Resenha de Boy Erased: uma verdade anulada – Garrard Conley

Imagine como seria simplesmente apagar uma parte essencial de quem você é.

Foi o que Garrard Conley tentou fazer, ao participar de um programa de conversão que prometia a “cura” da homossexualidade. E é essa história que ele nos conta em Boy Erased: uma verdade anulada.

Nascido em uma cidade conservadora do sul dos Estados Unidos e filho de um pastor da igreja Batista, Garrard sempre soube que sua orientação sexual nunca seria aceita. E foi por medo de ser expulso do convívio da família e da comunidade que ele aceitou participar do programa de conversão, no início dos anos 2000. O então garoto de 19 anos estava disposto a “se purificar” para ser o que todos esperavam que ele fosse. No entanto, ele logo percebeu que a homossexualidade não o definia, mas era parte irrevogável de seu ser.

Boy Erased intercala acontecimentos determinantes do passado de Garrard e episódios que ele vivenciou durante os dias que passou na terapia de conversão. De certa forma, o background do autor nos faz entender por que ele aceitou participar do tratamento: afinal, como ele poderia se aceitar se foi criado em um ambiente religioso que sempre repudiou a homossexualidade? Já os trechos sobre a terapia foram o suficiente me enojar, mas admito que, já que eu “estava lá”, gostaria de ter visto mais detalhes sobre o programa de conversão.

Confesso que não me envolvi com Boy Erased da forma que eu imaginava. Em termos de narrativa, não encontrei o turning point da história. Não ficou claro para mim quando Garrard deixou de ser a pessoa que, de certa forma, acreditava na cura para se tornar o homem que ansiava pela liberdade de ser quem era. Sei que não se trata de ficção, e que nem tudo é preto no branco. Mas o que realmente o inspirou? De onde ele tirou forças? Eu realmente gostaria de saber.

A verdade é que não sinto que posso falar sobre Boy Erased com propriedade. Porque, por mais solidária que eu seja à causa LGBT, eu nunca vou saber o que é carregar o peso e o medo que Garrard e tantos outros carregam por simplesmente serem quem são. Me pergunto como podem existir pessoas que acreditam que a homossexualidade possa ser curada. Como podem existir pais que submetem seus filhos a esse tipo de “tratamento”. E confesso que também questiono como Garrard pôde aceitar essa imposição por parte de seus pais. No entanto, eu sei que, para mim, é muito fácil acreditar que eu me rebelaria caso minha família fizesse o mesmo comigo. Porque não passa de uma fantasia em que eu não tenho nada a perder.

Foi por isso que não me conectei a Garrard. E não o perdoei por ter se submetido à terapia de conversão. Mas com que direito? Quem sou eu, com minha heterossexualidade, para julgá-lo?

Título original: Boy Erased: A memoir
Editora: Intrínseca
Autor: Garrard Conley
Ano: 2016
Avaliação: 3 estrelas

2 pensamentos sobre “Resenha de Boy Erased: uma verdade anulada – Garrard Conley

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