Resenha de Sempre vivemos no castelo – Shirley Jackson

Uma dose letal de arsênico no pote de açúcar matou quatro membros da família Blackwood. Sobrevivente da tragédia ao lado da irmã, Mary Katherine, e do tio, Julian, Constance é acusada pelo crime, mas logo é inocentada. Quando ela volta para casa, os três passam a viver isolados e Mary Katherine assume a responsabilidade de proteger a irmã da hostilidade dos vizinhos. Conforme os anos passam, Constance, Merricat e tio Julian constroem uma nova dinâmicareencontram o equilíbrio. No entanto, tudo é colocado à prova com a chegada do primo Charles.

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Companhia das Letras/Suma de Letras anunciou que publicaria Sempre vivemos no castelo no Encontro de blogueiros, que aconteceu durante a Bienal do ano passado. E desde então, fiquei louca pelo livro – que teve o lançamento marcado para novembro/17, depois adiantado para o primeiro semestre e, enfim, foi lançado em julho. Ou seja, nem preciso dizer que as expectativas estavam no céu! Afinal, além de ter me interessado pela sinopse, o livro é um clássico e Shirley Jackson é uma lenda, que influenciou muitos atores, inclusive Stephen King.

Mas, como geralmente acontece nesses casos, Sempre vivemos no castelo deixou um pouquinho a desejar. Não me entendam mal! A história é super envolvente e o mistério é muito bem conduzido. Os personagens dúbios mesclam ingenuidade e perversidade, o que apenas aumenta a curiosidade em torno do que realmente aconteceu com os Blackwood. No entanto, o desfecho é quase um anti-clímax e fica aquele gostinho de “quero mais” – e modéstia à parte, eu adivinhei o plot twist, então a história perdeu mais um pouquinho da graça para mim.

De qualquer forma, Shirley Jackson tem todo o mérito por envolver o leitor com uma história construída à base de detalhes e sutilezas. Dessa forma, a autora foi capaz de retratar as neuroses das personagens não só de maneira plausível, como também interessante para quem lê. Não posso explicar exatamente por que não gostei taaaaanto de Sempre vivemos no castelo, porque seria um spoiler. Mas posso dizer que, para muitos, isso talvez não seja um problema. Então, leitura mais do que recomendada!

Título original: We have always lived in the castle
Editora: Suma de Letras
Autor: Shirley Jackson
Ano: 1962
Páginas: 193
Tempo de leitura: 6 dias
Avaliação: 3 estrelas

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Resenha de A Cor Púrpura – Alice Walker

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Por ser negra e pobre, Celie não leva uma vida fácil no sul dos Estados Unidos, na primeira metade do século 20. Durante a infância e a adolescência, foi abusada física e psicologicamente por aquele que chamava de pai. Mais tarde, foi separada de seus filhos e de sua irmã, Nettie. E adulta, continuou a sofrer repetidos abusos por parte do marido. Quando conhece a deslumbrante Shug Avery, no entanto, Celie vê tudo se transformar. E descobre que, se houver amor, a vida pode ser leve e deliciosa, ainda que não seja livre de dificuldades e tristezas.

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Eu gosto muito de livros que abordam a segregação racial e adoro narrativas epistolares. Por isso, sempre tive a certeza de que iria gostar de A Cor Púrpura, que rendeu a Alice Walker National Book Award e o Prêmio Pulitzer, em 1983. Mesmo assim, a obra me surpreendeu por retratar não apenas o racismo, como também o “estigma duplo” que as mulheres carregavam (e, infelizmente, ainda carregam) nesse contexto. Ou seja, além de sofrerem com o preconceito por serem negras, elas ainda eram vítimas de machismoabusos de todos os tipos por parte de seus pais, maridos e irmãos também negros.

Por meio de cartas que Celie escreve para Deus e para a irmã, A Cor Púrpura narra 40 anos de história da personagem. E é assim que Alice Walker explora por completo os sentimentos da protagonista, bons e ruins, tornando-os ainda mais intensos e palpáveis para o leitor. Gostei muito de como a autora manteve a dramaticidade e a gravidade da trama, mas também trouxe levezabeleza à história. Tudo na medida certa, tanto para emocionar, quanto para fazer sorrir.

A Cor Púrpura foi lançado em 1982, mas é extremamente atual. Por falar sobre racismo, sim, mas também por abordar o amor em todas as formas e retratar, como poucas obras, a tal da sororidade. No entanto, talvez a maior mensagem da obra de Alice Walker seja sobre a resiliência, que permite que as pessoas mudem, se adaptem e sempre encontrem razões e coragem para amar.

Título original: The Color Purple
Editora: José Olympio
Autor: Alice Walker
Ano: 1982
Páginas: 330
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 5 estrelas

Resenha de Drácula – Bram Stoker

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Designado para prestar apoio jurídico ao Conde Drácula, o jovem advogado Jonathan Harker viaja às montanhas de Cárpatos para assisti-lo em uma transação imobiliária. Quando chega ao castelo do Conde, Harker fica encantado pelos bons modos deu seu anfitrião, embora intrigado com seu comportamento peculiar. No entanto, aos poucos, as peculiaridades de Drácula se revelam mais do que hábitos misteriosos – elas são perigosas e até mortais. É quando Harker se dá conta de que é, na verdade, um prisioneiro do Conde.

Por ser um dos maiores clássicos do terrorDrácula vive em nosso imaginário desde sempre, da mesma forma que Frankenstein. Mas, assim como a obra de Mary Shelley, a de Bram Stoker se revela muito mais complexa do que pensamos. Desde o começo, o leitor sabe quem é o Conde Drácula. No entanto, graças à habilidade do autor em construir um personagem que pode tanto ser um homem peculiar, quanto uma criatura do mal, isso não faz com que a história perca a graça. Até porque ela é muito mais do que isso.

A história é narrada sob diferentes pontos de vista, por meio de cartas, diários e recortes de jornal. O recurso permite o desenvolvimento de diferentes subtramas, que, apesar de serem independentes, se conectam entre si e ao ponto principal da trama – as vilanias de Conde Drácula. E com tudo isso, não restam dúvidas de que Bram Stoker sabe muito bem como criar ótimos cliffhangers e plot twists!

Drácula é considerada por muitos uma obra machista. O que seria natural, já que foi escrita no final do século 19, quando os costumes eram “ligeiramente” diferentes dos de hoje. No entanto, embora retrate a mulher como o “sexo frágil” e considere como “diferenciada” aquela que procurar ser mais do que mãe e esposa, Drácula não parece fazê-lo por arrogância ou superioridade. E, sim, por protecionismo somado à mentalidade da época. Portanto, a única coisa que me impediu de dar 5 estrelas para a obra-prima de Bram Stoker foi a parte final, que é ligeiramente arrastada.

Título original: Dracula
Autor: Bram Stoker
Ano: 1897
Páginas: 399
Tempo de leitura: 8 dias
Avaliação: 4 estrelas

Resenha de O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald

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Quando se muda para West Egg, em Long Island, Nick Carraway se torna vizinho e, posteriormente, amigo de Jay Gatsby. Herói de guerra, Gatsby é conhecido pela fortuna e pelas festas, no entanto, a origem de sua riqueza é motivo de mistério e especulações sobre seu passado. Carraway é primo de Daisy Buchanan e logo descobre que ela e Gatsby tiveram uma história de amor, que terminou mal resolvida, antes da Primeira Guerra Mundial.

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Sempre comento por aqui que clássicos não são as minhas leituras favoritas. Mas confesso que tenho um fraco pelo glamour decadente dos anos 20 e, por isso, sempre tive interesse em ler O Grande Gatsby. No entanto, por ser uma obra muito conceituada, sempre tive a ideia errônea de que a leitura seria densa e até difícil. Até que uma amiga (que ama clássicos, mas também conhece bem meu gosto literário) me garantiu que eu gostaria do livro de F. Scott Fitzgerald. Então me animei de vez e decidi me aventurar no mundo dos clássicos.

O Grande Gatsby é envolvente e intrigante desde a primeira página. Logo, somos apresentados não a Jay Gatsby, mas sim a toda a mística que envolve o protagonista. Assim como os outros personagens, não sabemos o que é verdade e o que é mentira sobre seu passado, o que torna a leitura ainda mais interessante. Não demora muito e fica claro que, vítima de boatos maldosos ou não, Gatsby está longe de ser o mais equilibrado dos homens. E mesmo com o comportamento dúbio e por vezes até sinistro, o protagonista é cativante de uma maneira única.

Longe de ser monótona, a leitura de O Grande Gatsby conta com reviravoltas inesperadas. No entanto, também não pode ser considerada frenética. É possível dizer que cada acontecimento determinante acontece na hora certa, atendendo às expectativas do leitor, ao mesmo tempo em que o surpreende. Dá para entender? Por isso, a tensão velada está presente durante toda a leitura, criando uma série de mini-clímax. O glamour decadente do período pós-Primeira Guerra Mundial é uma ironia por si só e F. Scott Fitzgerald a leva para todo o desenvolvimento da trama.

Lealdade, traição, glamour, ostentação, reviravoltas, covardia, egoísmoO Grande Gatsby tem tudo isso e mais um pouco. No entanto, a verdade é que o clássico de F. Scott Fitzgerald nada mais é do que um livro sobre um caso de amor obsessivo, contado por Nick Carraway, um narrador que não é onipresente, mas transmite com perfeição cada nuance da história de Gatsby e Daisy.

Título original: The Great Gatsby
Editora: Penguin Companhia
Autor: F. Scott Fitzgerald
Ano: 1925
Páginas: 249
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 4 estrelas

Resenha de Vá, coloque um vigia – Harper Lee

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Vinte anos após os acontecimentos de O Sol é para todos, Jean Louise Finch – a Scout – está morando em Nova York e volta à sua cidade natal para visitar o pai, Atticus. No entanto, o que prometia ser um agradável reencontro com a família e os amigos se torna uma decepção quando Jean Louise descobre, em meio aos debates sobre segregação racial, que a comunidade que a criou não é exatamente o que ela pensava ser.

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Nunca fui a favor de Vá, coloque um vigia e, por um bom tempo, relutei em lê-lo. Mas, no final das contas, a curiosidade falou mais alto do que o medo e acabei me rendendo. E, como já era esperado, não gostei do que li. O livro começa com uma espécie de transição entre a Scout que conhecemos em O Sol é para todos e a Jean Louise que iremos conhecer em Vá, coloque um vigia, por meio de lembranças da infância e da adolescência da personagem. O que seria natural e esperado, se não se estendesse pelas 100 primeiras páginas, fazendo com que a trama pareça não ter propósito.

Quando a história finalmente começa a se desenrolar, nos deparamos com uma Jean Louise que é completamente o oposto de Scout: arrogante, intransigente, egocêntrica e nada carismática. Ou seja, um dos maiores – se não o maior – trunfos de O Sol é para todos simplesmente deixa de existir neste segundo livro. De certa forma, a personagem tem o direito de se sentir decepcionada e até traída – embora ache que a segunda seja uma palavra muito forte. No entanto, Jean Louise se tornou tão, mas tão desagradável, que é praticamente impossível se conectar a ela do ponto de vista emocional e “comprar” sua briga. Ainda mais porque Atticus, o “vilão” da história, ainda é o personagem sereno e envolvente que conhecemos no primeiro livro.

Sei que O Sol é para todos retrata uma situação utópica, enquanto Vá, coloque um vigia narra uma realidade 100% possível. No entanto, o primeiro livro parecia ter sido escrito justamente para se tornar válvula de escape para tantas injustiças que acontecem no mundo, especialmente as motivadas pelo racismo. E o que eu me pergunto: por que destruir esse sopro de esperança, desmistificando Atticus Finch e transformando Jean Louise em uma personagem intragável?

Sim, o senso de humor apurado de Vá, coloque um vigia é inegável, assim como a contextualização histórica é irretocável. Mas, para mim, também é indiscutível que o mundo da literatura estaria melhor se ele simplesmente não existisse.

Título original: Go Set a Watchman
Editora: José Olympio
Volume anterior:
O Sol é para todos
Autor: Harper Lee
Ano: 
2015
Páginas:
 252
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 
2 estrelas

Resenha de O Iluminado – Stephen King

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Após sofrer com o alcoolismo e episódios de descontrole, o professor Jack Torrance está em busca de um recomeço e decide aceitar o emprego como zelador do Hotel Overlook durante a temporada de inverno. Para isso, Jack se muda para o local com a esposa, Wendy, e o filho, Danny, que parece ter poderes psíquicos. A missão do professor é simples, apenas manter a integridade do hotel, enquanto aproveita a tranquilidade do local para finalizar sua peça de teatro. No entanto, o isolamento que o Overlook proporciona pode ultrapassar as barreiras físicas e geográficas.

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Eu já havia assistido a uma série de televisão baseada em O Iluminado e também à aclamada adaptação cinematográfica dirigida por Stanley Kubrick. No entanto, foi durante minha infância/adolescência, ou seja, há um bom tempo, e por isso eu não lembrava os detalhes da história. Desde que comecei a ler Stephen King, estava louca de curiosidade para ler O Iluminado, mas, por algum motivo, sempre acabava adiando a leitura. Eis que a hora chegou e eu não poderia ter ficado mais maravilhada com esta trama, que é “apenas” uma das grandes obras-primas do autor!

Sei que sou repetitiva nas resenhas dos livros de Stephen King, mas sempre sinto a necessidade de ressaltar a forma como o autor consegue mergulhar na psicologia humana e retratar tanto o melhor, quanto o pior de cada personagem, nunca perdendo o contato com a realidade apesar das fortes doses de fantasia. E O Iluminado, ao lado de It: A Coisa, é uma verdadeira obra de arte neste sentido! Durante a leitura, conhecemos a história de Jack Torrance por meio do presente e de flashbacks que nos levam ao passado distante e não tão distante. E, assim, criamos certa empatia pelo personagem e, independentemente de concordar ou não com suas atitudes, somos capazes de analisá-las um pouco mais a fundo e, às vezes, até de compreendê-las.

O Iluminado é narrado por vários pontos de vista, o que permite que Stephen King enriqueça ainda mais a trama, traçando o perfil psicológico de outros personagens – principalmente o de Danny, que é na verdade em torno de quem toda a história se concentra. O livro é indiscutivelmente uma obra de horror e é inegável que o autor sabe como provocar e transferir o desespero e o medo dos personagens para o leitor – posso dizer que a trama conta com uma das “cenas” mais assustadoras que já tive o prazer e o pavor de ler.

No entanto, mais do que uma história sobrenaturalO Iluminado não é “terror pelo terror”. Em seu livro mais célebre e clássico, Stephen King faz o que sabe fazer de melhor: cria personagens tridimensionais que atingem os limites da realidade e retrata, por meio de um profundo background, os piores e mais perigosos fantasmas que existem – os que vivem dentro de nós. Mais do que terror pelo sustoO Iluminado é uma história sobre o medo, sobre a loucura, sobre o mal e sobre o inferno. Mas, acredite, é também – e muito – sobre o amor.

Título original: The Shining
Volume seguinte: Doutor Sono
Editora: Suma das Letras
Autor: Stephen King
Ano: 1977
Páginas: 463
Tempo de leitura: 8 dias
Avaliação: 5 estrelas

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Resenha de Morte na Mesopotâmia (Hercule Poirot #14) – Agatha Christie

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Quando a enfermeira Amy Leatheran aceitou cuidar de Louise, a excêntrica esposa do arqueologista Dr. Leidner, ela não poderia imaginar que teria que ajudar o célebre detetive Hercule Poirot a desvendar um misterioso assassinato.

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Assim como nos deparamos com livros bons, mas cansativos de ler, existem as obras não tão interessantes, mas extremamente fluidas. E Morte na Mesopotâmia faz parte do segundo grupo. A primeira metade da história é bem arrastada e a trama só fica mais envolvente com a chegada de Hercule Poirot. No entanto, diferente de O Assassinato no Expresso do Oriente, em que o enredo gira muito mais em torno da resolução do crime, Morte na Mesopotâmia foca um pouco mais nos personagens e suas características, embora não tanto quanto em O Caso dos Dez Negrinhos

Este é apenas o terceiro livro que leio de Agatha Christie e confesso que já se tornou fácil sacar os padrões da autora. Não estou dizendo que costumo adivinhar as resoluções do caso, mas sabe quando fica aquela sensação de “não fui completamente surpreendida”? Pois é. E eu hei de admitir que, embora a história seja, mais uma vez, muito bem amarrada e inteligenteMorte na Mesopotâmia exagera em alguns pontos, tanto nas reviravoltas da trama, quanto na resolução do mistério.

No entanto, Agatha Christie não recebeu o título de Rainha do Crime à toa e se mostra sempre capaz de criar histórias mirabolantes e que, muito embora forcem a barra em alguns momentos, conectam todos os aspectos, sem deixar uma ponta sequer desamarrada. Talvez, o segredo para que a autora surpreenda mais seja ler seus livros em longos intervalos, para “desintoxicar” de suas fórmulas padrão. Afinal, quem não gosta de jogar Detetive de vez em quando?

Título original: Murder in Mesopotamia 
Editora: Nova Fronteira
Autor: Agatha Christie
Ano: 1936
Páginas: 225
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 3 estrelas

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