Resenha de Na hora da virada – Angie Thomas

“Você não me segura na hora da virada
Não me segura, não, não
Me jogou no chão, cara, maior cagada
Me denunciou, juntou galera, fiquei toda errada”

Bri é filha de Lawless, a lenda do hip-hop underground que teve a promissora carreira interrompida pela morte violenta e prematura. E aos 16 anos, tudo o que ela quer é se tornar uma grande rapper. Bri é talentosa e seu sucesso talvez seja apenas questão de tempo. Mas ela tem pressa porque, além de uma grande paixão, a música pode ajudá-la a tirar a família de uma situação difícil.

Na escola em que Bri estuda, os alunos negros são alvos constantes de violência por parte dos seguranças. E quando é a vítima da vez, a garota usa o episódio como inspiração para escrever um rap. A faixa viraliza, gerando polêmicas para as quais ela não estava preparada. Mas pode ser que esta seja a grande chance pela qual Bri tanto esperou.

Tenho uma relação bem especial com O ódio que você semeia, primeiro livro de Angie Thomas. A história de Starr me ensinou muito sobre uma realidade completamente diferente da minha. E mais do que isso, me mostrou o quanto eu precisava (e ainda preciso) aprender sobre o racismo – não apenas o da segregação racial escancarada, mas principalmente aquele que é ainda tão presente nos dias de hoje.

Em Na hora da virada, Angie Thomas retrata, mais uma vez, a violência policial e mostra como a sociedade, como um todo, sempre se esforça para encontrar razões para manter o status quoPara justificar absurdos e permitir que a vida e a segurança de pessoas brancas continuem importando mais  do que a vida e a segurança de pessoas negras.

Na hora da virada é também um livro necessário em relação à representatividade. E eu gostei muito de como a autora explorou o tema dentro da própria história. A questão não é abordada de maneira óbvia e objetiva, mas Angie Thomas ilustrou bem a importância de se ver representado ao mostrar, por exemplo, o impacto que o filme Pantera Negra teve sobre os personagens.

As relações de Bri com a família e os amigos me cativaram muito, mas a mais especial é a da protagonista com a mãe. A dinâmica entra elas me remeteu à retratada por Maya Angelou no maravilhoso Mamãe & Eu & Mamãe. A reconstrução e a ressignificação da relação de mãe e filha acontece de maneira natural, culminando em uma redenção que as liberta, ao mesmo tempo em que as une.

E como a vida de ninguém se resume a apenas um aspecto, a história de Bri também é feita de sonhos que coexistem com uma realidade muitas vezes dura, mas que nunca perdem a força. E a protagonista é daquelas personagens que guardamos com um carinho especial: uma garota que ainda não descobriu exatamente quem é, mas que já sabe a importância de ser autêntica e fiel à si mesma. E que, acima de tudo, entende o valor de retomar o poder sobre a própria vida e encontrar a sua hora da virada.

Título original: On the come up
Autor: 
Angie Thomas
Tradutor: Regiane Winarski
Editora: Galera Record
Ano: 2019

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