#LivroNamanita – Parte 11

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Capítulo 39

Sarah

Intenso. Essa é a palavra que melhor define o almoço com o meu pai. Eu achei que iríamos conversar sobre a minha mãe, sim, mas não com tanta sinceridade sobre tudo o que aconteceu. E foi muito bom. Foi ótimo, na verdade. Talvez eu e meu pai nunca nos tornemos aquele tipo inseparável e talvez a gente nunca mais tenha uma conversa como esta. Mas, depois de hoje, nossa relação com certeza vai melhorar porque, enfim, sabemos que temos um ao outro – deveria ser óbvio, eu sei, mas não era. No entanto, depois que nos despedimos, eu sinto que preciso ficar um pouco sozinha para colocar as ideias no lugar. Ligo para o Nicolas para contar como foi e o agradeço mais uma vez por ter tido esta ideia. Sinto que ele fica um pouco chateado quando digo que prefiro passar a noite sozinha, mas entende. Quando chego no meu quarto, só existe uma coisa que eu quero e preciso fazer.

Mãe,

O papai está em Buenos Aires e hoje ele almoçou comigo. Conversamos muito sobre você e foi ótimo. Então, eu comecei a pensar na nossa vida juntas. Você foi uma ótima mãe, sabia? Desde pequena, eu me lembro de ter muito orgulho por ser exatamente como você: loirinha dos olhos verdes. Não que eu não goste da aparência do papai, eu gosto, você escolheu muito bem. Mas o papai era como quase todos os meus coleguinhas da escola e eu era diferente, por sua causa. E eu adorava ser diferente! E, eu vou confessar, até hoje eu adoro. Quer dizer, muitas mulheres ficam quase carecas na tentativa de ser loira. E tem gente que até usa lente de contato pra ter olhos claros. Mas você me deu tudo isso. E muito mais.

Bom, mas voltando ao que interessa, desde pequena, eu também me lembro de sentir muito, muito medo quando o papai dizia que estávamos passando por “momentos delicados”. Primeiro porque eu não sabia o que aquilo realmente significava, mas eu sabia que, fosse o que fosse, deixava você muito triste. E principalmente porque eu entrava em pânico só de imaginar que a culpa poderia ser minha. Então eu ficava com a vovó ou a tia Ana e elas me diziam que, quando eu crescesse, eu iria entender. Só que eu crescia e nunca entendia porque ninguém nunca me explicava. E aquilo tudo nunca passava e, às vezes, parecia que só piorava. Claro que, conforme o tempo passou, eu fui desvendando o mistério dos “momentos delicados” por mim mesma. E, com mais ou menos 15 anos, eu achei mesmo que você tinha depressão. Alguns meses depois, você mesma me contou, mas disse que eu não precisava me preocupar, que tudo iria ficar bem porque era apenas uma fase difícil.

Mas daí o “difícil” foi tomando conta da nossa vida e as partes boas é que se tornaram “fases”. Enquanto eu crescia e meu corpo se desenvolvia, você parecia ir para o lado oposto, parecia minguar. Cada vez mais magra, mais abatida, mais cansada. E você insistia que estava tudo bem e que eu não deveria me preocupar. Eu tentava viver uma vida normal, como todos os meus amigos, só que ficou simplesmente impossível quando, depois da nossa viagem a Montevidéu, você passou a praticamente não sair mais do quarto. Sério, mãe, o papai me disse que você foi bonita até o fim. Mas você não foi. Nos últimos anos, você não era mais nem a sombra da mulher que um dia foi.

E, então, depois daquela última briga horrível que você e o papai tiveram, quando eu já era grande o suficiente para saber exatamente o que estava acontecendo, você aceitou se internar para se cuidar. Nessa época, você mal comia e estava tão magra que o pessoal da vizinhança começou a perguntar se você estava com câncer. A gente sabe que não era câncer, mas era uma doença que consumia você de dentro pra fora, praticamente da mesma forma. Só que você disse que iria se cuidar e eu, inocente, acreditei. Você até foi bem nos primeiros dias, apesar de parecer não se importar com muita coisa. Mas, de repente, os seus rins começaram a falhar e você foi parar na UTI. Depois, foram os seus pulmões e você passou a usar aquela máscara que cobria quase todo o seu rosto.  

Um dia antes de você ser sedada, eu fui te visitar na UTI. Nós conversamos pelos 15 minutos de duração da visita. Na hora da despedida, você me deu um beijo na testa, disse que me amava e sorriu um sorriso que parecia ser sincero. Aquele sorriso me encheu de esperança e eu nos imaginei felizes depois que tudo passasse, na minha formatura, no meu casamento, com meus filhos… Naquele momento, apesar dos seus rins e dos seus pulmões, se alguém me dissesse que seria a última vez que eu veria você, talvez eu desse risada. Talvez eu chorasse. Talvez eu brigasse. Mas eu nunca acreditaria. Bem, mas esse alguém estaria certo porque aquele foi o seu sorriso de despedida e essa foi a última vez que a vi. Naquele dia, eu voltei para casa e o papai te visitou à noite. Você já estava sedada. No dia seguinte, eu não quis visitá-la de manhã e, à noite, um pouco antes do papai ir para o hospital, o telefone tocou.

É claro que nós já sabíamos o que havia acontecido: eu havia feito planos para uma pessoa que acabara de partir. Eu havia imaginado momentos que nunca existiriam. Não com você. As últimas palavras que eu ouvi do médico foram: falência múltipla dos órgãos. E, então, tudo pareceu estar fora dos eixos. Foi como perder os sentidos e doía tanto que eu já nem sentia mais. Desde os meus 10 anos, mais ou menos, eu acho que sempre pensei que isso poderia acontecer. Eu acho que até esperei e me preparei. E, muitas vezes, eu sentia você tão vazia que era como se você já tivesse morrido, de certa forma. Então, eu pensei que estava pronta. No entanto, o que eu descobri quando você realmente se foi é que eu até poderia ter me preparado para a sua morte. Mas não tinha como eu me preparar para o que vinha depois: a vida sem você.

E se você quer saber, mãe, a vida sem você é uma droga.

Sarah

Quando termino de escrever a carta, minha mão direita dói e meus olhos ardem de tanto chorar. E é quando a minha ficha finalmente cai: se minha mãe foi capaz de desistir de mim, por que outras pessoas não fariam o mesmo?

Capítulo 40

Sarah

Assim que o despertador toca, eu acordo e sinto os efeitos da ressaca. Mas essa ressaca não é de bebida. É de angústia, tristeza, decepção e frustração. Meu corpo inteiro dói e minha cabeça parece prestes a explodir. Preciso do meu celular para saber em que dia estou e o que preciso fazer, e é quando me dou conta de que me resta menos de duas semanas em Buenos Aires. Encontrar o meu pai serviu não apenas para cavar o meu passado, mas também para me lembrar do futuro. Preciso voltar ao Brasil, não só porque não quero ser deportada, mas porque é lá que está a minha vida real. Nada contra ser garçonete, é até divertido, mas preciso retomar o controle sobre o futuro que eu imaginei pra mim. E o meu maior medo é que, na minha vida real e no meu futuro ideal, não exista espaço para o Nicolas. E vice-versa.

– Você tá tão estranha hoje…

– Ah, deve ser por causa da conversa com o meu pai – minto.

– E como foi?

– Eu já te contei, Nic…

– Não, você só disse “foi tudo bem, obrigada pela ideia”. E isso não é contar como foi.

– E por que eu deveria contar? – eu não aguento e explodo – quer dizer, pensa comigo, Nicolas. O que a gente tá fazendo?

– Como assim, Sarah?

– Eu, você, nós, isso tudo – eu digo, sem fazer muito sentido – não tem futuro nenhum.

– Claro que tem.

– Nicolas, a gente se conhece há dois meses. Estamos juntos há semanas. E eu vou embora em 12 dias. Que futuro isso pode ter? O que a gente tá fazendo?

– A pergunta não é “o que”, Sarah. É “por que”. E você quer saber o o meu “por que”? – o Nicolas pergunta e parece bravo. Faço que sim com a cabeça – porque eu amo você. É isso, eu amo você. É suficiente?

Estou completamente paralisada porque eu esperava ouvir qualquer coisa, menos isso. E eu sei que eu deveria estar radiante e que minhas lágrimas deveriam ser de felicidade, e não de tristeza. Mas eu não consigo deixar de pensar que o que o Nicolas acabou de dizer apenas torna as coisas mais difíceis.

– Eu também amo você – eu digo, após uma longa pausa, surpresa por estar dizendo a verdade – mas eu não posso continuar com isso, Nic. Eu não posso.

– Por que não?

– Porque eu não posso mais ser pega de surpresa pela vida – respondo, e já estou perto de começar a soluçar de tanto chorar.

– O que você quer dizer? – ele pergunta e tem um desespero no olhar.

– Depois que a minha mãe morreu e que as coisas não deram certo com o Douglas, eu acho que me tornei uma neurótica que não quer ser pega de surpresa pela vida. Eu gostaria de poder saber de tudo antes, eu gostaria de poder controlar tudo. Mas eu sei que é impossível. Então, eu acho que prefiro…

– Abrir mão? – ele me interrompe – você prefere abrir mão? Você não percebe que abrir mão, seja disso que a gente tem, que eu nem sei bem o que é, mas sei que é bom pra caralho, ou de qualquer outra coisa, não vai isentar você de ser pega de surpresa pela vida?

–  Claro que vai. Se eu abrir mão de nós, eu não vou ser pega de surpresa por você, quando a bagunça que eu sou for demais pra você aguentar.

– Sarah… – o Nicolas diz, com a voz mais suave, enquanto envolve as minhas mãos com as dele – você já parou pra pensar que a vida também pode pegar você de surpresa de uma maneira boa?

– Isso nunca aconteceu comigo. Por que aconteceria agora?

– É um risco. E é um risco que eu também corro.

– É diferente. Você é normal. As pessoas não vão se cansar de você, desistir de você.

– Eu não vou desistir de você.

– Você não sabe.

– Quem desistiu de você?

– Todo mundo desistiu de mim, Nicolas. É só uma questão de tempo.

– O que eu sinto por você…

– … vai passar – eu o interrompo, minha voz muito mais alta do que eu gostaria – é assim que funciona e eu não quero estar aqui pra ver – finalizo, enquanto pego a minha bolsa e ando em direção à porta.

– Sarah, para com isso e me escuta – o Nicolas vem atrás de mim e me segura com força pelos pulsos – eu não sei como é estar no seu lugar ou ser quem você é. Mas eu sei que não é fácil carregar tudo o que você carrega. E é exatamente por isso que eu quero dividir esse peso com você.

– Não, você não quer. Se você me conhecesse de verdade, saberia que não tem como querer.

Antes de virar as costas e entrar no elevador, eu vejo o Nicolas abrir a boca para dizer mais alguma coisa. E eu queria, mais do que tudo, saber o que mais ele tinha para me falar. Mas escutar as palavras que viriam a seguir significava me entregar um pouco mais e acreditar um pouco mais que as coisas entre nós poderiam dar certo. Porque ele, mais até do que eu, estava disposto a atravessar o inferno, o meu inferno. E porque isso era tudo o que eu precisava. Mas também era ilusão, era quase suicídio.

Mãe,

Será que você desistiu de viver por ter medo do que ainda iria acontecer? Às vezes, colocar um fim em tudo é, ou pelo menos parece ser, mais simples do que apenas esperar que as coisas aconteçam. É mais ou menos como estar no controle da sua própria vida em vez de ficar nas mãos de Deus, do destino ou seja lá o que for que comanda a nossa existência. Mas demanda muita coragem porque, no fim, a gente também não sabe o que existe do outro lado, se é que existe o outro lado. Quer dizer, enquanto eu escrevo esta carta, você pode estar aqui do meu lado, no inferno ou no paraíso ou pode ter deixado de existir em todos os planos.

Bom, mas foi mais ou  menos por isso que eu fiz o que eu fiz hoje. Porque eu vivo com medo não do que o futuro irá me trazer, mas do que ele irá me tirar. Estou sempre desesperada apenas por pensar em perder, não alguma coisa, mas alguém. Então, talvez seja melhor ter cada vez menos para sofrer cada vez menos. O problema é que eu não sei até que ponto eu realmente acredito no sucesso desta equação.  

Estou muito frustrada e com muita raiva de mim mesma. Porque sou fraca e covarde. Não tenho coragem de acabar com tudo, mas também não tenho coragem de começar nada. Hoje, eu precisei de toda a minha covardia para virar as costas para o homem que disse que me ama e que eu acho que amo também. Porque eu sei que, se tudo desse errado, a culpa seria minha e talvez (ou provavelmente) eu não fosse capaz de suportar ser deixada para trás. Não de novo. Não por alguém que diz que me ama.

E você sabe de quem é a culpa, não sabe?

Se escrever fosse tão rápido quanto falar, eu já teria dito o quanto, neste momento, eu te odeio. Não pelo que você fez, mas pelo que deixou de fazer. Se você, que era minha mãe, não foi capaz de me amar incondicionalmente e de estar ao meu lado por quanto tempo o seu corpo permitisse, por que um cara que eu conheci há dois meses seria? Não, ele não seria. Ele não é.

Sarah

Capítulo 41

Sarah

Faz uma semana que eu não falo com o Nicolas. Ele me ligou muitas vezes, e eu recusei todas as ligações. Ele me enviou muitas mensagens e deixou muitos recados, e eu os apaguei sem ler ou ouvir nenhum. Ele apareceu no hotel algumas vezes, e eu não o deixei subir. Sei que ele deixou duas cartas para mim, mas pedi que o concierge do hotel as jogasse fora, antes mesmo de tê-las em minhas mãos. Porque eu sei que ele diria as palavras certas, que me fariam acreditar em tudo o que eu quero acreditar, mas não posso. Só que agora já são dois dias sem notícias dele e eu me sinto mais desamparada do que nunca. Talvez, isso seja um sinal de que eu fiz a coisa certa: acabei com tudo antes que ele, ou a vida, pudesse me pegar de surpresa. E, então, tudo o que eu estou sentindo agora seria mil vezes pior. No entanto, pensar racionalmente não me impediu de vir até o  banheiro dos funcionários do café, sentar sobre a tampa da privada e me afundar em lágrimas. Quando faz uns 15 minutos que estou no banheiro, ouço um barulho na fechadura e sou pega de surpresa não pela vida, mas pela dona Juliana e sua chave reserva.

– Sarah, você sabe que já faz 15 minutos que você está no banheiro?

– Sei.

– O que está acontecendo? – para a minha surpresa, ela não está brava e parece preocupada. Deve ser porque meu nariz e meus olhos estão mais vermelhos do que um morango.

– Nada – respondo, de forma mecânica, lembrando do que ela disse sobre vida pessoal logo que comecei a trabalhar no café.

– É por causa daquele garoto?

– Talvez.

– Vamos, garota, desembuche.

E é exatamente o que eu faço. Sentada na tampa da privada de um banheiro sujo e velho, eu conto não só a minha história com o Nicolas, mas toda a minha vida, para uma senhora argentina de cabelos brancos, que, por acaso, é minha chefe. Não sei o que exatamente me faz “desembuchar”, mas é reconfortante tirar esse peso das minhas costas.

– Menina, se você soubesse quantas garotas dariam tudo para estar no seu lugar…

– Eu sei, dona Juliana, mas a maioria delas não passou por tudo o que eu passei.

– Pode ser – ela diz, com uma careta, como quem está ponderando o que eu acabei de dizer – mas todas as pessoas, felizes ou não, boas ou não, sem exceção, precisam fazer escolhas na vida.

– Sim, e eu fiz a minha. Eu vou embora de Buenos Aires daqui cinco dias e vou esquecer que isso tudo aconteceu.

– Minha querida, eu e você sabemos que esquecer não é uma das escolhas que a gente pode fazer nessa vida – dona Juliana limpa a garganta antes de continuar – mas sentir dó de si mesma é.

– O que a senhora quer dizer?

– Sarah, eu entendi que a vida não foi sempre gentil com você. Mas se você não quiser correr riscos, então é melhor ir embora.

– É o que eu estou dizendo que vou fazer, quer dizer, é exatamente o que eu vou fazer daqui a… – começo a dizer, já com raiva, mas dona Juliana me interrompe.

– Não, querida, estou dizendo ir embora mesmo, como sua mãe foi. Porque correr riscos é sinônimo de viver. E se você não está disposta a correr nenhum risco é porque o que tem aí dentro já morreu e só você não sabe.

Dona Juliana se levanta e me deixa sentada onde me encontrou. “Fique aí o tempo que precisar, só não esqueça que é um banheiro e alguém pode querer usar”, ela diz antes de sair, sem nem olhar pra trás. Quando me pego desejando que ela tivesse me dado um abraço ou pelo menos um tapinha solidário nas costas, entendo que ela está certa: eu escolhi ter dó de mim mesma. Eu preferi pensar que sou a vítima de todas as coisas ruins que aconteceram comigo e deixei que elas definissem quem eu sou e quem eu me tornei. Não que eu seja culpada, no entanto, eu não havia entendido que as “coisas ruins que aconteceram comigo” fazem parte da minha vida, mas não são a minha vida. Agora, preciso decidir se estou disposta a tomar o controle de tudo, sabendo que esse controle não significa ter certeza do que vai acontecer comigo daqui pra frente, mas, sim, assumir os riscos das batalhas que eu resolver enfrentar.

Depois de mais 15 minutos, a dona Juliana repareceu no banheiro e, com uma expressão compreensiva, disse que o dia estava tranquilo e que eu poderia encerrar meu expediente mais cedo. Normalmente, eu nem teria passado os primeiros 15 minutos no banheiro ou, pelo menos, recusaria a oferta de ir embora antes da hora. Mas, normalmente, eu também não tinha tantas verdades para encarar, então me permiti aceitar a generosidade da minha chefe e fui para o hotel. Durante o caminho, comecei a pensar se queria assumir a batalha contra a solidão, o que significaria voltar para o Brasil sem olhar para o que deixei para trás, ou contra a incerteza, que seria (tentar) retomar o meu relacionamento com o Nicolas. Por alguns segundos, desejei encontrá-lo inesperadamente, assim, talvez eu encontrasse também a resposta, como naquela noite em que eu estava com o Douglas. Mas é claro que eu poderia ter andado mais 507 km e, ainda assim, não o encontraria.

Quando entro no meu quarto, sinto a mesma sensação de vazio que tive quando resolvi vir para Buenos Aires. Ainda faltam cinco dias para eu ir embora, mas decido começar a arrumar minhas coisas, na tentativa de parar de pensar obsessivamente sobre tudo. Assim como quando cheguei, as lembranças me assombram, mas, desta vez, é diferente. Começo a dobrar o vestido vermelho rodado, que antes era o favorito de Douglas, mas agora é a peça que eu usava quando conheci o Nicolas. E muitas outras coisas que eu encontro em meio à bagunça me fazem lembrar dele e dos momentos felizes que vivemos juntos. De novo, desejo que meu cérebro se transforme em um pen drive, para que apagar e substituir memórias seja possível. Mas é claro que ele não se transforma e eu continuo precisando aprender a lidar com tudo isso.

Quando abro a minha mala para começar a acomodar roupas que não usarei nos próximos cinco dias, um objeto quadrado chama a minha atenção. Logo percebo que é minha caixa de cartas e bilhetes antigos, também conhecida como “terapia de emergência”. Recordo a madrugada desesperadora em que decidi vir para Buenos Aires, quando encontrei o papel com o número da minha conta-poupança enquanto revirava a caixa, e percebo que não lembrava de tê-la colocado na minha bagagem. Mas é claro que ela será muito útil, afinal, estou triste e frustrada, só para variar um pouquinho. Começo a remexer os papéis que estão dentro dela e encontro muitas cartas de Rebeca, assim como bilhetes de outras amigas, que já nem sei por onde andam, e cartões de aniversários dados pelos meus pais, avós e tias. E, então, no fundo da caixa, debaixo da montanha de recordações, um papel cor-de-rosa muito bem dobrado me chama a atenção. Tenho certeza de que não o abro há muitos anos e não faço ideia do que vou encontrar.

Sarah,

Gostaria de poder ser a melhor mãe do mundo, mas, por enquanto, isso é tudo o que posso lhe dar: amor. Enquanto você viver, lembre-se que a mamãe te ama muito e irá te amar para sempre. Mesmo depois, do outro lado.

O bilhete é tão pequeno, no entanto, os segundos que levo para lê-lo são o suficiente para que muitas lágrimas escorram pelo meu rosto. Não sei em que ano minha mãe escreveu essas palavras, mas deve fazer um bom tempo, pelas manchas amareladas que a decoram. Sei que convivi com a minha mãe por 21 anos, no entanto, tocar o mesmo papel que ela tocou parece uma conexão de outro mundo, agora que não a tenho mais por perto. Depois de reler o bilhete pelo menos 10 vezes, me sinto traída, de certa forma, como se ela soubesse, desde sempre, que partiria cedo. Mas, em seguida, uma onda gigante de amor me atinge, como há muito não acontecia, e eu só consigo pensar em uma coisa: a minha mãe me ama e irá me amar para sempre. Para a maioria, a minha descoberta pode parecer óbvia e até estúpida, mas, para mim, é algo que pode transformar a minha vida. E, então, estou amparada por uma nova certeza: a vida tem durações diferentes para cada um, e a da minha mãe foi curta demais. Mas o “para sempre” tem o mesmo tamanho para todos, aqui ou “do outro lado”.

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