Resenha de Canção de Ninar – Leïla Slimani

Depois de anos se dedicando aos dois filhos pequenos, Myriam decide que é hora de voltar a trabalhar. Apesar da relutância do marido, ela aceita a proposta de um escritório de advocacia, e é quando eles saem em busca de uma babá para as crianças. O casal é exigente, mas, quando conhecem Louise, eles sabem que encontraram a pessoa certa. Com experiência e ótimas referências, a babá não só atende, como supera as expectativas no dia a dia. Mas, aos poucos, a sintonia entre Louise e a família se transforma em uma relação de dependência, que acaba culminando em uma tragédia completamente inesperada.

Canção de Ninar começa pelo clímax, e é tudo tão absurdo que o desespero para saber como a trama se desenrola é inevitável! Mas, se o início é impactante, a obra como um todo tem a sutileza como palavra de ordem – e esse contraste é um dos pontos altos da obra de Leïla Slimani. Aos poucos, conhecemos mais sobre Myriam e Louise e a dinâmica entre elas. E é essa construção gradual que nos nos envolve e nos leva à criação de inúmeras teorias sobre a verdadeira causa da tragédia – se é que realmente existe. E como é narrada sob diferentes pontos de vista, a trama oferece uma visão 360º dos fatos – o que não garante respostas prontas, tampouco conclusões definitivas. Pelo contrário: só nos leva a refletir mais e a ansiar por mais respostas.

Leïla Slimani foi a primeira autora de origem marroquina a vencer o Goncourt, o maior prêmio literário francês. E a honestidade e a crueza de sua escrita me lembraram bastante Lionel Shriver, autora de Precisamos falar sobre o Kevin. Leïla tem um estilo mais fluido e simples (no melhor sentido da palavra) e, como consequência, relata fatos em vez de divagar sobre eles, deixando mais “trabalho” para o leitor. Admito que fiquei curiosa para saber como a autora franco-marroquina se sai em obras mais extensas – Canção de Ninar não chega a 200 páginas.

Mais do que um retrato contemporâneo sobre o que é ser mãe e todos os questionamentos que envolvem a maternidade, a história de Myriam e Louise explora a relação entre patrões e empregados no geral. E, fugindo do padrão, joga uma nova luz não sobre a dependência das crianças em relação à babá, mas sim da família como um todo. Apesar de não ter nada contra finais em aberto ou inconclusivos, confesso que o desfecho de Canção de Ninar foi menos do que eu esperava. Como o livro tem um início tão “direto ao ponto”, talvez eu tenha esperado por um final no mesmo estilo. Mas, talvez, a metáfora seja justamente essa: passando a vida inteira procurando por respostas e explicações. E muitas vezes, talvez elas simplesmente não existam…

Título original: Chanson douce
Editora: Tusquets Editores
Autor: Leïla Slimani
Ano: 2016
Avaliação: 4 estrelas

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