Resenha de Matéria Escura – Blake Crouch

Jason Dessen é um professor universitário muito bem casado com Daniela Vargas, com quem tem um filho de 15 anos, Charlie. Mas, apesar da vida feliz e confortável que levam, Jason e Daniela vivem à sombra do que poderiam ter sido se tivessem escolhido caminhos diferentes – ele, um gênio da física, e ela, uma artista de sucesso. Certa noite, Jason é raptado por um homem mascarado e, quando acorda em um laboratório, se descobre em um mundo paralelo, onde é exatamente tudo o que poderia ter sido.

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Qualquer história que envolva realidades paralelas automaticamente chama a minha atenção. E quando a obra em questão é também um thriller, não existe a menor possibilidade de eu não querer lê-la. Esse é exatamente o caso de Matéria Escura, de longe a trama mais louca que li nos últimos tempos. A história já começa com tudo, intrigando o leitor e construindo um enredo no melhor estilo “bola de neve”. O resultado é uma leitura angustiante, frenética, enervante e quase impossível de largar.

Em uma mistura de Efeito Borboleta com InterstellarMatéria Escura tem a Teoria do Caos como base. Ou seja, durante a leitura, você vai esbarrar muitas vezes no famoso “e se…?”, tanto em relação à história de Jason, quanto suas próprias escolhas e arrependimentos. Um dos pontos que mais me chamou a atenção no livro foi a forma como Blake Crouch equilibrou todos os ingredientes da trama: ficção científica, suspense, romance, psicologia e reflexões que o leitor leva para a vida.

Eu me interesso muito por universos paralelos, tanto do ponto de vista científico, quanto do sobrenatural. Por isso, a leitura de Matéria Escura foi extremamente interessante para mim e suscitou muitas reflexões. No final das contas, explorar um pouco do multiverso reforçou duas certezas: ninguém é uma coisa só e ser feliz não significa ter tudo na vida e, sim, ter o que realmente importa.

Título original: Dark Matter
Editora: Intrínseca
Autor: Blake Crouch
Ano: 2016
Páginas: 358
Tempo de leitura: 3 dias
Avaliação: 4,5 estrelas

Resenha de Crave a marca – Veronica Roth

Em uma galáxia onde quase todos são beneficiados pelo dom da corrente, Cyra e Akos desenvolvem poderes que parecem não trazer muitas vantagens. O de Cyra pode matar, mas também causa dores que a impedem de viver em paz. Para piorar a situação, seu irmão, o poderoso soberano shotet Ryzek, a usa como instrumento de tortura contra seus inimigos. Já Akos é capaz de interromper a corrente e, depois de sequestrado pelos shotet, decide se unir a Cyra para ter uma chance de resgatar o irmão.

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Divergente é, ao lado de Jogos Vorazes, minha série distópica favorita (três anos se passaram, e eu ainda não consegui decidir qual amo mais). Então, foi impossível não elevar as expectativas em relação a Crave a marca, mesmo sabendo que ele dificilmente se igualaria ao best-seller de Veronica Roth. No entanto, nem mesmo nos meus piores pesadelos, eu imaginaria uma história tão previsível e fraca.

Apesar de Crave a marca não ser uma distopia, as semelhanças com Divergente são óbvias. Primeiro, com a criação de diferentes planetas e sociedades. Embora não segreguem tanto quanto as facções, os habitantes/membros de cada um têm características específicas e personalidades semelhantes. Depois, e principalmente, com Avok e Cyra. Os protagonistas estão longe de ser complexos e tridimensionais como Four e Tris. Mas, para mim, é evidente que a autora tentou recriar o casal de Divergente. E o resultado deu a sensação de uma cópia barata, que, definitivamente, não funcionou. O que mais me incomodou foi a “síndrome do mocinho” de Avok e Cyra, que têm “medo” da capacidade que têm de ferir e matar as pessoas. Alguém lembra dos dilemas de Four e Tris (especialmente ela, em Insurgente)?

A primeira informação sobre Crave a marca era que o novo livro de Veronica Roth teria uma pegada Star Wars. Independentemente de ser coerente ou não, essa comparação sempre será um tiro pela culatra. Afinal, trata-se de uma das franquias mais bem-sucedidas de todos os tempos, que tem os fãs mais “chatos” do mundo. Então, não existe razão para gerar (mais) uma expectativa que nunca será atendida. No entanto, esse foi o primeiro chamariz de Crave a marca e, óbvio, só piorou a situação. Não é só porque a história se passa em outra galáxia, com a disputa entre “o bem e o mal”, e tem um wannabe de Kylo Ren, que podemos compará-la a Star Wars.

Para completar a tragédia, Crave a marca é previsível em tudo: traições, mortes, dramas, confabulações, romance, reencontros… TUDO! Parece que Veronica Roth reuniu as histórias do gênero e decidiu seguir a mesma fórmula e usar todos os clichês. Além disso, tudo é muito conveniente e, em nenhum momento, senti aquela tensão “gostosa” ou a curiosidade de saber o que iria acontecer depois. E sabe aquela vontade de nunca mais largar o livro? Pois é, não se aplica a Crave a marca – pelo contrário, chegar ao fim foi um suplício. Só não dei uma estrela para a obra porque, apesar de todos os problemas no enredo, Veronica Roth escreve muito bem. E com tudo isso, acho que fica claro o quanto detestei Crave a marca e que as chances de eu terminar a série são nulas.

Título original: Carve the mark
Editora: Rocco
Autor: Veronica Roth
Ano: 2017
Páginas: 480
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 2 estrelas

Veja mais livros de Veronica Roth

Resenha de A Colônia (A Colônia #1) – Ezekiel Boone

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Ninguém poderia imaginar que a massa negra que devorou um turista americano em meio à floresta peruana se tratava de milhões de exemplares de uma espécie de aranhas adormecida há mais de mil anos. No entanto, com velocidade impressionante, as misteriosas criaturas invadem lugares espalhados por todo o mundo, se tornando uma verdadeira ameaça à existência da humanidade.

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A capa costuma ser o suficiente para deixar claro que A Colônia não deve ser lido em caso de aracnofobia. Mas a verdade é que a obra de Ezekiel Boone é tão detalhista em relação à invasão e ao ataque das aranhas, que você só deve apostar na leitura se realmente não se importar com as criaturas. Caso contrário, serão muitos momentos de pura aflição.

Dito isso, vamos à história em si. Quem acompanha o blog sabe que eu amo livros que mesclam terror e cenários apocalípticos. Por isso, as expectativas em relação a A Colônia eram altas. A história demorou para engrenar, o que me desanimou um pouco no início da leitura. No entanto, isso só acontece porque Ezekiel Boone quis criar mais do que uma boa história de terror. Com narrações sob vários pontos de vista e tramas paralelas que envolvem aspectos extremamente pessoais dos personagens, o autor oferece ao leitor uma obra nada superficial e que vai muito além da invasão das aranhas.

E quando digo “sob vários pontos de vista”, não quero dizer apenas que Ezekiel Boone criou uma série de protagonistas em A Colônia. Por meio de cada personagem, a história retrata como a invasão das aranhas impactou o mundo. Entre os narradores, temos desde um turista e um agente do FBI até a presidente dos Estados Unidos e uma cientista especialista em aranhas.

Aos poucos, as subtramas se interligam e acredito que essas conexões apenas cresçam no segundo volume da série. E se o começo do livro exige um pouco de paciência, justiça seja feita: toda a contextualização vale a pena e, quando realmente começa, a história se torna difícil de largar. O final completamente em aberto deixa o terreno pronto para uma continuação em que tudo pode acontecer.

Título original: The Hatching
Editora: Suma de Letras
Volume seguinte: Skitter
Autor: Ezekiel Boone
Ano: 2016
Páginas: 272
Tempo de leitura: 6 dias
Avaliação: 3 estrelas

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Resenha de Donnie Darko – Richard Kelly

Donnie Darko já foi preso por incendiar uma casa e, por isso, é considerado um garoto problemático. No entanto, a situação ganha novos contornos quando, certa noite, Donnie é acordado por um homem vestindo uma assustadora fantasia de coelho, que atende pelo nome de Frank. Quando acorda, o garoto está em um campo de golfe e, ao chegar em casa, descobre que a “intervenção” o salvou da morte, já que a turbina de um avião caiu exatamente em seu quarto. Após o primeiro contato, Frank volta a procurar Donnie para revelar que o mundo irá acabar dentro de 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos.

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Já sabia da existência do filme Donnie Darko, mas, como nunca me dei ao trabalho de saber do que se tratava, não tinha interesse em assisti-lo. A primeira faísca surgiu quando a Darkside Books lançou essa edição maravilhosa, que não passa despercebida pelo olhar de nenhum leitor assíduo. Pouco depois, meu namorado coincidentemente comentou que gostaria de assistir ao filme, que, para completar, estava disponível na Netflix. Decidimos ver logo, antes mesmo de ler o livro que, até então, eu achava ser a obra que inspirou o longa (quando, na verdade, é exatamente o contrário).

Filme assistido, vieram as dúvidas e a vontade de tirar tudo a limpo. Pesquisando sobre a história, descobri que o livro Donnie Darko contava com alguns trechos do livro fictício A Filosofia da Viagem no Tempo, de Roberta Sparrow (aka Vovó Morte), que é a chave para entender a trama. Se eu precisava de mais algum motivo para comprar a edição da Darkside, encontrei aí. A obra foi lançada em 2003 (2 anos após o longa) e, por ser em formato de roteiro, é bem fluida e rápida de ler. Além disso, conta também com prefácio escrito por Jake Gyllenhaal, que interpretou Donnie Darko, e uma longa entrevista com Richard Kelly, em que o diretor e roteirista conta mais sobre as inspirações e influências por trás de sua obra-prima.

Sim, o livro Donnie Darko, especialmente o breve trecho de A Filosofia da Viagem no Tempo, ajuda a entender um pouco mais da história. Mesmo assim, confesso que ainda fiquei com algumas dúvidas e recorri à internet para sanar algumas delas. Agora, o próximo passo é assistir à versão estendida de Donnie Darko, onde dizem que encontramos mais algumas respostas. E como o livro é em formato de roteiro e foi “escrito” como complemento ao filme, recomendo assistir à versão original do longa primeiro.

Muito embora o roteiro complexo seja o principal atrativo de Donnie Darko, a verdade é que a história de Richard Kelly é muito mais do que isso. Além de retratar os dilemas comuns à adolescência, a história foca bastante na existência (ou não) de Deus, mas não como religião e, sim, como força maior.

Título original: The Donnie Darko Book
Editora: Darkside Books
Autor: Richard Kelly
Ano: 2003
Páginas: 254
Tempo de leitura: 3 dias
Avaliação: 4 estrelas

Estação Onze – Emily St. John Mandel

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A atriz mirim Kirsten Raymonde tinha apenas 8 anos quando presenciou a morte do ator Arthur Leander, vítima de um ataque cardíaco durante uma apresentação de Rei Lear. Assim que percebeu o mau súbito de Arthur, o ex-paparazzo e então paramédico, Jeevan Chaudhary, invadiu o palco a fim de reanimá-lo, mas não obteve sucesso. Naquela mesma noite, a Gripe da Geórgia se espalhou com velocidade e letalidade jamais vistas, levando o mundo a um estado de pandemia sem precedentes. Em um cenário completamente destruído, os poucos sobreviventes do que passou a ser chamado de Calamidade tiveram que aprender a viver em condições precárias. Vinte anos depois, Kirsten é  uma das integrantes da Sinfonia Itinerante, que interpreta as obras de Shakespeare em pequenas comunidades de sobreviventes. Durante uma das viagens, o grupo conhece um homem que se autointitula O Profeta e que cava sepulturas para quem decide deixar sua cidade. E, então, o cenário que já era inóspito os torna ainda mais vulneráveis.

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Eu confesso que não tinha planos de ler Estação Onze, mas, após receber um exemplar da Intrínseca, pesquisei sobre o livro e me interessei. A história é narrada em terceira pessoa sob os pontos de vista de vários personagens e vai e volta em uma linha do tempo de cerca de 50 anos. Então, para não perder o fio da meada, é preciso prestar muita atenção e, talvez por isso, a leitura demore um pouco para engrenar – no entanto, quando engrena, é difícil parar. Ao longo do livro, Emily St. John Mandel conecta todas as histórias, em todas as épocas, de maneira surpreendente, mas completamente plausível.

Primeiro, só desejamos ser vistos, porém quando somos vistos, isso já não é mais suficiente. Depois, queremos ser lembrados.

Como toda distopia, Estação Onze tem aquele lado “divertido” que nos mostra como seria o mundo sem itens que parecem tão básicos e indispensáveis hoje em dia, como celular, internet e computador. No entanto, diferente da maioria dos livros do gênero, o de Emily St. John Mandel se passa apenas 20 anos após o apocalipse e, por isso, a maioria dos personagens ainda se lembra de como era o mundo como o conhecemos atualmente, o que causa um impacto e, portanto, uma reflexão ainda maiores.

O inferno é a ausência das pessoas de quem temos saudade.

Pandemia, devastação, apocalipse e conspiração à parte, Estação Onze celebra a eternidade das palavras por meio das histórias de Shakespeare (e do Dr. Onze), que atravessaram gerações e mais gerações por quase 500 anos e que, mesmo após a Calamidade, continuaram a se propagar e encantar. Ler Estação Onze me fez pensar muito sobre as guerras e catástrofes que muitos de nós só vemos pela TV e chegar à conclusão de que sobreviver pode não ser suficiente, mas, com tantos pequenos apocalipses diários pelo mundo todo, será que não estamos sempre mais do que sobrevivendo, de alguma forma?

Título original: Station Eleven
Editora: Intrínseca
Autor: 
Emily St. John Mandel
Ano: 2014
Páginas: 320
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 4 estrelas

Se você gostou de Estação Onze, leia também Caixa de Pássaros, de Josh Malerman.

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2001: Uma Odisseia no Espaço – Arthur C. Clarke

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Logo após o surgimento da humanidade, um objeto misterioso surge na Terra e guia o homem pré-histórico à evolução. Milhões de anos mais tarde, cientistas detectam um monólito enterrado na Lua e uma equipe é enviada para uma missão espacial a fim de encontrar o objeto e descobrir sua verdadeira função. No entanto, a verdade sobre o monólito pode ser muito mais profunda e complexa do que a humanidade imagina.

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O início de 2001: Uma Odisseia no Espaço, mais precisamente as duas primeiras partes, que narram as origens da humanidade e a parte “burocrática” da viagem espacial, é bastante descritivo e há poucos diálogos, então é necessário ter certa paciência até a leitura engrenar. Na terceira parte, no entanto, o leitor se depara com uma espécie de diário de bordo, a história começa a esquentar e fica cada vez mais difícil largar o livro. Apesar de ter Dave Bowman como personagem central da trama, fica claro que a verdadeira protagonista da obra é a viagem ou, como o título bem diz, a odisseia no espaço.

Estava chegando rapidamente o momento em que a Terra, como todas as mães, teria de dar adeus aos seus filhos.

Sempre que leio livros antigos que retratam o futuro (que geralmente é nosso presente ou até passado), me divirto com as “previsões”, muitas vezes corretas, dos autores. E embora o real ano de 2001 tenha passado bem longe do que Arthur C. Clarke imaginou, em alguns pontos ele acertou – e um deles foi um o Newspad, um aparato tecnológico muito parecido com os tablets, hoje tão populares. Outra coisa divertida de se ver é como a obra realmente marcou a história da ficção científica, influenciando filmes como os recentes Interstellar, Gravidade, entre outros. Também é impossível não lembrar de histórias como Inteligência Artificial Ela após conhecer o computador auto-consciente HAL 9000.

Diferente da maioria das adaptações, 2001: Uma Odisseia no Espaço foi produzido ao mesmo tempo em que o filme (o clássico dirigido por Stanley Kubrick) e publicado após o lançamento do longa. Muitos acreditam que a obra seja uma ambiciosa releitura da história do mundo por Arthur C. Clarke e essa foi a impressão que ficou também para mim. Afinal, o que começa com uma proposta totalmente voltada para a ficção científica acaba como uma metáfora das etapas da vida, do nascimento à reencarnação.

Título original: 2001: A Space Odyssey
Editora: Aleph
Volumes seguintes: 2010: Segunda Odisseia, 2061: Terceira Odisseia 3001: Odisseia Final
Autor: Arthur C. Clarke
Ano: 1968
Páginas: 299
Tempo de leitura: 2 dias
Avaliação: 4 estrelas

*Em 1968, Stanley Kubrick dirigiu a adaptação cinematográfica de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que se tornou um clássico da sétima arte.