Mini-conto de Halloween

Ela nunca tinha dúvidas.
Porque, para ela, tudo era um “não”.
Não pense. Não seja. Não fale. Não sinta. Não ouse.
Não. Não. Não. Não. Não.

Quando ela se foi, eu senti tristeza, eu senti saudade. Mas eu também senti alívio. E então, eu senti culpa. No entanto, sem ela para dizer “não”, eu me senti livre. Eu me senti eu mesma. Sem ela, eu não tive dúvidas por um bom tempo. Porque, para mim, tudo se tornou “sim”.

Então, pela primeira vez, eu pensei. Eu fui. Eu falei. Eu senti. Eu ousei.
Sim. Sim. Sim. Sim. Sim.

Mas não se enganem como eu me enganei… O não… Ele é poderoso. O não é sorrateiro.

Então, em uma manhã que deveria ser como qualquer outra, eu acordei e, ao abrir os olhos, eu vi o que só poderia ser o fantasma dela. Sentado na cadeira giratória, de costas para mim. Esfreguei os olhos, uma, duas, três vezes. Porém, ela continuou ali. A postura ereta, parecendo desconfortável. Os cabelos na altura dos ombros, perfeitamente aparados. Pelo ângulo de seus cotovelos, as mãos repousavam sobre o colo.

Sim, ela estava de costas. Mas, de alguma forma, ela me encarava.

Os dias se repetiam, eu acordava e lá estava ela. Em todos eles, o meu corpo despertava com o medo irradiando do peito e correndo para todos os cantos. E, talvez fosse impressão minha, mas, a cada dia, ela parecia estar um centímetro, ou até menos, mais virada para a esquerda. Um centímetro, ou até menos, mais perto de olhar nos meus olhos.

Eu queria ignorá-la, mas não era capaz. Com sua presença, velhos hábitos me inundaram novamente. E cada “sim” voltou a ser “não”.

Certo dia, eu abri os olhos e, sem pensar, percorri os sete passos que nos separavam. Ergui o braço direito para tocar em seu ombro ossudo. Minha mão se lembraria do toque de sua pele? Meus olhos recordariam dos traços de seu rosto? Ou melhor, ela teria rosto?

Instantes antes de meus dedos pousarem sobre seu ombro, ela se virou. Devagar e, ao mesmo tempo, de uma só vez. Eu não prendi a respiração. Eu parei de respirar. Quando ela, enfim, me encarou, meus olhos não precisaram recordar dos traços de seu rosto. Eles sabiam todos os contornos. Eles sempre souberam.

Porque, todo esse tempo, o fantasma não era ela.

O fantasma era eu.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s