#LivroNamanita – Parte 10

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Capítulo 36

Sarah

Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Este é o mantra que estou entoando desde que o Nicolas saiu. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Não quero chorar porque eu errei e, por isso, mereço o que está acontecendo. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. O telefone está tocando e eu não quero atendê-lo. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Mas acho que é a minha comida. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Tudo bem, é só o concierge pedindo para que eu desça até o hall.

Assim que o Nicolas fugiu, digo, saiu pela porta do meu quarto, eu coloquei um pijama e me sentei na cama, abraçando os joelhos e me concentrando para não chorar. Alguns minutos depois, liguei para o restaurante de comida chinesa porque precisava de carboidratos – não é à toa que as fossas das comédias românticas sempre contam com caixinhas de restaurante chinês. Nem me preocupo em trocar de roupa e desço do jeito que estou, sem abrir mão sequer das pantufas. Quando chego à porta do hotel, descubro que a minha comida ainda não chegou.

– É bom você não se acostumar porque esse tipo de coisa não tem nada a ver comigo.

– Se não tem nada a ver com você, então por que você tá fazendo?

– Sei lá, porque me deu vontade. E porque preciso te fazer algumas perguntas.

– Ok…

– Sarah… qual é o seu sobrenome?

– Silver…

– Sarah Silver, você promete comparecer ao próximo piquenique que a gente combinar?

– Sim.

– E você promete me assustar todos os dias com os detalhes da sua vida?

– Sim.

– E você promete nunca mais sumir sem me dar satisfações?

– Sim.

– E, por último, você promete odiar o meu romantismo e amar as minhas ironias?

– Sim. Eu prometo.

E, então, eu me permito chorar.

Assim que termina nossa cena romântica, que, graças a Deus, ninguém parou para assistir, o Nicolas esfrega o polegar nas minhas bochechas para secar as lágrimas e, sem falar mais nenhuma palavra, subimos para o meu quarto com a comida chinesa, que já chegou a essa altura. O elevador, que, apenas algumas horas antes, havia sido o cenário de um silêncio constrangedor, é agora onde trocamos os sorrisos que não conseguimos guardar para nós mesmos. Entramos no quarto, sem cerimônias desta vez, abrimos as embalagens de comida e começamos a conversar como se nunca tivéssemos parado. Ignoramos o fato de que é terça-feira, e que eu preciso estar no café às 8h, e ficamos juntos até as 4h. É como se fizéssemos isso todos os dias, há muitos anos. Mas a verdade, que me assusta e, ao mesmo tempo, me conforta, é que ainda sabemos muito pouco um do outro.

– E, então… a gente tá namorando? – o Nicolas pergunta e parece apenas um garoto de 14 anos.

– Não sei – dou risada enquanto respondo e rasgo o papel que envolve um par de hashis – pra mim tanto faz o que a gente tá fazendo. Desde que a gente continue.

– Bom, como sou um homem muito tradicional e respeitoso, prefiro dizer que, sim, estamos em um relacionamento sério, único e exclusivo – ele diz, com um gesto solene.

– Você tá sendo irônico?

– Em uma das metades da frase, sim. Mas você vai ter que descobrir qual.

– Espero que eu seja capaz – eu digo e sorrio.

– Como eu já sei que você é capaz, preciso te contar uma coisa antes da gente continuar com isso – de repente, o Nicolas fica sério e eu, preocupada.

– Tudo bem, pode falar.

E, então, enquanto dividimos a porção de yakisoba e os rolinhos primavera que pedi, o Nicolas me conta sobre a Débora, sua ex-quase esposa. Eu sinto que ele tem receio de que eu fique chateada por não ter sabido antes, mas 1. eu não fico e 2. como que direito eu poderia ficar? Claro que ele pensou nas mesmas coisas que eu, que se me contasse sobre ela naqueles quatro dias que passamos juntos, as coisas poderiam ficar sérias demais antes do tempo. Mas, para a sorte dele, a Débora nunca apareceu na cidade, querendo reatar o namoro/noivado, diferente do Douglas. “Eu sei que isso não é nada perto de tudo o que você passou”, ele me diz quando termina de contar seu “drama pessoal”, como se refere ao quase-casamento. Eu respondo que a nossa dor e a nossa história são tudo o que conhecemos de verdade e que, por isso, não existe necessidade de compará-las, mesmo sabendo que não é essa a intenção do Nicolas. Ainda assim, meu coração fica apertado só de imaginar tudo o que ele passou sem ter com quem dividir o fardo. E dói como se fosse em mim porque, na verdade, eu não preciso imaginar como é essa sensação. Eu sei.

Capítulo 37

Sarah

É sábado e é meu aniversário. Quer dizer, meu aniversário foi há uma semana e meia, mas o Nic disse que, só este ano, eu mereço repetir a data porque o meu dia de verdade foi um fiasco. “Você tá fazendo 23 anos – Parte II”, ele brincou. Claro que essa foi só uma desculpa para remarcar aquele piquenique ao qual eu prometi comparecer. São 9h da manhã e já estamos a caminho dos Bosques de Palermo. O céu está bem azul, apesar do friozinho, e eu estou com fome, mas não faço ideia do que vamos comer porque o Nic não deixou que eu preparasse nada para o piquenique. Ele carrega uma sacola de papelão que já já vai estourar, de tanta coisa que ele colocou lá dentro. Mas não tem problema porque nada tem sido um problema nos últimos dias. Assim que chegamos ao parque, quero sentar em qualquer lugar porque estou realmente com muita fome, mas ele diz que pensou em um local especial. Reviro os olhos, mas aceito. Em cinco minutos, estamos sentados em cima do cobertor que trouxemos, em uma área mais tranquila dos Bosques, que eu nem sabia que existia.

– Valeu a pena, não valeu? – ele me pergunta, assim que acabamos de comer.

– Valeu, sim. Eu vim nesse parque tantas vezes e nunca chegue aqui. É incrível – eu sorrio para ele, enquanto admiro as árvores que fazem a sombra perfeita sobre nós.

– Eu descobri por acaso. Tava procurando o Rosedal e acabei aqui.

– Você é mesmo estranho. Não acha o Rosedal, mas encontrar esse lugar – brinco com ele e, desta vez, observo os patinhos que estão entrando no lago perto de nós.

– Ha ha ha, você é tão engraçada.

Nem teve tanta graça, mas estamos apaixonados, então, damos risada da última ironia dele. O Nic está meio sentado, meio deitado, apoiado nos cotovelos, e eu estou com a cabeça no colo dele. Por alguns minutos, ficamos naquele tipo confortável de silêncio, que a gente só divide com quem tem intimidade, enquanto ele passa os dedos entre os meus cabelos. Eu fecho os olhos e o sinto se mexer para deitar ao meu lado, com os braços atrás da cabeça.

– Sarah… – estamos namorando há três dias, mas eu já sei que, quando ele começa uma frase com meu nome, é porque quer falar sobre algo sério – acho que você não gosta de falar sobre a sua família. Mas eu queria saber mais sobre você.

– Não é que eu não gosto de falar. É que eu meio que não tenho família – eu digo e me arrependo por parecer piegas.

– Bom, então me conta sobre sua não-família.

– Não tenho irmãos. Meu pai mora em Perdizes e eu moro sozinha, em um apartamento pequeno e aconchegante em Pinheiros. Fim – eu finalizo com um sorriso, enquanto não consigo entender porque não falo toda a verdade de uma vez por todas – e você?

– Eu tenho uma irmã e um irmão mais novos. Eles moram com meus pais na Vila Madalena, a algumas ruas do meu apartamento – ele faz uma pausa de alguns segundos e continua a falar – tá, agora você pode falar alguma coisa realmente relevante sobre a sua vida?

– Ter irmãos ou não é relevante. Saber onde eu moro é relevante.

– Eu já sabia onde você morava.

O Nic percebe que não estou a fim de falar sobre detalhes relevantes da minha vida e para de insistir. Ele deve saber que, se não tomar cuidado, isso pode se transformar na nossa primeira briga. Eu me sinto mal por me comportar dessa forma porque estou realmente apaixonada e confio nele. Mas acho que falar sobre o Douglas já foi pesado o suficiente para tão pouco tempo. Quero me convencer de que é por isso que eu não digo o que deveria e, acima de tudo, o que eu queria. E é quando eu sinto um peso no peito porque sei que não quero me abrir de verdade por outras razões. Porque tenho medo de me entregar.

Mãe,

Faz uma semana que eu e o Nicolas estamos namorando oficialmente :) Quando cheguei aqui, há quase dois meses, seria impossível alguém me convencer de que isso iria acontecer. Imagina, superar o Douglas fácil assim. Bom, “fácil” não é exatamente a palavra certa. Foi bem difícil chegar até aqui e, em alguns momentos, pensei que voltaria ao ponto de partida, mesmo depois de todos os avanços. Mas o que importa é que cheguei, não é isso o que dizem? Só que agora eu estou tão feliz, mas tão feliz, que chego a sentir medo do que vem pela frente porque é impossível que seja ainda melhor. Será que isso é normal?

Bom, esse negócio de ser feliz é realmente muito estranho e sempre foi um mistério para alguém como eu, que acho que nunca fui feliz de verdade. Você sabe que a nossa vida nem podia ser chamada de montanha russa porque tinha mais baixos do que altos e quase nenhum pico. Nesses últimos dias eu pensei bastante sobre isso tudo. Não é engraçado que, quando a tristeza cruza o nosso caminho, a gente pode lutar ou se render, mas, no fim, acabamos quase sempre aceitando-a porque sabemos que, de alguma forma, merecemos. No entanto, com a felicidade é totalmente diferente. A gente se pergunta o que fez para ter essa sorte e, muitas vezes, até se recusa a saboreá-la porque sabe que, logo logo, vai chegar ao fim. É como se a gente sempre merecesse ser triste, mas nunca feliz, não importa o que a gente faça ou deixe de fazer.

E isso é, tipo, a maior ironia da vida. Porque a existência da maioria das pessoas se resume em fugir da tristeza e perseguir a felicidade. Será que a nossa vida só acaba quando chegamos a um extremo ou outro? Talvez você possa me dizer.

Sarah

Capítulo 38

Sarah

O roteirista que toma conta da minha vida deve estar bolando algo realmente catastrófico porque (eu tenho medo até de pronunciar as palavras) a minha vida está… perfeita. Os últimos dias se resumiram a acordar com o Nicolas. Tomar café com o Nicolas. Trabalhar feliz e sorridente sem errar sequer um pedido. Jantar com o Nicolas. Me divertir com o Nicolas. Dormir com o Nicolas. Nicolas, Nicolas, Nicolas. Sério, isso não é saudável e não pode estar certo. Só que eu não consigo parar. E toda vez que eu começo a pensar no que vem depois, eu me obrigo a bloquear as ideias perversas que poluem a minha mente, senão eu vou surtar. Literalmente, eu vou surtar. No entanto, quando eu já me tornei uma especialista em ignorar esse tipo de pensamento, o Nicolas parece adivinhar e me puxa de volta para a realidade:

– Você é tão linda, sabia? – ele diz, enquanto passa os dedos pela minha bochecha. Estamos deitados no sofá da casa dele, assistindo Star Wars.

– Sabia, sim. Você me diz todos os dias.

– Convencida.

– A culpa é sua – respondo e sorrio.

– Quando você vem pra cá? – o Nicolas pergunta, enquanto se ajeita casualmente no sofá, como quem não quer nada.

– De novo esse assunto, Nic?

– Claro. Vou insistir até você dizer que sim.

– Bom, lamento informar que vai demorar.

– Sarah – ele começa a dizer e, dessa vez, soa sério – eu quero que você me dê um motivo plausível para não morar comigo.

– Será que é porque a gente namora há, tipo, duas semanas?

– E daí? A gente só não tá junto quando tá trabalhando.

– Tá, mas é importante que cada um tenha seu espaço.

– Eu concordo. Mas morar comigo não significa que você só vai fazer coisas comigo, e vice-versa.

– Nic, será que você não entende? – o tom da minha voz sai mais alto do que eu gostaria. Levanto do sofá – eu não posso cometer os mesmos erros de antes.

– Mas você não vai. Sou eu que estou te convidando pra morar comigo. Não faz nenhum sentido você continuar morando num hotel, gastando o dinheiro do seu pai, sendo que pode se mudar pra cá, tipo, agora.

– Faz todo sentido, eu não posso fazer com você o que eu fiz com o Douglas, você não vê? Eu não quero que a gente apresse as coisas, mais do que já apressamos. Eu não quero sufocar você. Eu não quero que você pense que eu quero ser a única coisa da sua vida. E se…

– E se o que?

– E se você cansar de mim? – meus olhos já estão cheios de lágrimas.

– Sarah – o Nicolas diz, pacientemente, e envolve minhas mãos com as dele, enquanto os olhos cor de mel penetram os meus – a gente não vai apressar nada. Você não vai me sufocar. Eu não acho que você quer ser a única coisa da minha vida. E, definitivamente, eu não vou cansar de você. Nem agora, nem depois.

– Não é simples assim.

– É, sim. Você tem medo de ser feliz e está se sabotando.

– Você não entende.

– Ok, então me explica.

E eu explico. Depois de querer e tentar explicar tudo para o Nicolas tantas vezes, eu enfim consigo. E não é fácil, é assustador. Porque contar a ele tudo o que eu contei não significa simplesmente dividir um pedaço de mim com alguém. Significa entregar um pedaço de mim e nunca mais poder pedi-lo de volta.

– Eu imaginava – o Nicolas diz, assim que eu paro de falar.  

– Você imaginava? – respondo, com a voz de quem chorou muito. Porque só agora me dei conta do quanto eu precisava dividir tudo isso com alguém. Com ele.

– Sim. E eu sei que eu te pressionei um pouquinho, mas, no fundo, eu só queria que você se sentisse à vontade pra me contar.

– Eu sempre me senti à vontade. Desde a primeira vez que vi você, naquele bar – eu digo, me lembrando daquela noite – eu só tinha…

– Medo – ele me interrompe – é o que você mais tem.

– É, eu tinha medo do que você ia pensar. Com certeza, tudo isso é um problema muito maior do que o que você imaginou quando me viu pela primeira vez – digo e dou uma risada sem graça.

– É e não é.

– Como assim?

– É difícil imaginar que uma garota linda como você tenha algum defeito ou problema. Mas, assim que eu te olhei, sei lá… eu vi uma complexidade em você.

– Mesmo? – pergunto, interessada de verdade.

– É, mas eu não sei explicar, nem adianta pedir – ele diz e dá risada – Só sei que eu não me importo se você é complexa, se tem problemas maiores do que eu imaginava, se tem muitos medos ou se é difícil de se conviver. É tudo isso que torna você, e a gente, real. Entende?

– Eu acho que sim.

– E se a gente deixar esse assunto pra lá, por enquanto? – faço que sim com a cabeça – mas, em troca, quero que você faça uma coisa.

Não é fácil me convencer. Mas, depois de mais ou menos uma hora, eu me rendo. Primeiro porque sei que estou em débito com o Nicolas e essa seria uma forma de retribuir pelo menos um pouco. Mas, principalmente, porque tenho consciência de que essa é a decisão certa a ser tomada se eu quiser colocar um ponto final no meu passado e viver o presente. E, então, estou enviando uma mensagem para o meu pai, perguntando se ele pode vir a Buenos Aires o mais rápido possível.

Meu pai me surpreendeu. Achei que ele arranjaria mil desculpas e compromissos que tornassem impossível a vinda dele à Argentina, mas ele aceitou de primeira. Talvez porque tenha se assustado com meu pedido, já que eu nunca peço nada. Confesso que fiquei feliz quando ele aceitou vir a Buenos Aires, mesmo que por apenas um dia, no entanto, agora que estou aqui no aeroporto à espera dele, estou nervosa como se nunca o tivesse visto na vida. Assim que ele chega, me abraça forte e eu posso sentir que está preocupado. Deve ser porque eu não expliquei o motivo da urgência da nossa conversa. E, eu sei que é idiota, mas isso me faz sentir melhor, mais cuidada e até amada.

– Por que a urgência, querida? – ele pergunta, assim que termina de me abraçar.

– Ah, pai, não podemos conversar sobre isso só amanhã?

– Se você prefere, tudo bem. Só estou preocupado.

– Não precisa, não é nada demais.

– Se não fosse importante, você não teria pedido que eu pegasse um avião, não é?

– Tudo bem – digo, revirando os olhos – é importante e urgente. Mas pode esperar até amanhã.

– Ok, vou confiar em você – meu pai diz, enquanto saímos do aeroporto pelas portas automáticas – meu Deus, Sarah, por que você veio parar nessa cidade? Ela é igualzinha a São Paulo.

– Não é, não. Mas talvez eu tenha vindo pra cá justamente porque é parecida com São Paulo, mas tem pessoas diferentes – respondo sem pensar.

– Bom, passei os últimos dois meses me perguntando por que você veio embora, mas não pensei que fosse por causa das pessoas – ele diz e, pelo tom, posso dizer que ficou incomodado com o que eu disse.

– Ah, pai, você entendeu. Não é você, nem ninguém. Eu só precisava de um tempo pra mim – espero que ele diga algo, mas ele permanece em silêncio – e, de qualquer forma, logo eu estarei de volta.

Depois da minha gafe, meu pai fica quieto e, como já são mais de 21h, eu o deixo no hotel e combinamos de nos encontrar para almoçar no sábado. De volta ao meu quarto, começo a pensar no que posso dizer ao meu pai para justificar a viagem. Um pouco antes de pegar no sono, porém, me dou conta de que, pela primeira vez, eu não quero pensar no que falar. Porque o que eu mais preciso é ouvir o que ele tem a dizer.

Combinamos de nos encontrar em um restaurante chique (porque meu pai insistiu em pagar a conta), cujo nome já esqueci, perto do meu hotel, às 12h. Como eu odeio chegar depois e ter que procurar pela pessoa, que talvez esteja rindo da minha cara de idiota enquanto passo os olhos pelo lugar, prefiro sair mais cedo e, quando é 11h47, já estou devidamente acomodada em uma mesa para duas pessoas. Peço uma água enquanto espero e percebo que me sinto como se estivesse em um primeiro encontro às cegas, o que me dá um certo nojinho porque, afinal de contas, é meu pai. Afasto o pensamento da minha cabeça e lembro que ele nem sabe o que motivou essa conversa e, por isso, deve estar mais nervoso do que eu. Bem, homens são mais fortes nesse aspecto.

Meu pai costuma ser pontual e hoje não é diferente. Às 11h59, ele entra calmamente pela porta e, em poucos segundos, avista a nossa mesa. Ele me cumprimenta com um beijo e um abraço e se senta à minha frente. O primeiro silêncio constrangedor acontece e eu me sinto mal porque não sei o que dizer ao meu próprio pai. “Você não está grávida, não, né?”, ele pergunta para quebrar o gelo e eu nego, não sem antes soltar uma gargalhada alta demais para um restaurante chique como este. Depois de algumas conversas triviais, que obviamente só servem para adiar o que realmente importa, meu pai decide ir direto ao assunto.

– Então, Sarah, o que me trouxe até aqui?

– Tudo, eu acho – digo porque não consigo responder a coisa certa.

– Querida, você consegue ser mais específica?

– Eu queria saber o que aconteceu depois que… você sabe. Não que a gente tenha sido uma família normal e feliz ou pai e filha inseparáveis, mas acho que as coisas mudaram muito entre você e eu.

– É complicado… – meu pai responde com o olhar distante – eu sei que errei com você e…

– Não, pai. Eu não quero que você se sinta mal ou que peça desculpas. Eu só quero entender tudo o que aconteceu de errado na nossa família. Ou seja, na minha vida.

– A sua mãe era a garota mais bonita e alegre que eu poderia ter conhecido. E nunca me passou pela cabeça que ela pudesse não ser exatamente aquilo que mostrava – ele faz uma pausa enquanto toma um gole de vinho tinto – a parte de ser alegre, eu digo, porque bonita ela foi até o fim. Mas, logo depois que a gente começou a namorar, ela me mostrou que toda aquela felicidade não passava de uma fachada – ele continua e eu sinto medo por mim mesma. Não quero ser como ela – naquela época esse negócio de depressão era visto como frescura e eu, além de não entender do assunto, vinha de uma família estruturada, muito diferente da dela. Então, eu não sabia como lidar.

– Como era a família dela? – eu pergunto, ávida por mais informações, e só então eu percebo quão pouco eu sei sobre a minha mãe.

– Os pais da sua mãe se separaram quando ela era ainda criança. Hoje é normal ser filha de pais separados, mas, anos atrás, não era. Ela sofreu bastante preconceito na escola e até mesmo de amigos próximos. Mas o pior é que, depois de se separar do seu avô, sua avó começou a se preocupar mais em encontrar outro homem do que em cuidar da família dela, que era sua mãe.

– Então era por isso que a mamãe era depressiva?

– Com certeza existiam outros motivos, Sarah, que ela nunca me contou e que talvez nem soubesse ao certo. Mas, sim, os problemas dela devem ter começado nessa época – ele diz, enquanto corta o bife em várias tiras finas – sua mãe dizia também que a vida antes do divórcio dos pais dela não era exatamente boa porque eles brigavam demais. Mas pelo menos ela tinha a atenção da mãe.

– É compreensível – eu digo, pensando em mim mesma e na minha história – mas e você e eu? O que aconteceu depois que… você sabe.

Por alguma razão, não consigo pronunciar essas palavras, como se isso pudesse mudar o que já aconteceu. Depois de ouvir a minha pergunta, meu pai faz uma longa pausa e eu vejo que existe muita culpa em seu olhar. Ele repousa os talheres no prato, toma mais um gole de vinho e apoia o queixo nos dedos cruzados. Parece que ele precisa de muita coragem para me dizer o que vem a seguir.

– Sarah, depois que sua mãe morreu, ficou muito difícil para mim lidar com você. Não só porque você é uma menina e eu sou homem e nós nunca fomos exatamente próximos – meu pai diz e sua voz embargada causa um nó na minha garganta – sabe, quando ela estava grávida, fizemos uma aposta: eu disse que você iria nascer com os meus cabelos e olhos castanhos e ela disse que iria fazer simpatias para que você puxasse os cabelos loiros e os olhos verdes dela. É claro que eu queria que a nossa menininha fosse linda como ela, mas eu gostava de provocar a sua mãe – ele me conta e dá um sorriso cheio de saudade e eu me pergunto por que ele mudou de assunto tão depressa. Mas não interrompo – bom, você sabe melhor do que nós dois que as simpatias deram certo. E é por isso que dói tanto para mim olhar para você. Porque ao mesmo tempo em que você é, literalmente, um pedaço dela, e de nós dois, o seu rosto, o seu cabelo, os seus olhos me lembram de tudo nela. Tudo o que eu nunca mais vou ver.

E, então, o meu pai desmorona na minha frente. Não de um jeito constrangedor, com soluços incontroláveis. O queixo dele treme e as lágrimas simplesmente descem pelo rosto. É claro que eu vi meu pai chorar copiosamente quando recebemos a notícia e também durante o velório. No entanto, depois daquele dia, ele voltou a ser a fortaleza que sempre foi e não tocou mais no assunto. Era como se nunca tivesse acontecido. E agora, ele está chorando e, por mais egoísta que isso seja, eu me sinto bem. Porque, pela primeira vez desde que minha mãe morreu, há dois anos, eu sei que não sou a única que ainda sofre, que ainda sente saudades. Eu sei que não estou sozinha.

– Eu sei que foi um egoísmo enorme da minha parte, Sarah – meu pai continua, depois de controlar a emoção – mas eu simplesmente não fui capaz de lidar com você logo depois da morte da sua mãe. E depois o tempo foi passando, passando, e você parecia lidar tão bem com tudo. Mas eu sei que eu deveria saber…

– Eu também nunca falei nada a respeito, não é culpa sua. Ou pelo menos, não é só culpa sua – eu digo porque realmente acredito nisso, não só para fazê-lo se sentir melhor – mas eu não entendo…

– O que você não entende, querida?

– Não entendo por que ela desistiu de mim, de você, de tudo. Quer dizer, a nossa vida poderia ter sido boa, não poderia? Foi boa em muitos momentos.

– Se eu dissesse que entendo tudo o que aconteceu, eu estaria mentindo, Sarah. Mas eu não acho que ela tenha desistido.

– Eu sei que o sofrimento pode levar a gente a lugares que nunca imaginamos – eu falo, praticamente ignorando o que meu pai disse – mas eu não entendo como alguém pode chegar ao ponto em que nada mais vale a pena. Eu não valia mais a pena, pai? – e, então, as lágrimas escorrem dos meus olhos também. Porque parece que, quando eu digo essas palavras em alto e bom som, elas se tornam mais verdadeiras do que nunca. E isso não apenas dói, como também machuca e cutuca cada ferida que já existiu em mim.

– Sarah, eu sei que é difícil, mas sua mãe tinha uma doença grave. Não era simplesmente ser feliz ou não ser feliz. Eu também já fiquei muito triste por pensar que eu e você não fomos o suficiente para que ela continuasse – meu pai explica, com sinceridade, mas eu vejo dúvidas em seus olhos – mas hoje eu prefiro pensar que nós dois, juntos, fomos a força que sua mãe precisou para viver por muitos e muitos anos. Apenas chegou um ponto em que ela simplesmente não conseguia mais continuar. E eu acho que tudo bem porque, sem nós, talvez ela tivesse partido muito mais cedo e sido muito menos feliz.

– Você prefere pensar, pai. A gente nunca vai saber se foi isso, não é? Porque ela talvez nunca dissesse a verdade. E, de qualquer forma, ela nem está mais aqui para que eu possa perguntar.

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