Entrevista com Frini Georgakopoulos, autora de Sou fã. E agora?

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Melhor do que amar um livro é não esperar nada de uma leitura e terminá-la simplesmente encantada! Foi o que aconteceu quando li Sou fã! E agora?, da Frini Georgakopoulos. Como contei na resenha (e no Instagram e em todo lugar) , decidi ler o livro porque a Frini foi muito simpática durante o Encontro de Blogueiros da Companhia das Letras. E qual não foi a minha surpresa quando me diverti e me identifiquei com cada página da obra? Por isso, foi muito legal poder entrevistar a autora e conversar sobre essa história de ser fã, o cenário literário atual, inspirações e influências e, de quebra, me identificar um pouquinho mais com ela!

– Você sempre teve o sonho de escrever um livro? Se sim, você se imaginava escrevendo algo na linha de Sou fã. E agora? mesmo ou pensava que criaria uma ficção?
Sempre tive muita vontade de escrever um livro, mas nunca a disciplina para sentar e terminar. Amo escrever contos, então já tenho dois publicados e um romance iniciado, mas sempre a falta de tempo me pegava. Mas aí eu resolvi “fazer” o tempo e finalizar um projeto e deu certo. Nunca pensei que conseguiria criar um livro como Sou fã! E agora? porque achava que para falar de estética de texto e gêneros literários seria preciso ser estudioso no assunto. Mas hoje em dia, o consumidor/leitor também cria conteúdo e como tenho muita experiência no ramo e pesquiso muito, consegui criar algo que divertisse, mas que também levasse conteúdo diferenciado aos leitores. Para mim, conteúdo que venha a gerar uma reflexão é essencial e espero ter alcançado isso com meu livro.

– Suas inspirações estão claras em Sou fã. E agora?. Mas quando e como você teve o “click” de que suas ideias poderiam se transformar em um livro?
O “click” veio em dois momentos. O primeiro ao notar que o que falo e explico nos eventos que apresento causa reflexão e curiosidade. Então pensei que seria legal expandir o horizonte e levar esse conteúdo para mais pessoas. O click de ser em livro veio quando eu li Uma página de cada vez. Ao ver que simples atividades levavam à reflexões muitas vezes profundas, pensei em unir as duas coisas e aí nasceu a ideia do Sou fã!. Continue reading “Entrevista com Frini Georgakopoulos, autora de Sou fã. E agora?”

Entrevista com Jennifer Niven, autora de Por Lugares Incríveis

Existem livros que nos emocionam, se tornam inesquecíveis e até favoritos. E existem outros que nos destroem por dentro, porque nos tocam de maneira extremamente profunda e pessoal. Por Lugares Incríveis foi assim para mim.

Tive o prazer de conhecer Jennifer Niven no Encontro de Blogueiros da Companhia das Letras e tive a certeza de que ela é tão (ou ainda mais)  gentil, humilde e atenciosa quanto parece nas redes sociais. Alguns dias depois do Encontro, entrei em contato com a autora na esperança de conseguir uma entrevista para o blog. Confesso que não estava muito esperançosa (afinal, Jennifer está “apenas” adaptando seu livro para Hollywood). E qual não foi a minha surpresa quando ela topou e, depois, respondeu às minhas perguntas com toda a paciência e dedicação?

Conversamos sobre Por Lugares Incríveis, o Finch da vida real, a adaptação para o cinema, Holding up the universe (que será publicado pela Seguinte em novembro), influências e inspirações literárias e a importância dos livros de Young Adult para a discussão de assuntos tão delicados quanto importantes. Fazer essa entrevista foi muito gratificante, pois Por Lugares Incríveis significa muito para mim por ter me ajudado a entender e aceitar melhor questões muito pessoais. Então, espero que vocês também gostem <3

– Você sempre amou escrever e criar histórias. De alguma forma, você sempre soube que iria viver disso?
Quando eu era criança, sabia que escrever era o que eu mais gostava de fazer. Minha mãe (Pamela Niven) também também era escritora e tínhamos nossa “hora de escrever” – ela sentava em sua mesa, eu na minha e, juntas, escrevíamos nossas histórias individuais. Eu acho que parte de mim sempre soube que eu iria crescer e me tornar escritora. Mas, por um longo tempo, eu realmente quis ser uma rock star.

– Quando escreveu Por Lugares Incríveis, você imaginou que o livro se tornaria esse sucesso?
Eu não tinha ideia. Eu escrevi a história porque precisava escrevê-la. Anos atrás, eu amei um garoto como Finch e esse foi o meu jeito de escrever sobre a experiência. Desde que Por Lugares Incríveis foi lançado, tenho ouvido de milhares e milhares de leitores ao redor do mundo que eles se enxergaram na história. Eu pensei que estava escrevendo para mim – para me ajudar a me sentir menos sozinha -, mas, na verdade, eu estava escrevendo para eles, para lembrá-los que não estão sozinhos. Continue reading “Entrevista com Jennifer Niven, autora de Por Lugares Incríveis”

Entrevista com Fernando Scheller, autor de O amor segundo Buenos Aires

Não canso de dizer o quanto sou apaixonada por Buenos Aires. Simplesmente tenho a certeza de que, mesmo depois de conhecer outras grandes cidades, a capital argentina sempre terá um lugar especial no meu coração. Sendo assim, não havia chances de eu não ler O amor segundo Buenos Aires, do jornalista brasileiro Fernando Scheller. Como não poderia ser diferente, o livro proporciona ao leitor um passeio pelas ruas da cidade. Mas é também um tributo a todos os tipos de amor! Em entrevista ao blog, Fernando Scheller falou sobre inspirações e influências, projetos futuros e como o fato de ser jornalista influenciou no processo de criação de O amor segundo Buenos Aires.

– Você sempre teve o sonho de ser escritor?
Acho que a vontade de fazer um trabalho autoral veio aos poucos, não foi algo acalentado e pensado desde sempre. Surgiu, primeiro, como uma evolução do jornalismo, com o livro-reportagem Paquistão, viagem à terra dos puros, publicado em 2010 pela Editora Globo. Depois disso, queria continuar escrevendo e tinha a preocupação de não me repetir, de simplesmente fazer outro livro sobre viagem. No entanto, foi exatamente durante uma viagem de férias que veio a inspiração para o início de O amor segundo Buenos Aires. A partir daí, comecei a escrever o livro aos poucos, junto com as minhas atividades profissionais, num processo que levou cerca de quatro anos.

– Quais foram as suas principais inspirações, além da cidade, para escrever O amor segundo Buenos Aires?
A inspiração para O amor segundo Buenos Aires veio no fato de que gostaria de escrever um livro sobre pessoas interessantes, uma espécie de homenagem aos amigos que tenho e que gostaria de ter. Parecia que faltava um livro com uma linguagem ágil, que celebrasse todas as formas de amor a partir de um ponto de vista contemporâneo. Além disso, sempre gostei da ideia de mostrar que toda história tem dois lados (ou até mais), o que explica a estrutura de múltiplos narradores do livro.

– Por que escolheu Buenos Aires não apenas como cenário, mas também personagem de seu livro?
Essa ideia veio bem no fim do processo, quando o livro já estava escrito. Parecia que, especialmente, o desfecho não funcionava direito. Escrever é também um processo de reescrever, revisar. É um exercício muito rico, que pode ampliar o escopo de uma obra, deixá-la mais próxima da perfeição.

– Quais são suas principais influências literárias?
Minhas influências literárias são as mais diversas. Gosto muito do estilo de contos de Alice Munro (autora de Fugitiva e Amiga de Juventude), sou apaixonado por um livro específico de Jonathan Frazen (Liberdade, que eu recomendo muito). Li a obra completa (ou quase) de Philip Roth, quando era mais jovem fui apaixonado por Paul Auster, li várias vezes a primeira metade de Franny & Zooey, de J.D. Salinger. Acho o estilo de Jane Austen moderno e fluido, apesar de ela ter vivido há mais de 200 anos. Já devorei Gabriel García Marquez, José Saramago e Vargas Llosa. Entre os brasileiros contemporâneos, li recentemente Vanessa Bárbara e Ricardo Lísias.

– Como aconteceu o processo de publicação de O amor segundo Buenos Aires?
Eu trabalho com uma agência literária, a Riff, que começou a me representar lá atrás, em 2009, ainda no livro sobre o Paquistão. Quando terminei o livro, apresentei o texto, recolhi sugestões e fiz uma revisão completa antes de começarmos a apresentá-lo às editoras. A partir daí foi um processo relativamente rápido. O livro começou a ser enviado em abril de 2015, fechamos o contrato em agosto e a publicação veio em abril de 2016. Antes disso, trabalhei, em conjunto com a Intrínseca, numa revisão radical do texto, que foi essencial para o resultado final que está agora nas livrarias, do qual gosto muito.

– Você já tem novos projetos literários em andamento?
Sim, um livro novo, um projeto de época, no qual o lugar onde a história se passa também será essencial. Já fiz alguns rascunhos, tenho os personagens delineados, mas só vou ter tempo de começar a escrever mesmo a partir de 2017.

– Como o fato de ser jornalista influenciou no processo de criação do livro e dos personagens?
Acho que na estrutura de localização dos capítulos, influenciou muito. A ideia de o livro ter um senso claro de localização reflete, sim, minha origem jornalística, assim como a ideia de que a obra pode funcionar como um guia alternativo da cidade, embora seja principalmente uma obra de ficção.

Entrevista com Leandro Leal, autor de Quem vai ficar com Morrissey?

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Em 2014, eu estava passeando pela livraria com meu namorado, quando um livro de capa colorida, com ilustração estilo história em quadrinhos, atraiu nossa atenção. Assim que lemos o título, Quem vai ficar com Morrissey?, surgiu o interesse, já que ele é fã de Smiths e eu também gosto bastante de algumas músicas. Para a nossa surpresa, a obra era de um autor nacional, o Leandro Leal, e foi aí que ficamos curiosos demais para não levá-la para casa.

Na época, fazia muito tempo que eu não lia um livro nacional e Quem vai ficar com Morrissey? acabou sendo uma grata surpresa! Além de adorar a história e as referências à cultura pop mundial, também foi divertido ver elementos tipicamente brasileiros, como o futebol (em especial o Santos) e o cenário político. Em entrevista ao blog, Leandro falou sobre as inspirações para o livro (além de Morrissey, claro) e projetos futuros!

– Você sempre teve o sonho de ser escritor?
Comecei a contar histórias antes mesmo de aprender a escrever. Com três, quatro anos, eu desenhava personagens e inventava histórias com eles. Anos depois, essas narrativas evoluíram para o formato tradicional das histórias em quadrinhos e, também, para “livros” – histórias que escrevia e ilustrava em cadernos. Nessa época, eu queria mesmo era ser desenhista. Sonhava fazer quadrinhos, talvez animações. Depois, já adulto, decidido a trabalhar com publicidade, com criação, meu lado escritor falou mais alto que o desenhista. Entre a direção de arte e a redação, optei pela segunda. Em paralelo ao trabalho, continuei escrevendo e desenhando. Novamente o escritor prevaleceu: nas horas vagas, mais do que desenhar, eu escrevia. Durante anos, participei de dois blogs literários e mantive o meu próprio, no qual escrevia crônicas e contos. De um desses textos veio a ideia inicial de Quem Vai Ficar Com Morrissey?.

– Quais foram as suas principais inspirações e influências para escrever Quem vai ficar com Morrissey?, além do próprio cantor, claro!
A principal inspiração para o livro foram coisas que aconteceram comigo mesmo, além de histórias que ouvi de amigos. Os personagens se baseiam, além de mim, em pessoas que conheci. Literatura tem que ser verossímil. Os leitores têm que conseguir se identificar com os personagens e seus dramas, ler e ter aquela sensação de “isso já aconteceu (ou pode acontecer) comigo”. Existem alguns jeitos de se conseguir esse efeito, o meu é este. Sobre influências, muitas delas estão presentes nas páginas do livro, citadas. É toda a cultura pop que me rodeia, que me formou, da qual me alimento. São discos – de várias bandas, além dos Smiths e do Morrissey –, filmes, quadrinhos, livros e até vídeo games. Tudo isso moldou minha personalidade, o modo como percebo o mundo e como o descrevo. Ao ler QVFCM?, muitos se lembram do Nick Hornby, por se tratar de uma história de amor ambientada num cenário semelhante, também cercada por referências musicais. Um gênero que alguns chamam de literatura pop, do qual, se não foi o inventor, o autor de Alta Fidelidade é o principal expoente. Sou fã do cara, e a comparação obviamente me deixa envaidecido, mas nunca tive isso como objetivo. Enquanto escrevia, não pensava: “quero escrever como o Nick Hornby”. Gosto do estilo dele, fluido, divertido e, por vezes, até poético. Mas, quando penso em autores que realmente invejo, me ocorrem nomes como John Fante, John Irving, Jonathan Franzen, Mark Twain, Philip Roth, Paul Auster… Existe, porém, uma grande diferença entre o modo como eu gostaria de escrever e o modo como consigo escrever. (risos)

– Como surgiu a ideia de incorporar um ídolo da vida real em uma história de ficção?
O ponto de partida do livro foi o término de um longo relacionamento que tive. Assim como o Fernando à Lívia (casal protagonista de QVFCM?), eu também tinha apresentado o Morrissey e os Smiths para essa minha ex-namorada, e me perguntei o que aconteceria se eu a proibisse de continuar escutando as músicas deles. Na vida real, eu jamais poderia exigir algo assim, mas é para isso que existe a ficção, não? Como disse antes, QVFCM? surgiu primeiro como um conto, uma história que desenvolvi até chegar a um romance.

– Quais as principais semelhanças e diferenças entre você e Fernando?
Como o Fernando, eu sou paulistano (quer dizer, quase: sou de São Caetano do Sul, cidade vizinha), descendente de nordestinos. Sou fanático por música, cultura pop de um modo geral, e também pelo Santos Futebol Clube. Também estudei na Metodista… Além disso, eu e o Fernando temos em comum um modo um tanto romântico de enxergar a vida e os relacionamentos, definido pelo background cultural – meu, que emprestei para ele. Enxergo, porém, o Fernando como uma versão mais imatura, inconsequente e egocêntrica de mim mesmo. Um cara legal, mas que ainda precisa apanhar um pouco mais da vida para crescer. E olha que ele apanha bastante ao longo do livro.

– Como aconteceu o processo de publicação de Quem vai ficar com Morrissey?
Terminei de escrever o livro em 2011, mas só em 2013 fechei o contrato para publicá-lo. Mandei as primeiras páginas para algumas editoras, sem receber respostas muito animadoras. Até que soube de uma editora especializada em rock, que, além de algumas biografias de bandas, tinha a intenção de publicar ficção relacionada ao gênero: a Edições Ideal. Achei que meu livro tinha a cara da editora. Descobri que o amigo de um amigo era amigo do editor, o Marcelo Viegas, e consegui o e-mail dele. Mandei os originais para ele e, por sorte, ele também achou que QVFCM? tinha cara da Ideal.

– Você tem mais projetos a caminho ou em mente?
Estou escrevendo outro livro, já bastante avançado. Infelizmente, o trabalho não me permite trabalhar nele na velocidade que gostaria, mas devo concluir ainda este ano. É uma história muito diferente de QVFCM?, bem menos autobiográfica, mas também tem muitas referências à cultura pop e à cidade de São Paulo – um dos cenários do romance, que é meio um “road book”. Em comum com QVFCM?, também tem a narrativa não linear. Quem gostou do meu primeiro livro pode gostar, mas não garanto. Ah, também penso em pedir uma colaboração para o meu lado desenhista nesse projeto, fazer algo parecido com os meus primeiros “livros” da infância. Mas ainda não é certo.

– Como você vê o cenário literário nacional atualmente?
Tem muita gente nova publicando coisas bacanas – em formato impresso, e mesmo em blogs. Infelizmente, esses autores, lançados por editoras menores, não têm tanta divulgação. As tiragens são em geral pequenas e a distribuição não é nenhuma maravilha. Resultado: acabam desconhecidos do grande público. Por outro lado, existe uma “literatura” nacional de baixa qualidade, com interesse unicamente comercial, que lota prateleiras de livrarias Brasil a fora. Livros assinados por pastores evangélicos, padres e Youtubers, que se tornam best-sellers da noite para o dia. A maioria das editoras prefere publicar livros como esses, ou mesmo comprar os direitos de best-sellers internacionais igualmente rasteiros (exemplo das “trilogias” da vida), do que apostar em novos talentos. Mesmo assim, alguns heróis persistem, e a literatura nacional resiste, ainda que não tão lida.

Entrevista com Gustavo Ávila, autor de O Sorriso da Hiena


Eu não tenho dúvidas de que O Sorriso da Hiena é um dos livros nacionais mais comentados de 2016 entre os Instagrams literários. E não é à toa! Com uma trama inteligente e intrigante, a obra de Gustavo Ávila entretém e atiça a curiosidade do leitor, ao mesmo tempo em que suscita reflexões e discussões sobre o comportamento e os valores da sociedade atual. E o fato de que o livro, até então independente, será publicado pela Verus Editora, é a prova de que O Sorriso da Hiena realmente tem seus méritos – e que não são poucos.

Costumamos cultuar grandes e renomados autores e rapidamente erguemos altos muros que nos separam de autores emergentes. No entanto, muitas vezes nos esquecemos de que, antes de serem criadores de “universos paralelos”, eles também são pessoas comuns, exatamente como nós. Então, além das influências e inspirações por trás de O Sorriso da Hiena, essa entrevista procura explorar um pouquinho também da “pessoa física” de Gustavo Ávila e do sonho que ele divide com muitos outros: o de ser escritor e ter suas histórias reconhecidas.

– Você sempre teve o sonho de ser escritor?
Não, eu não sou daqueles que já sabia o que queria ser desde criancinha. Eu descobri essa vontade mais tarde. Eu sempre achei incrível a capacidade de quem conseguia criar mundos, porque uma história é isso, toda ficção é um mundo único onde aquela história acontece. Isso é mágico, e parecia tão distante que eu nunca pensei nisso pra mim. Só quando eu comecei a trabalhar como redator publicitário que essa possibilidade se abriu. Essa vontade de escrever minhas próprias histórias. Eu descobri que tinha uma facilidade para escrever, de imaginar coisas, e esse desejo começou a crescer. E cresceu tanto que todo o resto se tornou monótono.

– Quais foram as suas principais influências?
Eu nunca tive um autor preferido. Eu tenho alguns livros que me fizeram pensar sobre algo e sentir algo. E são essas duas coisas que busco enquanto escrevo: pensar e sentir. Tanto faz a ordem. Um dos meus livros preferidos é o O Médico e o Monstro. E o motivo é porque ele é muito mais do que uma história, ele levanta um debate, ele tem uma ideia muito maior por trás das palavras, ele fala sobre uma coisa real dentro de cada um de nós. Pra mim, esse é o grau máximo que um livro pode alcançar, ser mais do que uma história. Mas ele também não é só uma reflexão intelectual, ele tem uma trama que faz você querer saber como vai acabar, que te instiga. Eu, nas minhas histórias, quero empregar a influência que esse livro é pra mim. Conseguir levantar um questionamento que te faça pensar sobre algo junto com uma história que também te carregue para o mundo dela, seja de forma leve ou pesada, mas que te entretenha e passe uma ideia.

– E quais foram suas inspirações para escrever O Sorriso da Hiena?
A maior inspiração foi o incômodo com as coisas que nós, seres humanos, fazemos uns com os outros. Eu odeio parecer pessimista, mas é difícil ser otimista quando se vê tanta coisa errada ao nosso redor. E não falo isso só sobre os atos mais cruéis como, cortar a cabeça de alguém que não segue a mesma religião, falo também de coisas “pequenas” como levar uma vantagem rápida em cima da pessoa que está do seu lado, como ser dono de uma empresa e ser um filho da p*** com os funcionários. Eu acho que nosso maior erro é a comparação dos nossos atos com os atos que vemos nos outros, assim parece que é possível justificar porque, nesta comparação, nossa maldade nem chega a parecer maldade. Criamos uma escala imaginária que nos permite fazer coisas que são escadas para outras ainda piores, e que vai amargando a vida. Não é à toa que você abre as redes sociais e tem tanta gente reclamando. É uma maldade contínua e cíclica. O livro fala sobre uma maldade específica e que todo mundo acha cruel, absurda, mas o que ele quer debater mesmo é a maldade em si, presente em todos os atos de crueldade. A inspiração veio disso, do como o ser humano, em diversas ocasiões, consegue se transformar em um bicho tão ruim.

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– Quando você terminou de escrevê-lo, pensou que faria tanto sucesso ou foi mais uma aposta para “ver no que dava”?
Ainda é cedo para ter uma resposta concreta para essa pergunta. Foi uma tiragem independente, um número bastante reduzido. A resposta para essa pergunta será dada mais pra frente, quando um número maior de pessoas tiver acesso ao livro. Mas é claro que estou muito feliz por tudo que o livro tem despertado nas pessoas que leram até agora. É difícil saber se algo que você faz vai fazer sucesso ou não. Eu esperava que as pessoas gostassem, mas era só um querer, um desejo. Você espera por causa do sonho que tem, mas ao mesmo tempo é preciso saber dosar a expectativa porque a realidade mostra que a possibilidade de dar errado é muito maior. Do como é difícil ser escritor, do como é difícil conseguir um tempo na correria de cada pessoa. Quando começaram a sair os primeiros comentários dos leitores foi realmente incrível. Foi uma onda muito positiva. E muito calorosa.

– Qual você acha que foi o segredo do sucesso de O Sorriso da Hiena?
Acredito que é uma série de fatores. Acho que o tema do livro aborda algo que todos temos curiosidade: a maldade humana. O ser humano é curioso demais quando se trata de algo cruel. A maior prova disso é quando ocorre um acidente na rua e os outros carros reduzem a velocidade para ver o que aconteceu. Também acredito que as pessoas ficaram meio surpreendidas por essa história ter sido escrita por um autor desconhecido e independente. A verdade é que a gente não espera algo de valor de quem nunca ouviu falar. Então ter gostado de algo novo atiça a curiosidade e faz o sabor ficar ainda melhor. A forma como os leitores abraçaram a história fez toda a diferença para ela alcançar outras pessoas. Acredito que por terem gostado do livro, mais o fato de ser um autor nacional e ainda por cima independente, as pessoas se conectaram com o mesmo objetivo de fazer essa história voar mais alto. Normalmente, quando eu envio os livros para as pessoas eu faço questão de autografar e escrever uma mensagem que é a mais pura verdade: “Agora você também faz parte dessa história”. Há alguns motivos para o sucesso e o maior deles não é segredo: foi o apoio de todo mundo que leu e gostou. Que não simplesmente leu, curtiu e colocou na estante. Mas leu, curtiu e fez questão de falar para outras pessoas.

– Você se vê escrevendo obras que não sejam thrillers ou similares?
Sim, com certeza. Eu nunca pensei em ser um autor específico de romance policial. Eu já tinha a ideia de uma segunda história policial e que estou escrevendo agora, mas depois pretendo trabalhar em um outro projeto que está guardado que não será dentro deste gênero, apesar de ter um certo tipo de investigação. Porém, será mais uma história sobre a jornada de um homem, com uma exploração quase arqueológica. Eu não foco em um gênero, depende da ideia que surgir. E eu ainda quero escrever algo para crianças. Um dia, quem sabe, quando eu pensar em uma boa história infantil.

– Como você vê o cenário literário nacional atualmente?
Eu acho que precisa melhorar bastante. Os autores nacionais estão abrindo espaço na marra, com publicações independentes e através de editoras menores, e só depois disso, alguns (poucos) com grandes editoras. O peso para as publicações nacionais em comparação com as que vem de fora ainda é muito desequilibrado. As tiragens de livros brasileiros são bem menores. E, apesar dos leitores estarem mais abertos a livros nacionais, este cenário ainda precisa melhorar muito. Muito. Não é à toa que raramente vemos uma ficção nacional na lista dos mais vendidos. Poucos autores conseguem viver apenas de escrita, a maioria precisa escrever e ter outra fonte de renda. É preciso mais confiança e chance tanto dos leitores quanto das editoras. E isso é um ciclo. Com mais procura de obras nacionais, maior será o investimento das editoras, que vai fomentar a curiosidade de novos leitores e assim essa roda vai girando. Acho que está melhor, mas em comparação, estamos muito, mas muito longe do que podemos ser.

Entrevista com Paula Ayumi, autora de A lua, as estrelas e as pequenas coisas

O post de hoje é especial porque é a primeira entrevista do blog <3 E para dividir essa novidade comigo, escolhi a Paula Ayumi, ou Polayumi (como ela é conhecida nas redes sociais), autora do livro A lua, as estrelas e as pequenas coisas*.


Conheci a Paula por meio da minha irmã, que sempre me falou sobre as “tirinhas muito fofas da Polayumi”. Não sou de acompanhar páginas/Instas do tipo, mas fiquei curiosa e, quando entrei no Instagram dela, entendi por que minha irmã havia insistido tanto no assunto! Desde então, sou seguidora fiel (do Facebook também) e adoro quando tem uma mini-história nova para começar o dia!


As ilustrações da Paula são realmente fofas, no entanto, também são mais do que isso! Adoro como ela consegue transmitir tanto com tão poucas palavras e como mescla senso de humor com sensibilidade e até certa melancolia. E o resultado são tirinhas divertidas e “fófis”, como ela mesma define, mas também inteligentes e afiadas!

No ano passado, a Paula lançou seu primeiro livro, batizado A lua, as estrelas e as pequenas coisas. E como não poderia ser diferente, a obra conta com as principais características da autora: delicadeza, simplicidade e o poder de tocar o leitor com poucas palavras. O livro pode ser considerado um infanto-juvenil pelo formato que alia ilustrações a pequenas frases, além da linguagem de fácil compreensão. Mas as mensagens são também – ou até mais – para “gente grande”.

Agora, deixo vocês com a entrevista que fiz com a Paula :)

– Como e quando você começou a desenhar?
Eu comecei desde pequenininha, como toda criança, mas continuei a desenhar mesmo adulta. Acho que primeiro por influência da minha mãe, que adora desenhar também e segundo por gostar mesmo. Mas foi mais durante a faculdade de arquitetura que o “desenho” entrou de modo mais relevante no meu dia-a-dia, quando estava descontente com o curso de arquitetura e resolvi “voltar às bases”.

– Como e quando você começou a fazer as tirinhas?
No meio da faculdade me apaixonei por livros infanto-juvenis e passei a praticar para um dia escrever um. Muitas vezes, enquanto praticava, acabavam surgindo idéias próprias de história, que eu ia anotando num cantinho de papel. Eram histórias tão curtinhas, que eu falava “Droga! Isso não dá um livro!”. Hahaha! O destino delas era a lixeira… Mas, ao invés disso, tive a idéia de postá-las no facebook e, pra minha grande surpresa, algumas pessoas gostaram! E isso me motivou a postar mais dessas “mini-histórias” (como gosto de chamar), mais conhecidas como tirinhas.

– Quais são as suas inspirações, tanto para desenhar, quanto para escrever?
As inspirações vêm de todos os lugares. Estou lendo um livro muito bom da Elizabeth Gilbert, A grande magia, que fala exatamente disso. As idéias estão sempre rondando por aí a procura de algum receptor. Ela pode estar agora mesmo, aí do seu lado, mas é preciso estar aberto à isso. Tanto para capturá-la, quanto para deixá-la ir. Mas o que realmente faz com que eu persista muitas vezes é o fato de que, ao desenhar, consigo ver as coisas de modo mais simples. Na minha cabeça um pequeno problema, se torna gigante. Quando desenho, eu penso “Olha que bonitinho esse problema, acho que ele pode virar um monstrinho!” Haha! Muitos sentimentos não vão desaparecer de uma hora pra outra, mas eu posso tentar lidar com eles de forma mais natural. E o ato de desenhar me tranquiliza e proporciona isso.

– A técnica que você utilizou no livro é diferente da usada na criação das tirinhas. Como foi feito o livro?
O livro A Lua, as estrelas e as pequenas coisas é todo feito com recorte de papel. Tinha feito muitos testes com lápis, aquarela, carvão… Mas acho que essa solução foi a que mais combinava comigo e com o que eu queria passar na época.

– Como você define seu estilo?
Acho que a todo momento estamos mudando nossos estilos, assim como mudamos a nós mesmos. Eu, particularmente, parei de tentar encontrar meu estilo, porque acho que quando tento definir, tudo perde a graça pra mim. Por exemplo, gosto desde referências mais gráficas e sisudas, até coisas mais “fófis” e felizes! Haha! E pra mim não tem problema! Gosto de me manter aberta pra poder experimentar outros estilos, apesar do meu trabalho atual entrar muito na categoria “fófis” mesmo. Hahaha!

E para dar um gostinho, separei algumas tirinhas e ilustrações da Paula que eu adoro!

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*(In)Felizmente, A lua, as estrelas e as pequenas coisas está esgotado, mas Paula contou que talvez relance o livro mais pra frente e com algumas novidades! Oba \o/