#LivroNamanita – Parte final

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Capítulo 47

Sarah

Um ano depois…

Eu não vejo muito sentido em comemorar aniversários de namoro e o Nicolas diz que também não. Mesmo assim, ele falou que não queria que nosso primeiro ano juntos passasse em branco e prometeu que não me levaria a um restaurante chique para um jantar à luz de velas, nem espalharia pétalas de rosas vermelhas pelo apartamento. Então, aceitei o convite para “uma noite como outra qualquer, mas no bom sentido”, como ele definiu, que inclui algumas das coisas que mais gostamos de fazer juntos: cozinhar, comer, beber vinho e conversar. O dia no escritório foi corrido porque estamos prestes a inaugurar a primeira loja da minha marca de vestidos! Mesmo assim, consigo me preparar a tempo e, às 20h em ponto, ouço o interfone tocar e nem me dou ao trabalho de atender, apenas desço para encontrá-lo. Estou usando um vestido cinza com a saia rodada (uma das minhas primeiras criações para a marca), meia-calça, sapatos e jaqueta de couro pretos. Quando saio do elevador, o Nicolas me vê e, sem perceber, deixa a boca abrir alguns centímetros. Se alguém me contasse, eu diria que ele está fingindo, mas eu sei que, por alguma razão misteriosa, ele realmente não se cansa de me admirar. Apenas sorrio, cheia de gratidão, e o abraço com força.

– Quem diria, hein? – ele diz, enquanto saboreamos o camarão na moranga que fizemos.

– Quem diria o que? – me faço de desentendida.

– Que estaríamos juntos, depois e apesar de tudo.

– Eu diria. Eu gostei de você desde o momento em que você entrou naquele bar.

– Mentira. Eu que gostei de você desde o momento em que te vi naquele bar – damos risada e eu tento protestar, mas o olhar repentinamente sério do Nicolas me faz parar – Sarah, quando você vem?

Os três meses que passamos separados, enquanto o Nicolas ainda estava em Buenos Aires e vinha para São Paulo apenas para me visitar, foram difíceis. Na maioria dos dias, eu sentia tanto medo de me entregar a alguém que eu talvez viesse a perder, que tinha vontade de jogar tudo para o alto antes de qualquer coisa. Por um lado, seria muito mais fácil sofrer agora do que depois. Mas, em seguida, eu começava a pensar em tudo o que passamos e construímos em tão pouco tempo e a ideia de desistir parecia uma tremenda estupidez – e, que, dessa vez, eu não poderia consertar, como o Nicolas havia deixado bem claro depois de mais um mini-surto da minha parte. Eu liguei para a Silvia, retomei a terapia e nem preciso dizer que ela adorou saber que eu realmente havia escrito as cartas para minha mãe. “Funcionaram, não é?”, ela me perguntou e eu fui obrigada a admitir que sim. E, assim, aos pouquinhos, eu entendi que precisava descobrir quem a nova Sarah realmente é, de volta ao meu mundo e à minha vida. E os três meses que eu iria passar “sozinha” eram uma ótima oportunidade.

Quando o Nicolas voltou da Argentina, eu já havia descoberto que a nova Sarah é uma garota independente, mas que precisa desesperadamente entender que não é possível ter controle sobre tudo. E esse é e talvez sempre seja o maior desafio. Há mais ou menos seis meses, o Nicolas me pergunta, de tempos em tempos, quando é que eu vou me mudar para o apartamento dele. “Não faz sentido eu e você morarmos sozinhos e passarmos os finais de semana juntos na sua ou na minha casa”, ele diz, mas não para me pressionar. E eu sei que ele tem razão, só que o medo sempre fala mais alto, por isso, costumo usar a desculpa de que a minha marca ainda está no começo e que eu não posso me arriscar tanto. No entanto, a verdade é que meus vestidos têm feito certo sucesso e os lucros, mesmo não sendo enormes, já começaram a aparecer. Por isso, nesta noite, encorajada pelo vinho e pela sinceridade que sempre vejo nos olhos do Nicolas, decido confiar no meu futuro.

– Quando você quiser – respondo, após alguns segundos, e o Nicolas abre o sorriso mais radiante que eu já havia visto.

– Você tá falando sério?

– Eu nunca falei mais sério em toda a minha vida.

Mãe,

Será que eu poderia querer tanto contar uma coisa para você (e não em uma carta), que te encontrasse em um sonho? Eu acho que sim, porque aconteceu.

No meu sonho, nós estávamos em casa, sentadas no sofá, como naquelas tardes preguiçosas de julho. Você estava na sua versão mais bonita, de quando eu tinha uns 10 anos mais ou menos, mas eu era como sou hoje. Estávamos vendo televisão, quando, de repente, você virou e disse que gostava muito do Nicolas. Achei estranho e pensei “ué, ela nem o conhece”. Mas, em seguida, lembrei que você o conhece, sim, pelas minhas cartas. E aí eu te contei que finalmente, depois de um ano de namoro e mil convites, aceitei morar com ele. Infelizmente, eu acordei assim que você me abraçou, mas você parecia feliz de verdade. Assim como eu.

Por causa da minha mudança, os últimos dias têm sido regados a muita nostalgia. Em uma das minhas caixas de recordações, encontrei o perfume que você mais gostava. Sim, eu ainda guardo aquele frasco e, provavelmente, vou guardar para sempre. Respirei fundo antes de tirar a tampa porque eu sabia que, com o perfume, viriam lágrimas e ainda mais saudade. Senti um nó na garganta, mas, desta vez, me permiti reviver as lembranças, porque elas são o único jeito que me restou de estar com você.

Eu acho que sentir saudade é tão bom quanto ruim. É ruim porque, às vezes, dói tanto que parece que rasga por dentro. E é bom porque significa que viver, com todos os altos e baixos, valeu a pena. Mas sabe o que torna a saudade de pessoas que já se foram tão cruel? É saber que a gente é capaz de se acostumar à ela, mas nunca superá-la de verdade. É saber que ela até pode diminuir, ou fazer a gente pensar que diminuiu, mas nunca, nunca, nunca terá fim.

E é por isso que, às vezes, eu me desespero e ainda sinto raiva. Como você pôde ir embora e me deixar sozinha, com esse peso enorme no peito? Com esse medo absurdo de, aos poucos, esquecer do seu rosto, da sua voz e de como a minha vida era com você? Com todos os momentos incríveis que eu ainda vou viver, sabendo que eles nunca serão perfeitos porque nunca terão você?

Eu tento não pensar mais se você desistiu ou não. Porque eu provavelmente nunca vou saber. E se você desistiu… eu não posso dizer que entendo, aceito ou perdoo. Mas eu respeito, mãe. Eu respeito. Só que, agora, eu preciso viver.  

Com amor,

Sarah

Capítulo 48

Sarah

Eu sempre gostei de assistir ao pôr do sol, e não só porque é bonito, poético ou romântico. Sempre me intrigou o fato de que ele se vai da mesma forma todos os dias e, mesmo assim, o céu ainda encontra diferentes nuances para se despedir. É mais ou menos como quando a gente ama alguém: por mais que o tempo passe e a gente pense que já sabe tudo sobre o outro, descobrimos todos os dias uma nova razão para continuar amando. É nisso que estou pensando quando vejo o Nicolas sair do Starbucks com dois copos de café. Enquanto ele vem em minha direção, lutando para que o cachecol não voe com o vento forte do inverno portenho, o observo e tento apenas me sentir feliz, em vez de deixar que a pontinha de medo, que eu ainda tenho sempre que me sinto plena, tome conta de mim.

– Oi.

– Oi.

– Já sei por que você gosta tanto do pôr do sol em Puerto Madero – ele diz, enquanto me entrega o café e um envelope pequeno.

– Por quê? – respondo, já abrindo o que parece ser uma carta.

– Não – ele ignora minha pergunta e toca a minha mão gentilmente para impedir que eu continue – quero que você leia quando estiver sozinha. Tenho vergonha.

– Bobo – dou risada, mas compreendo e atendo seu pedido.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas observando o sol desaparecer, cada vez mais rápido. Quando o céu já está quase totalmente escuro, o Nicolas fica de frente para mim e, com a mão livre, envolve a minha, com a quentura e o carinho que já me são tão familiares.

– Sarah, você ainda não acredita em casamento?

– Não, Nic, eu acredito em amor.

– Mas o casamento é a celebração do amor – ele diz, em tom de deboche.

– Pode ser para alguns. Mas eu não quero ficar com você na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza só porque eu prometi diante de Deus. Eu quero ficar com você porque eu quero de verdade, sabe?

– Eu sei. E ainda bem que eu encontrei você.

– É verdade. Você é minha sorte e o meu azar.

– Como assim?

– Eu tive a maior sorte por encontrar você. E vou ter o maior azar se eu te perder.

– Eu já entendi – ele diz e revira os olhos, de brincadeira – se vamos passar o resto da vida juntos, então vou ter que me acostumar com essa mania que você tem de esperar sempre pelo pior.

– E quem disse que vamos passar o resto da vida juntos? – brinco.

– Ah, é, esqueci que você não acredita em amor eterno – ele finge que está ofendido.

– Não é que eu não acredito que um amor, ou o nosso amor, possa durar para sempre. Eu acredito, Nic. O problema é que a gente só vai saber se ele durou quando a vida acabar.

Ele concorda e sorri. E eu também sorrio porque, desta vez, eu estou pronta para descobrir.

Epílogo

Sarah,

Muitas vezes, tantas que até me irrita,  você me pergunta por que sempre acabo perdoando os seus “chiliques” – até faz as aspas com os dedos no ar. E eu confesso que já me questionei sobre isso também, embora a resposta nunca mude o fato de que provavelmente sempre irei te perdoar. Porque 1. também não sou perfeito e, diferentemente do que você pensa, não sou um ser superior só porque dou menos “chiliques”; e 2. porque eu vejo – e, em segredo, até invejo – a coragem que você reúne, todos os dias, para enfrentar os seus demônios. Então, na verdade, não é meu perdão que eu concedo a você. É o meu respeito.

Quando me contou “de onde vinha e o que carregava”, como você gosta de dizer, eu não me assustei e também não tive medo. Porque desde a primeira vez que a vi, aquele dia no bar, e achei ter enxergado uma complexidade em seus olhos, tive vontade não apenas de desvendá-la, mas de consertá-la. Eu sei, pode parecer um pensamento pretensioso, como se eu acreditasse que tenho o poder de remendar alguém. Mas é praticamente o oposto: “se aquela garota”, eu pensei e ainda penso, “acreditasse que eu poderia ‘consertá-la’, então, talvez, eu pudesse fazê-la entender de que ela não precisa de remendos”. Sarah, você é incrível do jeito que é: imperfeita e real.

Eu sei que você pensa, muito mais vezes do que me conta, que é fraca e covarde por ter tanto medo de ser feliz. Ou de não saber mais como viver sem ser feliz. Mas você não sabe, ou não entende, que me mostra todos os dias que a coragem não está apenas em ser forte, mas em se permitir ser fraco de vez em quando. E é o que você faz quando é corajosa o suficiente para me mostrar suas imperfeições e me lembrar de que o que é real desmorona, mas não se destrói. Eu detesto quando isso acontece, preferia que arrancassem meus olhos fora para que eu não pudesse vê-la sofrer. Mas o que eu adoro é que você nunca se permite ficar debaixo dos seus próprios “escombros” por muito tempo. Você se reconstrói, se redescobre, se reinventa e volta em uma versão ainda melhor e mais forte de si mesma.

“Agora eu conheço os meus demônios. E eu sei que eles sempre vão vir atrás de mim. Mas, pelo que sou quando estou com você, vale a pena lutar. Para sempre”, é o que você diz e é o mais perto que chega de admitir que um amor, o nosso amor, pode ser eterno. E é por isso que eu sinto que, ao mesmo tempo em que me tira do sério, você também me coloca de volta no lugar. Que, eu sei, é ao seu lado.

Com todo o meu amor,

Nicolas

FIM

Obrigada a todos que leram, significa muito para mim!

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2 pensamentos sobre “#LivroNamanita – Parte final

  1. Eu chorei… eu sorri… eu me vi…
    Você me contou uma história linda, com suas diversas formas de amar e até odiar…
    Obrigada pelas palavras e por elas terem feito uma diferença especial nesses dois últimos dias…rs
    Parabéns!
    Vc é ótima!

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