Resenha de Quando ninguém está olhando – Alyssa Cole

O bairro do Brooklyn, em Nova York, sempre foi o lar de Sydney Green. No entanto, tudo parece estar mudando em uma velocidade alarmante. Na tentativa de preservar o passado, ela decide elaborar um passeio guiado para propagar a história do local e, para isso, irá contar com a ajuda do novo vizinho, Theo.

Aos poucos, a pesquisa dos dois evidencia episódios extremamente dúbios, que podem tanto ser verdadeiramente suspeitos, quanto frutos de uma paranoia. Seriam apenas os sintomas da gentrificação ou uma conspiração real, perversa e até mortal?

Antes de iniciar a leitura de Quando ninguém está olhando, saiba que não se trata de um thriller nos moldes a que estamos mais acostumados – tanto é que eu classificaria muito mais como um suspense. Sem uma morte ou desaparecimento como foco da trama, o mistério fica por conta da atmosfera construída com maestria por Alyssa Cole. E a todo momento, sentimos o medo, a aflição e a confusão de Sydney, o que só torna a leitura mais imersiva e viciante.

Meu aspecto preferido de Quando ninguém está olhando foi a crítica racial e social. A situação que acompanhamos na história apenas escancara o processo de gentrificação que atinge várias regiões na vida real. E o mais triste é saber que “melhorar um bairro” quase sempre significa gerar lucros para grandes corporações a partir do apagamento de uma comunidade e do prejuízo à população de baixa renda – o que, por sua vez, aumenta ainda mais os abismos da desigualdade social.

Quando ninguém está olhando também aborda o racismo (e em especial, o estrutural) de maneira bastante atual e didática. E atrelado à questão da gentrificação, faz um paralelo à colonização, mostrando como os brancos sempre partem do pressuposto que são os donos de tudo. Não à toa, é impossível ler o livro de Cole não lembrar do filme Corra!, de Jordan Peele, e da série Eles, disponível no Prime Video.

Quando ninguém está olhando tinha tudo para ser um ótimo suspense – e é, até não ser mais. Toda a trama construída ao longo de quase 400 páginas culmina em um desfecho apressado e cheio de pontas soltas. Até mesmo a atmosfera, que é assustadora por ser tão nas entrelinhas, se perde nas páginas finais, que de sutis não tem nada. Ainda assim, diria que é uma leitura que vale a pena, por ser extremamente envolvente e pelas críticas pertinentes e reflexões que traz.

Título original: When no one is watching
Editora: Intrínseca
Autora: Alyssa Cole
Tradução: Thais Britto
Publicação original: 2020

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