Resenha de Férias em Taipei – Abigail Hing Wen

Um livro leve e divertido sobre os dilemas típicos da adolescência? Sim. Mas também uma história sobre identidade e pertencimento e toda a combinação de passados, presentes e futuros que nos faz ser quem somos.

Tudo o que os pais de Ever Wong queriam quando emigraram da China para os Estados Unidos era ter oportunidades. Mas nem tudo ocorreu como o esperado e, por isso, se torna imprescindível que Ever estude medicina, a profissão que seu pai foi proibido de exercer nos EUA. O problema é que tudo o que ela quer é dançar.

Então, em seu último verão antes da faculdade, Ever é enviada pelos pais para um programa educacional em Taipei. O que eles não poderiam imaginar é que, na capital de Taiwan, ela irá conhecer a liberdade e, entre erros e acertos, descobrir quem realmente quer ser.

Eu já imaginava que Férias em Taipei me traria identificação por conta da ascendência de Ever – muito embora japoneses e chineses não sejam “tudo a mesma coisa”. Mas confesso que ainda fui surpreendida pelos aspectos pertinentes e necessários abordados por Abigail Hing Wen.

As expectativas e cobranças dos pais sobre o futuro de Ever são injustas, mas a autora soube mostrar o quanto eles só querem garantir um bom futuro para a filha – ainda que isso seja subjetivo. Ao mesmo tempo, retrata o quanto Ever se sente culpada e tentada a realizar os desejos deles para honrar seus sacrifícios. E isso é algo muito real para famílias imigrantes, especialmente nos EUA.

Com os adolescentes asiáticos do programa educacional, Férias em Taipei explora o mito da minoria modelo: em linhas gerais, os estereótipos considerados positivos (se é que isso realmente existe) – como o de que todo japonês é bom em matemática – mas que, no fim, só servem para nos limitar, apagando a nossa individualidade e gerando ainda mais cobranças.

O livro ainda fala sobre o estereótipo do homem asiático, a fetichização da mulher asiática e o preconceito contra asiáticos e descendentes – e posso dizer que as situações ali retratadas são extremamente reais, porque já vivi a maioria delas. Mostra o quanto é difícil admitirmos e falarmos sobre essas microagressões porque a sociedade as vê como “brincadeiras inofensivas” e porque somos criados para simplesmente superar. Porém, também não deixa de reconhecer os privilégios que temos.

Foi muito acolhedor para mim acompanhar Ever se conectando com suas origens – porque eu também passei, e ainda passo, por esse processo. E hoje, tenho orgulho das minhas características físicas, que já foram motivo de piadas, que já me fizeram sentir tão deslocada. Porque eu aprendi que pertencer ao todo é bom. Mas pertencer a si mesmo é o mais importante. E acredito que a jornada de Ever também seja sobre isso.

Título original: Loveboat, Taipei
Editora: GloboAlt
Autor: Abigail Hing Wen
Tradução: Ana Beatriz Omuro
Publicação original: 2020

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