Resenha de Jantar Secreto – Raphael Montes

Cheios de sonhos, os amigos de infância Dante, Miguel, Leitão e Hugo se mudam de Pingo D’Água, no Paraná, para o Rio de Janeiro para fazer faculdade. Depois de formados, no entanto, nenhum deles está exatamente onde gostaria e manter o apartamento alugado em Copacabana se torna cada vez mais difícil. Como Hugo é chef de cozinha, os amigos têm a ideia de oferecer jantares e, assim, arrecadar o dinheiro que precisam para quitar as dívidas. Na hora de cadastrar no anúncio na internet, porém, Leitão decide fazer uma brincadeira, trocando a carne de boi pela humana. O menu acaba chamando a atenção de pessoas dispostas a pagar caro pelo prato, e aos amigos não resta outra alternativa que não realizar o jantar – que se acabou se tornando extremamente secreto.

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Conheci o trabalho de Raphael Montes com Dias Perfeitos, um ótimo thriller psicológico, mas que deixa um pouco a desejar no quesito surpresas. Já O Vilarejo, que reúne sete contos (um para cada pecado capital), é o típico livro de terror, com muito sangue, finais surpreendentes e foco nas fraquezas e loucuras do homem. E Jantar Secreto combina o melhor dos dois mundos: a atmosfera real com o toque sanguinário; o extremo do comportamento psicopata somado à sutileza da sordidez quase inerente ao ser humano; a descontração do humor negro ao peso sombrio do macabro; e o contexto da história às surpresas ao longo da trama. O resultado é um livro muito bem construído e difícil de largar.

Desde o início (da sinopse, inclusive), o jantar não é nada secreto para o leitor. E é aí que os personagens tridimensionais de Raphael Montes fazem toda a diferença. Se Hugo e Leitão se mostram egoístas, pouco confiáveis e, muitas vezes, detestáveis, Miguel é pura dualidade e “peca” pela ingenuidade. Já Dante é completamente real e representa o mais próximo de uma “pessoa normal” dentro da história: com a corda no pescoço, topa o absurdo do jantar secreto, mas nunca deixa de se questionar.

Mais do que um thriller com toque de terror, Jantar Secreto é também um retrato da geração atual e da alta sociedade do Rio de Janeiro. Além disso, propõe uma interessante reflexão sobre o consumo de carne. Não de uma forma que levanta a bandeira do vegetarianismo, mas sim do ponto de vista “biológico” da questão: se a morte é inevitável, será que existe tanta diferença  assim entre consumir carne humana ou animal?

Título original: Jantar Secreto
Editora: Companhia das Letras
Autor: Raphael Montes
Ano: 2016
Páginas: 368
Tempo de leitura: 2 dias
Avaliação: 5 estrelas

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Resenha de O amor segundo Buenos Aires – Fernando Scheller

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Quando a namorada, Leonor, decide se mudar para Buenos Aires a fim de estreitar os laços com o pai, Hugo não pensa duas vezes antes acompanhá-la. No entanto, ao mesmo tempo em que o amor de Hugo pela capital argentina se torna cada vez mais intenso, o relacionamento com Leonor parece estar cada vez mais condenado ao fim. Quando os dois decidem colocar um ponto final na relação, Hugo descobre estar sofrendo de uma grave doença e é quando, ainda em Buenos Aires, conhece o verdadeiro significado do amor.

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Apaixonada por Buenos Aires que sou, não teria como resistir ao livro do jornalista brasileiro Fernando Scheller, que não apenas se passa na capital argentina, como é também uma declaração de amor à ela. E a leitura já teria valido a pena pelo simples fato de “passear” pelas ruas da cidade, já que cada capítulo se passa em um ponto específico – e muitos fogem dos turísticos, levando o leitor a realmente mergulhar no cenário. Mas, mais do que isso, O amor segundo Buenos Aires é uma trama fluida e envolvente sobre todos os tipos de amor.

Muito embora comece com o término do relacionamento de Hugo e Leonor, a obra de Scheller é, sim, uma história de amor. Afinal, o fim é tão importante quanto – e muito mais inevitável do que – o começo e faz parte de todo e qualquer relacionamento, seja por qual motivo for. E o grande ponto positivo do livro é justamente dissecar as razões pelas quais um sentimento tão forte pode chegar ao fim, ao mesmo tempo em que coloca em perspectiva todos os aspectos do amor não romântico, que muitas vezes é mais duradouro e incondicional do que o idealizado amor a dois.

E se O amor segundo Buenos Aires tem um defeito, este é não contar com personagens especialmente cativantes. No entanto, justamente por terem sido construídos com tantos defeitos quanto qualidades, Hugo, Leonor, Pedro, Eduardo e companhia conversam diretamente com o leitor, que não encontra dificuldades em se identificar com seus sentimentos, dilemas, pensamentos e histórias.

Título original: O amor segundo Buenos Aires
Editora: Intrínseca
Autor: Fernando Scheller
Ano: 2016
Páginas: 285
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 4 estrelas

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Pá de Cal – Gustavo Ávila

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Em uma vila misteriosa, seis pessoas acordam sem memória, cada um em uma casa diferente. Em cada residência, há uma caixa trancada e um bilhete que diz que, para descobrir quem são, é preciso reunir as seis chaves para abrir o recipiente e recuperar as memórias. O problema é que apenas um deles poderá descobrir quem é.

Durante a leitura de Pá de Cal, foi difícil não relacionar elementos da história com livros como Jogos VorazesDivergente Ser feliz e também com o filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. E o resultado desta combinação foi uma trama original e que permitiu que Gustavo Ávila abordasse, mais uma vez, a ambição sem limites e a megalomania, que parecem cada vez mais intrínsecas ao ser humano e potencialmente perigosas.

Por ser uma short story, é natural que Pá de Cal tenha ritmo acelerado e que tudo aconteça muito rápido. No entanto, acho que o autor dispunha de material para estender um pouco mais a história, mantendo-a uma short story, mas também tornando-a ainda mais envolvente, atrativa e complexa.

Com O Sorriso da Hiena, thriller de estreia de Gustavo Ávila, Pá de Cal compartilha o teor doentio e a discussão moral (e infinita) sobre até onde vale a pena em um prol de um bem teoricamente maior. Afinal, tudo tem um lado bom e outro ruim e a escolha nunca é fácil – muitas vezes, aliás, é impossível.

Título original: Pá de Cal
Autor: Gustavo Ávila
Ano: 2015
Páginas: 40
Tempo de leitura: 2 dias
Avaliação: 3 estrelas

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Resenha de Surpreendente! – Maurício Gomyde

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Aos 12 anos, Pedro foi diagnosticado com uma doença degenerativa que, com o tempo, o condenaria à cegueira. No entanto, sete anos depois, a condição se estabilizou, deixando-o com pouco mais de 70% da visão central. Com as esperanças renovadas, Pedro decidiu fazer faculdade de Audiovisual e, assim, extravasar a paixão pelo cinema. Aos 25 anos e recém-formado, ele está obcecado em ganhar o Cacau de Ouro e, para isso, precisa filmar um roteiro digno do grande prêmio do cinema nacional. Mas, exatamente quando Pedro deveria se dedicar ao máximo ao projeto, sua vida sofre reviravoltas inimagináveis e ele decide mergulhar em uma viagem ao lado dos melhores amigos para descobrir respostas que podem mudar sua vida.

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Sempre que vou resenhar um livro nacional, menciono meu preconceito com a literatura brasileira – do qual não me orgulho – e, desta vez, a história não é diferente: é bem provável que Surpreendente! nunca entrasse para a minha lista de leituras, no entanto, quando a editora Intrínseca enviou o exemplar de presente para todos os parceiros, pensei “por que não dar uma chance?”. Eu demorei para decidir lê-lo, mas os vários comentários positivos nas redes sociais estavam me deixando curiosa. E lamento dizer que, desta vez, a literatura nacional não me surpreendeu (perdão o trocadilho) e preciso discordar de tais opiniões.

Eu não tenho nenhum problema com histórias de pessoas que superam doenças ou que as enfrentam de maneira inspiradora – pelo contrário, adoro! No entanto, admito que é fácil cair em lugares comuns e transformar a trama em algo pedante, irreal e cansativo. E é exatamente o que acontece em Surpreendente!. Quando começamos a ler o livro, conhecemos um Pedro super autoconfiante, ousado e corajoso, o que já o torna um pouco mala. Depois de alguns acontecimentos, o personagem “vira o disco” completamente, se transformando em uma pessoa egoísta, insuportável e ainda mais mala. Claro que a mudança é compreensível dadas as circunstâncias, mas, para mim, nenhum dos dois Pedros soou minimamente real.

Compreender o mundo é tarefa complicada para qualquer pessoa, enxergue ela ou não.

Os clichês correm solto em Surpreendente!, seja nos diálogos, nas características e atitudes dos personagens ou no desenrolar super previsível da trama. Algumas pessoas argumentam que Maurício Gomyde o fez de propósito, já que o pano de fundo da história é o cinema, universo em que é difícil evitar alguns – ou muitos – clichês. Até acredito que tenha sido proposital, mas, para mim, não soou como se o autor estivesse fazendo graça dos lugares comuns – como acontece na comédia romântica Amizade Colorida, por exemplo. Soou mais como uma aposta para sensibilizar o leitor.

Falando nisso, seria mentira se eu dissesse que não me emocionei em alguns momentos da história. Ou que ela não tem nada a acrescentar em nossas vidas. Pelo contrário. Me emocionei, sim, e até acho que a premissa da trama é boa, mas foi executada com clichês e lições de moral embutidas demais. A leitura é super fluida e foi isso o que não me deixou abandonar o livro. As referências musicais e cinematográficas contribuem um pouco para o nível de “malice” de Surpreendente!, mas são muito boas e tornam a obra mais rica. E apesar das minhas críticas aos clichês, sempre vale a pena dizer que as maioria dos lugares comuns o são justamente por serem verdadeiros.

Título original: Surpreendente!
Editora: Intrínseca
Autor: Maurício Gomyde
Ano: 2015
Páginas:
265
Tempo de leitura:
3 dias
Avaliação:
2 estrelas

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Dias Perfeitos – Raphael Montes

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Téo é um jovem solitário e sua rotina se divide entre as aulas da faculdade de medicina e os cuidados com a mãe paraplégica. Durante um churrasco, porém, ele conhece Clarice, uma aspirante a roteirista que, com uma personalidade livre e irreverente, chama sua atenção. Apaixonado, o estudante de medicina bola um plano para reencontrar Clarice, no entanto, a reaproximação não surte o efeito esperado. A partir daí, Téo revela a personalidade psicopata e faz tudo o que pode – e também o que não pode – para entrar na vida da garota.

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Doentio. Esta é a palavra que melhor define Dias Perfeitos. Diferente de outros livros do gênero, a história de Raphael Montes deixa claro desde o início que Téo não é uma pessoa normal, preparando o leitor para o que vem a seguir, ao mesmo tempo em que aguça sua curiosidade e aumenta a expectativa em relação à trama. Ao narrar os acontecimentos do ponto de vista do psicopata e não da vítima, diferente de Bela Maldade, por exemplo, o autor consegue explorar muitas nuances da doença, assim como expor a absurda distorção da realidade que ela causa, “justificando” as atitudes do protagonista, mas também tornando-as ainda mais chocantes.

O ritmo de Dias Perfeitos é um dos pontos altos da obra, já que a leitura flui de uma forma que fica até difícil largar o livro. Como todo thriller psicológico, a história de Raphael Montes é repleta de surpresas e, por retratar a psicopatia, conta com uma boa dose de acontecimentos impensáveis. Não sei se a intenção do autor era criar uma trama bem amarrada, como Não conte a ninguém, de Harlan Coben, por exemplo. Se sim, confesso que senti falta de problemáticas paralelas, que saíssem do universo de Téo e Clarice e deixassem a história suscetível a reviravoltas ainda maiores. Agora, se a ideia era apenas traçar o perfil de um psicopata, Dias Perfeitos cumpre seu papel com uma trama relativamente simples, mas rica do ponto de vista psicológico.

Raphael Montes foi muito inteligente ao conferir rebeldia e certo egoísmo à Clarice, a vítima, já que, dessa forma, o leitor é capaz de desenvolver certa empatia por Téo, ainda que não o compreenda nem aprove suas atitudes, assim como acontece em Precisamos falar sobre o KevinEu estava bastante curiosa para saber como a história terminaria, no entanto, confesso que achei o final um pouco acelerado e até simplório. Por um lado, acho que o desfecho não poderia ter sido muito diferente, mas, por outro, fica o desejo de ser surpreendida. De qualquer forma, Raphael Montes retrata o psicopata com maestria e transforma a história de Téo e Clarice em uma analogia à própria doença: um universo sombrio, solitário e impiedoso, uma verdadeira prisão particular.

Título original: Dias Perfeitos
Editora: Companhia das Letras
Autor: Raphael Montes
Ano: 2014
Páginas: 276
Tempo de leitura: 2 dias
Avaliação: 4 estrelas

Se você gostou de Dias Perfeitos, leia Bela Maldade, de Rebecca James.

Navegue a lágrima – Letícia Wierzchowski

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Consumida pelo luto, a editora de livros Heloísa decide se mudar para uma casa de praia, em um balneário isolado do Uruguai, que pertenceu à escritora Laura Berman. Em sua nova residência, Heloísa se vê cercada pelas memórias dos Berman e, misteriosamente, passa a ser visitada pelo passado da família. A história de Laura, Leon e os filhos, assim como o desgaste da vida a dois, as pequenas traições e as inevitáveis perdas, distraem Heloísa de suas próprias feridas, ao mesmo tempo em que a ajudam a, enfim, curá-las.

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Eu tenho um carinho enorme pelo Uruguai e adoro Montevidéu, por isso, quando vi que Navegue a lágrima se passava por lá, me interessei. A verdade, porém, é que o país não passa de mero pano de fundo para a história e poderia ser substituído por qualquer outro. Mas, se por um lado me “decepcionei” com esse aspecto do livro, por outro, fui surpreendida por uma trama super leve e fluida, apesar da densa carga emocional.

… e a felicidade, enquanto lembrada, nunca, absolutamente nunca, morre.

E o tempo, meus caros, o tempo é totalmente erosivo. Não há o que ele não exponha; o tempo cava com suas unhas afiadas, lustra e faz brotar as fraquezas todas, uma a uma.

Em Navegue a lágrima, Heloísa mescla seu passado e presente com a trajetória dos Berman, mais especificamente de Laura, e durante o livro as duas histórias realmente se misturam e, apesar dos diferentes rumos, se completam em alguns pontos. A narrativa de Letícia Wierzchowski é delicada e sofisticada como poucas e, apesar de beirar o poético em alguns trechos, é super pessoal e intimista, dando a sensação de uma conversa despretensiosa com a protagonista.

Desistir é como parar um livro pelo meio.

É inegável que Navegue a lágrima é uma história triste, mas de uma forma tocante e não piegas. E acredito que seja exatamente essa dose de tristeza que torna a trama tão real e, de certa forma, democrática. As trajetórias de Heloísa e Laura se conectam por amores interrompidos, perdas e, acima de tudo, amor. E é também por meio desses ingredientes universais que Letícia Wierzchowski se comunica com seus leitores.

Título original: Navegue a lágrima
Editora: Intrínseca
Autor: Letícia Wierzchowski
Ano: 2015
Páginas: 208
Tempo de leitura: 4 dias
Avaliação: 4 estrelas

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Pó de Lua – Clarice Freire

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Pó de Lua é uma compilação de frases, poemas e ilustrações da publicitária Clarice Freire, que, desde 2011, mantém a página homônima no Facebook, hoje com mais de 1 milhão de seguidores. De acordo com a autora, “pó de lua” é sua receita infalível “para tirar a gravidade das coisas”, que é também a proposta de sua obra de estreia. Em formato de um caderno Moleskine, Pó de Lua conta com a lateral das páginas em azul e algumas páginas pretas, além de desenhos que parecem ter sido feitos com lápis de cor ali mesmo, em vez de impressos.

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Embora tenha muitos poemas e frases reflexivas, Pó de Lua tem senso de humor e brinca com as palavras em tiradas inteligentes e perspicazes. Em muitas páginas, os desenhos complementam os textos e “interagem” com o leitor. Confesso que a obra de Clarice Freire não é o meu estilo preferido de leitura, mas tem o poder de fazer refletir e encarar as situações e questionamentos com mais leveza. Pra mim, Pó de Lua é um livro de autoajuda repaginada e interativa. Para ler numa tacada só e guardar na cabeceira.

Título original: Pó de Lua
Editora: Intrínseca
Autor: Clarice Freire
Ano: 2014
Páginas: 192
Tempo de leitura: 2 dias
Avaliação: 3 estrelas

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