cortinas, passeando com cachorros, enquanto, por dentro, com o coração despedaçado. Durante anos. A vida toda. Não acredito que o tempo cura. Não quero. Se curar, não significa que aceitei o mundo sem ela. – O céu está em todo lugar

– E, então, o que sua família faz durante o resto do ano? – pergunto enquanto esperamos nossos pratos no restaurante que Liam escolheu.
– Meu pai é arquiteto e minha mãe, decoradora. Em meados de junho, eles já começam a organizar o fornecimento de produtos Natal e, entre o meio de setembro e dezembro, tiram férias do escritório de arquitetura para se dedicarem apenas à loja. Eu, meu irmão, alguns tios e primos ajudamos também.
– Sempre quis saber o que vocês faziam nos outros meses – confesso, apesar da vergonha, e dou risada da minha curiosidade.
– O Natal é tudo para os meus pais. A data preferida dos dois, desde que eram crianças.
– E você gosta do Natal também?
– Acho que não tem como não gostar quando você respira Natal desde pequeno.
– É, acho que não – concordo e penso em mim mesma, em como eu costumava respirar Natal. E em como eu não gosto mais dele.
– E você?
– Eu o quê?
– Gosta do Natal?
– Odeio – deixo a resposta no ar e sinto que Liam quer saber o que vem depois, mas tem medo de perguntar. Mudo de assunto.

No mês de novembro, almoçar com o Liam se tornou praticamente uma rotina. Minha mãe sempre falava sobre “quando o santo bate” e o meu, com certeza, bateu com o dele. É engraçado como, em apenas pouco mais de um mês, dividimos todo tipo de segredo e nos tornamos tão íntimos que nosso silêncio não é sinônimo de falta de assunto e nunca é constrangedor. A única coisa sobre a qual discordamos é o Natal: ele ama a data com todas as forças e não é capaz de entender como eu posso não amar também. Liam acha que precisa me mostrar como o Natal pode ser especial, mas o que eu nunca expliquei a ele é que saber disso é o meu grande problema. Mas deixo que ele tente me fazer ver, talvez porque tenha esperanças de, um dia, ser novamente capaz de enxergar. Desta vez, ele preparou um piquenique natalino. Não tem como dizer “não”.

Nos encontramos no portão do parque e deixo que ele me guie pelo caminho de terra. É sexta-feira, mas ainda é cedo, por isso, podemos escolher onde vamos fazer nosso piquenique. Liam escolhe uma árvore baixa e, antes de montar a “ceia”, como ele diz, retira uma caixa de papelão da mochila, me entrega um pedaço de pano e pede para que eu vende os olhos. Obedeço. Quando retiro a venda improvisada, primeiro, percebo que o sol já se pôs, e depois, quero chorar. São apenas dezenas, mas é tão bonito que parecem centenas, ou até milhares, de luzes coloridas que piscam, piscam e piscam e iluminam a escuridão que há dentro de mim.

– Pisca-pisca portátil – Liam explica, com orgulho, enquanto me abraça.
– É lindo, eu adorei. Obrigada – uma lágrima escapa e desce pela minha bochecha, mas eu sorrio com força, feliz. E, então, Liam me beija. E todos os pisca-piscas dentro de mim se acendem, ao mesmo tempo em que a minha neve derrete e a minha escuridão se ilumina. Talvez, seja Natal de novo aqui dentro.

Dead people can be our heroes because they can’t disappoint us later; they only improve over time, as we forget more and more about then. – Four: A Divergent Collection

Muitos beijos depois, estamos deitados e olhamos para o céu. É a primeira vez que minha cabeça descansa sobre o peito de Liam, mas também parece tão familiar, que é como se já tivéssemos feito isso muitas vezes antes.

– Lori, posso fazer uma pergunta? – Liam diz, enquanto enrola mechas dos meus cabelos nos dedos.
– Sim.
– Por que você odeia tanto o Natal?
– Porque não tem mais graça pra mim – digo, e sei que é uma resposta dura, mas é também sincera.
– Por causa da sua mãe?
– Sim.
– E quando você tiver filhos? Será que vai voltar a gostar?
– Não sei se quero ter filhos.
– Por quê?
– Pra quê eu iria querer ter filhos? Pra largá-los no mundo?
– Sei que aconteceu cedo pra você, Lori, mas é a ordem natural da vida.
– É, acho que sim – respondo com amargura.
– Mas você gostava do Natal?
– Sim – sou, finalmente, sincera, mas escondo que o Natal também era minha vida, como é para ele e a família dele.
– Do que você mais gostava?
– Vamos mudar de assunto? Pode ser?
– Tudo bem.

Mas não mudamos e ficamos em silêncio até que, pela primeira vez desde os meus 15 anos, sinto vontade de falar sobre o Natal. E, então, eu falo sobre como eu gostava das nossas árvores, que costumavam ser brancas em vez de verdes, como se estivessem cobertas de neve. Como eu adorava assistir a O Estranho Mundo de Jack em todo dia 24 de dezembro, mesmo que já tivesse até decorado as falas. Falo sobre o quanto eu amava a quantidade exagerada de presentes que minha mãe colocava debaixo da árvore e explico que nem era pelo tanto de pacotes em si porque, na maioria das vezes, ela gostava de fazer a maior quantidade de embrulhos possível, só para bater o recorde do ano passado. “Quantas vezes eu não abri o presente e encontrei só um pé do sapato? Ou só um lado do brinco?”, conto ao Liam, enquanto, depois de muito tempo, dou risada com as lembranças. Também falo sobre as vezes em que minha mãe me disse que não poderia comprar muitos presentes e, no fim, comprou mesmo assim. Até mais. E eu sabia que ela não fazia aquilo só para me surpreender no final. Ela dizia porque era a verdade, mas se esforçava porque sabia que o Natal era a data mais especial para mim. E queria que continuasse assim.

– Às vezes, eu procurava meus presentes pela casa, antes de a gente montar a árvore de Natal. Algumas vezes, eu encontrava e me sentia muito mal depois – conto, às gargalhadas.
– Nossa, que correta você. Eu sempre encontrava os meus e nunca me senti mal por isso.
– Teve uma vez que compramos um pinheiro de verdade e ele era lindo e enorme. Colocamos todos os nossos trocentos enfeites nele e, depois, quase morremos pra tirá-los.
– E seu pai, Lori? – Liam pergunta, como se nem tivesse ouvido minha última história.
– O que tem meu pai?
– Também odeia o Natal?
– Meu pai tentou porque ele sabia o quanto o Natal era importante pra mim. Mas minha mãe morreu dois meses antes do Natal, Liam, e eu simplesmente não podia… simplesmente não podia… – minha garganta fecha e não consigo terminar a frase. Liam não diz nada, apenas acaricia os meus cabelos, enquanto espera eu me recuperar – no ano seguinte, meu pai tentou de novo, sem sucesso. Depois do silêncio do ano passado, pensei que ele tivesse desistido, mas, então, no começo de outubro, ele começou a jogar umas indiretas. Eu mordi a isca porque pensei que seria bom pra ele.
– Só pra ele?
– É, só pra ele. Pra mim tem sido bem difícil.
– Acho que você não odeia o Natal, Lori – Liam afirma e eu olho para ele, curiosa por uma explicação – só está brava demais por ter que aprender a amá-lo como ele é, desde que ela se foi.
– Não sei – tento me fazer de durona, mas nós dois sabemos que ele está certo – é só que… não é justo.
– O que não é justo?
– Eu ter que comprar árvores e enfeites, decorar a casa, escolher presentes, preparar a ceia e receber a família…
– Sozinha? – ele tenta completar minha frase.
– Sem ela.
– Não é justo, eu sei…
– E os presentes que eu nunca mais vou precisar comprar? – interrompo-o, enquanto sinto que as lágrimas escorrem pelas minhas bochechas.
– Eu sei que você vai dizer que eu não sei como é e que é fácil falar. Mas e se você tentasse pensar de outra forma, ver com outros olhos?
– O que você quer dizer?
– Você acha que seria melhor se não sentisse falta dela?
– Eu acho que seria melhor se eu estivesse com ela, Liam.
– Essa não é uma opção, Lori. Agradeça por ter sido especial – Liam diz, com uma voz quase brava.
– Mas eu agradeço – respondo, como uma menina mimada que está arrependida.
– Você não agradece, Lori. Do jeito que você fala, parece que preferia que o Natal nunca tivesse sido incrível, assim não precisaria lidar com a fato de que ele continua a existir, mesmo que ela não esteja mais aqui. Mas quer saber, Lori? – ele está quase sem fôlego – se não fosse o Natal, seria outra coisa. E se não fosse outra coisa, você seria amarga por ter tido uma mãe que não foi capaz de arruinar nada na sua vida, pelo simples fato de não ter sido incrível e inesquecível em nada. E aí sim você teria razão em se sentir assim. Lori, você é mais forte do que isso. Talvez você tenha que se esforçar pra aceitar o Natal assim, mas um dia será natural de novo. Aproveite enquanto tem seu pai, seus avós, sua família. Você, mais do que eu, sabe quanta falta faz. E quanta falta irá fazer.

As lágrimas escapam, furiosas, dos meus olhos e fico tentada a me defender. Mas eu sei que ele está certo e me sinto envergonhada e ingrata. Me sinto mal por todos os últimos Natais, em que desprezei os esforços da minha família em me agradar, em me fazer feliz da forma que dava, justamente por saber como é difícil pra mim. Me sinto mal por ter sentido tanta pena de mim mesma todo esse tempo e por ter tornado as coisas ainda mais difíceis para todos. Ficamos em silêncio por longos minutos, enquanto eu penso se tenho sequer o direito de dizer algo. E, apesar de não existir certo ou errado em uma situação como esta, só abro minha boca quando acho que encontrei a resposta correta.

– Eu acho que todo mundo, quando cresce, perde um pouco do Natal, Liam. Obrigada, por devolver um pedaço do meu.

E então eu tenho a certeza de que, se isso tudo não for um milagre de Natal, eu não sei o que seria.

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Sobre mudanças, vazio, coração e lar

Eidan estava sentada no chão, com o queixo sobre os joelhos, enquanto observava as paredes em tom de lilás e os armários brancos vazios e lembrava do tempo em que a maioria das amigas queria ser como a Barbie e ela sonhava com a casa da boneca. Quando brincava, a grande diversão não era o romance com o Ken, dirigir o conversível luxuoso ou trocar a roupa por outra ainda mais glamourosa. Era arquitetar a casa da Barbie, decidir onde cada móvel ficaria e cuidar da decoração. Quando considerava o espaço pronto, Eidan dava a brincadeira por encerrada e, muitas vezes, já começava a planejar a próxima casa da boneca – ainda que os objetos fossem os mesmos de sempre, as ideias de Eidan nunca eram iguais.

Aos 8 anos, enquanto tentava decidir se o conceito aberto era ou não uma boa alternativa para a cliente Barbie da vez, ela se deu conta de que, um dia, teria uma casa de verdade, que não seria construída sobre um pedaço de carpete antigo, nem decorada com objetos de plástico. Seria de concreto, seria de verdade, seria sua. E, então, Eidan entendeu o significado da palavra sonho, além do universo paralelo com o qual eventualmente se deparava enquanto dormia.

Mais ou menos aos 12 anos, as amigas trocaram as Barbies por revistas de comportamento, e Eidan passou a comprar as de decoração. Aos 16, começou a invejar os norte-americanos, que eram praticamente obrigados a morar sozinhos ou em dormitórios durante a faculdade. No ano seguinte, decidiu estudar arquitetura com foco em decoração, o que não foi surpresa para ninguém, e nunca confessou, nem a si mesma, que tentara entrar em algumas universidades do interior não pela qualidade do ensino, mas pela oportunidade de ter a versão “beta” de sua própria casa. No entanto, as melhores opções estavam mesmo em sua cidade e, como não era irresponsável o suficiente para ser reprovada de propósito, fora obrigada a adiar o sonho.

Simples e complicado, como a maior parte das coisas verdadeiras. – Todo Dia

Aos 24 anos, apesar de recém-formada, Eidan já havia trabalhado para muitas Barbies da vida real e adivinhe só? Se preparava para, enfim, ser sua própria Barbie. Foram longos 15 meses, entre a compra do apartamento e o fim da grande reforma, de ideias, planos, desejos, frustrações, surpresas e realizações. O grande dia havia chegado e ela estava feliz, mas também estava triste. O vazio dos armários e das paredes refletia o seu próprio vazio. Eidan não entendia. Sozinha em seu (antigo) quarto, balançava a cabeça em negativa, quando ouviu três batidas à porta.

– Ei, posso entrar, pela última vez? – disse o pai de Eidan, animado.
– Oi, pai – ela respondeu, cabisbaixa.
– Será que não deveria ser o contrário?
– O quê?
– Era pra você estar feliz e eu, triste – Eidan sorriu, em concordância, e encostou a cabeça no ombro do pai, que havia sentado ao seu lado.

O grande sonho de Eidan era ter a própria casa, mas nunca teve pressa de realizá-lo porque amava morar com a família e se dava muito bem com a mãe, a irmã mais nova e o irmão mais velho. Já com o pai, “se dar bem” era um eufemismo. Desde sua primeira lembrança, Eidan sabia que a relação deles era especial. Não que ele fizesse diferença entre os três filhos ou que ela não amasse também a mãe, pelo contrário: era capaz que nenhum deles percebesse, mas Eidan e o pai simplesmente sabiam que ali existia uma conexão, do tipo que “já nasce assim”.

– Quando você saiu da casa da vovó, também se sentiu vazio?
– Não, eu me senti cheio. Cheio de coisas boas – o pai respondeu e os dois deram risada – eu também sonhava em morar sozinho, Eidan.
– Mas eu sei que você queria se livrar da vovó – ela disse com um sorriso malicioso, porém compreensivo – e você sabe que, pra mim, essa vontade não tem nada a ver com vocês.
– Sei, querida. E é por isso que está sendo tão difícil pra você.
– É, acho que sim.

Maybe there is something you’re afraid to say, or someone you’re afraid to love, or somewhere you’re afraid to go. It’s gonna hurt. It’s gonna hurt because it matters. – Will & Will

A intimidade entre Eidan e o pai era do tipo que permitia que um longo silêncio nunca fosse constrangedor. E, desta vez, ela aproveitara para refletir sobre o que ele acabara de lhe dizer. Eidan havia mudado de casa quatro vezes: duas durante a infância e outras duas na adolescência. E, em todas, lembra de ter adorado o ritual de encaixotar o passado e desempacotá-lo no futuro; a necessidade de rearranjar o quarto e a oportunidade de executar novas ideias de decoração; e a expectativa sobre de quais fatos inesquecíveis de sua vida a nova casa seria o cenário. Não havia espaço ou tempo para o medo, o vazio e a tristeza.

– É diferente dessa vez – Eidan disse, interrompendo os próprios pensamentos – das outras, era só animação e expectativa. Agora, que eu deveria estar mais feliz do que nunca, me sinto… vazia e até um pouco triste.
– É normal que seja assim, Eidan.
– Normal?
– Essa não é uma empreitada dos seus pais, que você é obrigada a abraçar. Pela primeira vez, é o contrário: é sua empreitada, que nós somos obrigados a abraçar. É sua responsabilidade.
– Mas não é o que eu sempre quis? – a pergunta era, na verdade, uma afirmação.
– O que a gente quer é sempre o que dá mais medo. E se tudo o que você sonhou e desejou por anos se revelar uma completa porcaria? Não que eu ache que é isso o que vai acontecer…
– É, você tem razão. Acho que empacotar todas as minhas coisas e ver meu quarto vazio me deixou com aquela saudade que chega a doer.
– Que bom – respondeu o pai, com sinceridade.
– Bom? É horrível, pai.
– Pode parecer horrível, mas não é. Significa que o que você viveu até aqui valeu a pena – ele disse e sorriu para a filha.
– Você sempre sabe a coisa certa a dizer, não é? – Eidan respondeu e devolveu o sorriso – mas é também como se eu estivesse deixando a Eidan que sempre fui para trás.
– E não está?
– Mas eu não quero. Quero ser a Eidan de sempre, só que em uma casa nova.
– Querida, as grandes mudanças sempre nos fazem perder alguma coisa. Mas as mudanças verdadeiramente boas sempre fazem com que ganhemos algo maior.
– É, acho que sim – Eidan respondeu após alguns segundos de silêncio e suspirou – nossa, pai, quando foi que você virou filósofo? – brincou a garota para quebrar o clima, que ficara sério demais para o seu gosto.

Eidan entendeu o que o pai queria dizer. Mas pensava em todas as coisas que encaixotara – cartas e bilhetes de amigos (quando ainda se trocava cartas e bilhetes), fotos antigas, boletins escolares, cadernos da faculdade, presentes da infância – e ainda não compreendia como podia sentir que uma nova Eidan moraria em seu apartamento perfeitamente decorado se tudo o que ela era estava indo junto. Bem, tudo, menos o pai, a mãe e os irmãos.

– Acho que tenho medo – admitiu Eidan, após mais um silêncio não constrangedor.
– Do que, querida?
– De chegar “em casa” – fez as aspas com as mãos – e descobrir que ela não vai se transformar em lar automaticamente. O que quero dizer é: vocês não estarão lá – ela sentia os olhos arderem, mas não queria chorar.
– E é claro que não vai, Eidan. Mas aquele apartamento é sua cara e, você vai ver, quando menos esperar o que você chama de “lá em casa” terá mudado de lugar. E aqui será “a casa da mamãe” ou, espero eu, a “casa do papai”.

Por nós dois, a palavra casa não é um lugar. É uma pessoa. E nós, finalmente, estamos em casa. – Anna e o Beijo Francês

Eidan levantou a cabeça do ombro do pai e sorriu por achar que começava a entender o porquê de não ter tido tempo para o medo, o vazio e a tristeza nas quatro vezes em que se mudara. Naquela época, não importava se a casa nova seria bonita, feia, grande, pequena, velha ou nova. Se seu quarto ficaria exatamente como havia planejado ou se o novo lar seria o cenário de acontecimentos bons ou ruins. O que realmente importava era que sua família sempre estaria lá.

– Como é mesmo aquela frase? – perguntou o pai, com olhar distante, interrompendo os pensamentos de Eidan – ah, sim: nosso lar é onde o coração está.
– Não dá pra ter dois corações, pai – Eidan respondeu, triste e gentilmente, com um leve revirar dos olhos e um sorriso tímido.
– Mas dá pra ter duas casas, querida.

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