#LivroNamanita – Parte 9

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Capítulo 33

Sarah

Estou de folga neste fim de semana, então meu plano é passar o sábado e o domingo fazendo absolutamente nada. Minha rotina consiste em cama, comida e banheira. E, claro, cavar um buraco no meu cérebro de tanto que eu penso sobre tudo. Assim que a Rebeca fica sabendo o que aconteceu – não por mim, obviamente -, no sábado à noite, ela me liga. Fazia tempo que não ouvia a voz dela e confesso que é reconfortante. Até que ela começa a me encher o saco.

– Como você tá? – ela diz, antes mesmo de falar “alô”.

– Bem.

– É sério, Sarah.

– Tô falando sério. Bem.

– Ah, beleza. Você se muda de país por causa de uma briga com o namorado e, depois de acabar com qualquer chance de reatar com ele, você está bem?

– É. Incrível, não? – ok, não estou tão bem assim, mas o tom dela me irrita e eu perco a vontade de falar qualquer coisa.

– Definitivamente não entendo vocês dois. Porque o Douglas foi atrás de você na Argentina e voltou todo tranquilo depois de ser chutado.

– Não fala assim, não foi isso o que aconteceu.

– Então me explica.

– Entramos em um acordo. Acho que a gente já não se amava há algum tempo.

– Tá, e por que todo esse escândalo, se não se amavam mais?

– Rebeca, eu não quero ofender – “mas já estou ofendendo” – só que talvez você não saiba que nem tudo é sobre amor em uma relação, ainda mais uma relação longa e com uma pessoa conturbada, como eu.

– Você não é conturbada – ela diz, e eu sinto a pena em sua voz.

– Claro que eu sou. E não tô falando no mau sentido – respondo, tentando fazê-la se sentir melhor – é só que tem uma porção de coisas que eu ainda preciso entender.

– Então você acha que o Douglas não te amava mais? – ela pergunta, ignorando o que eu disse antes – Por isso você terminou de vez?

– Como eu disse, acho que a gente não se amava mais. Eu acho que eu tava meio dependente e por isso foi bom eu ter vindo pra cá.

– Mas e ele? Se ele não te amasse, não teria ido até aí te pedir pra voltar.

– Se ele me amasse, acho que teria feito isso na primeira semana. Ou nem teria me deixado vir – digo e percebo que descobri isso neste momento – é como te falei, nem tudo é sobre amor em um namoro. Ele veio pra cá por outros motivos. E não eram os certos pra gente ficar junto.

– Entendi – ela fala e eu sei que não entendeu nada.

Depois de desligar o telefone com a Rebeca, resolvo tomar um banho e a frase “acho que a gente não se amava mais” não sai da minha cabeça. Apesar de ter certeza disso, fico procurando evidências nos nossos últimos meses juntos. E, então, eu me lembro de um episódio específico, que eu poderia classificar como “o dia em que o amor acabou”. Há mais ou menos dois anos, era uma madrugada normal e eu estava na minha cama, lendo um livro que eu nem lembro qual era. De repente, meu pai abriu a porta do meu quarto sem bater e disse “estou levando sua mãe ao hospital, dou notícias”. Ele não esperou pela minha resposta e desceu as escadas correndo, sem dizer mais nada. Eu já estava meio acostumada com esses episódios e fiquei preocupada como sempre, mas não desesperada. Liguei para o Douglas para avisar e pensei que ele iria se oferecer para ir me fazer companhia, enquanto eu esperava por notícias. Mas ele apenas disse “ok, qualquer coisa me liga”. A questão é que eu já estava ligando.

O Douglas sabia que eu já não perdia mais o controle quando esse tipo de coisa acontecia porque era cada vez mais frequente. Mas ele também sabia que, a cada vez que a história se repetia, eu pensava “talvez esta seja a última vez”, e não porque eu era otimista. Se fosse um ano, um mês ou até uma semana antes, ele teria se oferecido na mesma hora para ir até a minha casa e ficar comigo até a hora que fosse preciso e mesmo que não fosse preciso. Mas, daquela vez, ele não se ofereceu. E o pior foi que eu nem me importei de verdade. Naquele momento, achei que apenas significava que eu era madura e segura e que, portanto, não criaria caso por algo tão pequeno. No entanto, agora, tudo me leva a acreditar que o nosso amor havia acabado. Ou estava acabando. É impossível saber com certeza, pois sei que esse tipo de coisa não acontece em um segundo e pronto. Não. Acontece em vários segundos, perdidos e espalhados no tempo. Mas, se eu tivesse que chutar aquele instante em que tudo muda, escolheria este.

Quando a última vez, enfim, aconteceu, o Douglas se aproximou de mim novamente e foi muito mais do que eu esperaria de qualquer um. Por muitas vezes, eu pensei que ele poderia ter tomado essa atitude pelas razões erradas, mas sempre afastei essa ideia. Depois da nossa última conversa, porém, eu acho que estava certa. O grande problema de quando o amor simplesmente acaba entre duas pessoas é que você não passa a odiá-la. Meu Deus, como isso seria mais fácil! Você continua a gostar dela, a se importar com ela e a desejar o melhor para ela. E quando você se vê em uma situação como a do Douglas, o seu primeiro instinto é voltar a amá-la. Ou melhor, você deseja, com todo o seu ser, voltar a amá-la. Mas, na maioria das vezes, isso não é possível. Tenho certeza de que foi isso que o Douglas tentou fazer e, por um tempo, acho até que ele foi bem-sucedido. E eu estava tão sem rumo e tão desesperada para me segurar em algo que me impedisse de afundar, que me agarrei a ele com toda a força que ainda me restava. E, pronto, nós havíamos encontrado a receita da bomba-relógio.

Acabo dormindo na banheira e só acordo porque a temperatura da água caiu uns 123ºC. Tomo uma chuveirada quente e, quando volto para a cama, aperto o botão do celular e fico decepcionada ao confirmar que não há chamadas perdidas ou mensagens. A minha maior vontade agora é escrever uma mensagem enorme para o Nicolas, explicando tudo o que aconteceu nestes últimos dias. Ou seria nestes últimos anos? Mas sei que não devo. No fundo, foi ótimo encontrá-lo na sexta-feira. Primeiro porque, do ponto de vista covarde, não precisei explicar exatamente ao Douglas tudo o que estava acontecendo, já que ele sacou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Mas a verdade mesmo é que rever o Nicolas foi ótimo porque ele me lembrou de como é estar apaixonada por alguém.

Oi, será que a gente pode se ver? Tenho muitas coisas para explicar.

Capítulo 34

Sarah

Daqui a trinta minutos, vou encontrar o Nicolas em frente ao hotel. Depois que enviei a mensagem, no sábado à noite, foram 35 horas de espera (sim, eu contei), até que o celular vibrasse com uma resposta. Eu acho que ele fez de propósito e tenho certeza de que mereci. A mensagem dizia apenas “ok, terça, às 19h, em frente ao seu hotel” e, embora tenha sido fria e direta demais, foi o suficiente para que eu soubesse que ainda havia uma chance de consertar tudo. No entanto, agora, que falta tão pouco, eu não sei o que dizer. Ou melhor, eu não sei por onde começar porque o que eu quero dizer é: tudo. Antes do Douglas reaparecer na minha vida, eu quis conversar sobre muitas coisas com o Nicolas. Mas eu tinha medo. Embora nossa relação estivesse evoluindo muito rápido, como eu poderia falar sobre meu ex-namorado e sobre a minha família sem tornar as coisas ainda mais sérias do que já estavam? Bom, essa já não é mais uma preocupação para mim. Depois de desaparecer sem dar nenhuma satisfação, meio que tanto faz o que ele vai achar do que eu vou falar. E não porque eu não me importo. Simplesmente porque eu mereço que a reação dele seja ruim. Ou até mesmo péssima.

Cinco minutos antes do combinado, estou em frente ao hotel. Fixo o olhar no chão porque não quero vê-lo se aproximar de mim. Essa brincadeira é legal quando você sabe que a pessoa vai abrir um sorriso ao ver você ou, pelo menos, ficar tímida e olhar para baixo de um jeito charmoso. No entanto, quando você não faz ideia do tipo de expressão com que vai se deparar, é melhor deixar pra lá.

– Oi – o tom de voz dele é tão seco, que a minha boca parece alagada em comparação.

– Oi.

– Onde você quer ir? – ele responde, mais direto impossível.

– Você quer subir? Calma, não quero te seduzir – eu brinco, mas ele nem sorri. Ok, sem gracinhas, eu entendi.

– Pode ser.

Atravessamos o hall do hotel em pleno silêncio. No elevador, ele se torna constrangedor e só piora enquanto andamos pelo corredor. Eu sei que não devia ter feito aquela piada, mas, quando eu fico nervosa, falo coisas idiotas. E me dá vontade de vomitar só de saber que só eu tenho coisas a dizer esta noite. Quando chegamos ao meu quarto, abro a porta e a luz se acende automaticamente, então, sinalizo para que ele entre primeiro. Tenho vontade de fazer tudo em câmera lenta, para adiar o momento em que eu vou ter que começar a me explicar. Mas sei que seria estranho começar a me movimentar como se estivesse na Lua, então, fecho a porta, me sento na cama e digo para ele se sentar também.

– E então, o que você tem para me dizer? – o Nicolas quebra o silêncio e, de repente, eu fico com receio de que ele esteja com pressa de ir embora.

– É complicado, são tantas coisas…

– Bom, comece por algum lugar – ele me interrompe.

– Primeiro, eu queria me desculpar. Mas eu não posso me desculpar sem explicar. E talvez a explicação demore. E eu não quero te incomodar – começo a tagarelar.

– Sarah. Eu tenho tempo. Apenas fale.

– Ok. Vamos lá – respiro fundo – eu cancelei o piquenique porque o meu ex-namorado me avisou na terça-feira que viria me visitar. A gente terminou há pouco mais de um mês e a situação ficou meio indefinida, por isso, eu não consegui simplesmente falar para ele não vir. Mas eu queria muito ter comemorado o meu aniversário com você – eu tento imprimir toda a sinceridade nesta última frase e acho que consigo porque sinto que o olhar do Nicolas fica mais suave.

– Entendo. E o que mais?

Foi difícil começar, mas cada palavra que eu digo parece diluir um pouquinho mais a mágoa que o Nicolas sente por mim agora. E isso me dá coragem para continuar. Depois de quase uma hora, eu já contei a ele toda a minha história com o Douglas: desde como ele se aproximou de mim na faculdade, passando pelos “momentos delicados” da minha vida nos últimos anos, até como eu vim parar em Buenos Aires.

– Então você é uma daquelas namoradas ciumentas e neuróticas? – o Nicolas pergunta e eu sei que, por um lado, está brincando.

– Aí é que tá: eu não era. Sempre fui muito tranquila e sempre valorizei a minha liberdade e a do outro. Mas, no último ano, eu acho que as coisas saíram do meu controle, sabe?

– Acho que sei.

– Você tá assustado? Porque não precisa, não é como se a gente fosse casar, nem nada, eu só queria que você entendesse o que aconteceu na terça-feira e…

– Não, não tô – ele me interrompe – mas eu preciso ir agora, tudo bem? Preciso pensar.

– Claro – respondo, desapontada, porque pensei que estávamos nos entendendo. É, não poderia ser fácil assim.

E, então, o Nicolas se levanta da cadeira onde estava sentado e simplesmente vai embora. E eu me sinto como há um mês e pouco, quando o Douglas fez o mesmo. A grande diferença é que, desta vez, eu não posso fugir para outro país. Porque eu não sou mais assim.

Capítulo 35

Nicolas

Preciso terminar uma matéria especial ainda hoje. Mas é sábado e minha cama parece muito mais confortável do que a cadeira da mesa do computador. Estou mudando de canal, em busca de algo para assistir na televisão, quando meu celular vibra.

Oi, será que a gente pode se ver? Tenho muitas coisas para explicar.

Quero responder já. “Claro, pode ser agora?”. Mas me seguro. Sei que a regra era não fazer jogos, mas era também sinceridade acima de tudo. Sarah não foi sincera, então merece alguns dias na geladeira.

Consigo me segurar por dois dias. Na segunda-feira, incorporo meu lado mais frio e calculista para digitar “ok, terça, às 19h, em frente ao seu hotel”. Ela responde na mesma hora, com apenas uma palavra: “combinado”. Definitivamente, não imagino o que a Sarah tem para me dizer. O que de tão grave pode ter acontecido para que ela sumisse num dia e aparecesse no outro na companhia de outro cara. Mas quero saber. Só por curiosidade, claro.

Desço do ônibus às 18h50, mas me recuso a acabar com a espera dela mais cedo. Quer dizer, nem sei se ela está se importando, mas gosto de pensar que tenho o poder de torturá-la. Quando falta um minuto para as 19h, atravesso a avenida e vejo Sarah parada em frente ao hotel, olhando para o chão.

– Oi – eu digo, com o tom mais frio que encontro dentro de mim.

– Oi – ela responde e eu posso sentir o alívio na voz dela.

– Onde você quer ir?

– Você quer subir? Calma, não quero te seduzir – eu quero sorrir por causa da piadinha que ela acabou de fazer, mas não posso ceder.

– Pode ser.

É difícil manter o silêncio constrangedor quando quero fazer tantas perguntas. É quase impossível não abraçá-la quando o olhar dela diz apenas “me desculpe”. No entanto, se tem uma coisa que aprendi nessa vida é: você pode comer na mão de uma mulher, mas nunca deixe que ela saiba. Também preciso me lembrar de que, talvez, o pedido de desculpas esteja em sua expressão porque ela sabe que vai me decepcionar (de novo) daqui alguns minutos. Quando entramos no quarto, ela se senta na cama branca e macia e sinaliza para que eu sente na cadeira em frente à janela. Obedeço e peço que ela comece a se explicar.

A hora seguinte é uma enxurrada de informações e nomes e situações. Sarah acha que estou assustado, mas não estou. E também não estaria se ela tivesse me contado tudo isso há uma semana, embora entenda porque não o fez. No entanto, agora tudo faz sentido. Agora eu sei por que, às vezes, o sorriso dela desaparece aos poucos. Por que ela é viva e alegre, mas também parece ser um pouco triste. E, mais do que tudo, eu entendo porque enxerguei a complexidade que ela guarda logo que nos conhecemos. Porque ela É complexa e, Deus, como eu quero desvendá-la.

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