#LivroNamanita – Parte 7

Leia todos os capítulos publicados aqui!

Capítulo 26

Nicolas

Quando volto da pauta na segunda-feira, estou tão cansado que simplesmente apago no sofá. Acordo, já na manhã seguinte, pensando na Débora e em tudo o que aconteceu entre a gente. Ela era (bom, deve ser ainda) uma pessoa ótima e não merecia nada do que eu fiz. Não era linda, mas também não era feia, e estava sempre tranquila. Em quatro anos de namoro, foram poucas as vezes que a vi brava ou com raiva. Decidimos casar e, com seu jeito calmo, a Débora começou a procurar vestido de noiva, bufê, igreja, convites, etc. Eu costumava dizer que ela era um “ser de luz”, no entanto, hoje eu admito que a achava meio-termo demais, até um pouco apática. Marcamos o casamento para maio deste ano, ou seja, neste momento, eu deveria ser um homem casado há pouco mais de um mês. Mas, conforme a data se aproximava, crescia a sensação de que eu estava cometendo um erro enorme. Eu nunca tive medo de me comprometer, sempre respeitei as mulheres e fui fiel àquelas que namorei. Não sou desses “solteirões convictos” e o meu problema não era casar. Era casar com a Débora.

Os meses pareciam passar mais rápido do que antes e ela continuava em sua tranquilidade, decidindo cada detalhe do casamento. Quando fechamos a compra do apartamento, eu tive a certeza de que não era aquilo que eu queria para a minha vida. Ou melhor, não era ela. Mas, naquele momento, parecia tarde demais para mudar de ideia, já tínhamos ido longe demais para voltar atrás. Então, eu tomei a atitude mais covarde que um poderia tomar: fugi. Há algum tempo, meu chefe no jornal vinha me oferecendo o cargo de correspondente internacional em Buenos Aires. “É o seu perfil, Nicolas. Uma cidade movimentada, mas não caótica. Isso sem falar no aumento de salário”, ele dizia para tentar me convencer e tinha certa razão. Mesmo assim, eu neguei a oferta por meses, não porque não queria experimentar, mas porque tinha preguiça de mudanças. Ele acabou desistindo da ideia quando soube que eu iria me casar e me promoveu a editor assistente do caderno de cultura.

A minha vida era estável e confortável, mas, em fevereiro, a situação com a Débora ficou insustentável – não que ela tenha percebido. A apatia dela em relação a tudo, que antes eu até admirava e via como calma e equilíbrio, começou a me tirar do sério. O que eu não imaginava é que, em um dia próximo, eu iria desejar, mais do que nunca, que ela fosse mil vezes mais tranquila. E, então, a três meses do casamento, eu decidi que merecia mais do que uma vida confortável. E que, se eu tinha preguiça de mudanças, iria combatê-la com um tratamento de choque.

– Deb, nós precisamos conversar – falei, enquanto assistíamos à televisão.  

– Ah, eu sei. Tá tudo tão corrido que até esqueci de avisar você que mandei alguns convites pelo correio ontem – ela respondeu, tão animada, ainda que do jeito dela, que fez meu coração doer, quase literalmente.

– Não, Deb – tentei ser firme – é mais sério do que isso.

– Algum problema?

Eu simplesmente não sabia como dizer aquilo. Eu tinha vontade de desistir da ideia, mas não pelas razões certas para nós dois. Eu seria covarde mais tarde, mas, antes, precisei ser mais corajoso do que nunca. Eu estava segurando as mãos dela no meu colo e ela já devia saber o que era porque tinha lágrimas nos olhos.

– Eu acho que não devemos nos casar.

– O que você quer dizer? – ela largou as minhas mãos, levantou do sofá e gritou.

– Eu acho que não é certo para as nossas vidas – eu tentava ser sutil.

– Você tá louco, Nicolas? Você tá brincando comigo?

– Não, Deb, eu… me desculpa – eu disse porque era a única coisa que parecia certa.

– Não tem desculpa, Nicolas. Não tem desculpa – ela gritava ainda mais alto e chorava – você tem noção de que eu já comprei o meu vestido? Já contratei e paguei uma porção de serviços? Eu já mandei convites, Nicolas. O que as pessoas vão dizer?

– Eu não estou preocupado com o que as pessoas vão dizer, nem com a porra do seu vestido – gritei, irritado, porque não era aquilo que importava. E, então, falei tudo o que eu não devia falar –  eu não quero me casar com você, Débora, tô cansado desse seu jeito de quem não se importa muito com nada. Eu preciso de alguém que seja mais intensa, que tenha vontade de ser o que é.

– Mas é isso o que eu sou, Nicolas. O que aconteceu com o seu “ser de luz”? – ela me perguntou, de forma irônica.

– Virou um ser apático. Apática. É isso o que você é e eu não quero me casar com uma mulher assim.

A Débora saiu do meu apartamento e só voltou dias depois, quando eu não estava, para pegar as coisas dela. Eu a procurei nos dias seguintes, quis conversar quando estava mais calmo, esclarecer tudo, fazê-la entender que o problema não era com ela e, sim, comigo – por mais que, antes, eu dissesse que essa era a desculpa preferida dos covardes e fracassados. Bem, era tudo o que eu me sentia naquele momento. Mas a Débora nunca mais atendeu às minhas ligações e, na última vez que tentei visitá-la, o pai dela foi categórico: “não procure mais a minha filha. Você fez muito mal a ela”, ele disse. Não foi rude ou ameaçador, apenas sincero. E foi isso o que mais me destruiu.

Minha família também não ficou feliz com a decisão. Meus pais passaram semanas me tratando de maneira estranha, mas eu sei que tentaram compreender a situação. “Fico orgulhoso que tenha tido a coragem de ser leal à Débora e, principalmente, a você mesmo”, foi a única coisa que meu pai me disse sobre o assunto e, então, eu soube que, no fundo, ele entendia de verdade. Mesmo assim, era difícil conviver com a culpa que eu sentia e a opinião de pessoas que nunca foram importantes para mim, mas que se achavam no direito de me julgar. Foi quando eu resolvi assumir o covarde que quase todos diziam ver em mim e fugir.

No começo da noite da terça-feira, arranjo um tempo livre e vou até o mercado comprar algumas coisas para o aniversário da Sarah. Ainda não sei quais são os favoritos dela em matéria de piquenique, mas ela me faz ter vontade de arriscar para descobrir – e não só o que ela gosta de comer. Estou examinando os vinhos, como se entendesse do assunto, quando sinto meu celular vibrar.

Oi, eu não vou poder passar meu aniversário com você. Depois eu te explico. Espero que me perdoe.

Dou risada sozinho porque adoro essa nossa brincadeira de ironias.

Você é realmente muito engraçada, estou rolando de rir pelo chão do supermercado. Vinho tinto ou branco?

Nicolas, me desculpe, mas é sério desta vez.

Só então eu entendo que não se trata de uma ironia. E eu tenho certeza de que, em algum lugar, alguém está se divertindo por me fazer pagar pelos erros que cometi.

Capítulo 27

Sarah

Não consigo dormir por mais de duas horas de terça para quarta e o Douglas deve chegar lá pelas 10h da manhã. São 8h e eu não tenho a mínima vontade de me levantar. Fico pensando em como esse dia seria se tivesse acontecido há algumas semanas. Talvez eu não conseguisse dormir do mesmo jeito, mas por outros motivos. A essa hora, já estaria de pé, me arrumando para receber o Douglas com o meu melhor sorriso. Não sei ainda o que ele quer me dizer, mas, com certeza, é algo importante o suficiente para fazê-lo vir até aqui. Quando meu celular toca e vejo que é o Douglas, pego o aparelho com as mãos suadas e não sei  bem o que dizer, embora as opções sejam poucas e óbvias. Ele diz que está chegando ao hotel e que vai deixar as malas no quarto dele antes de vir me ver. Ainda deve levar pelo menos 30 minutos até ele chegar, mas não consigo me concentrar em mais nada. Sento na beirada da cama e espero. Quando Douglas bate três vezes na porta, me levanto, giro a chave duas vezes para a esquerda e respiro fundo. A próxima coisa que vejo é o rosto aflito dele.

– Oi – ele diz, em uma voz tão pequena que mal consigo reconhecer.

– Oi – respondo, tentando parecer animada, na tentativa de preencher o espaço entre nós.

– Posso entrar?

– Claro.

– Eu senti sua falta – ele me envolve em um abraço quente e familiar. Mas é diferente de antes e eu não consigo saber exatamente o porquê.

– Eu também – digo, e não sei se estou falando a verdade ou se estou apenas dizendo o que devo dizer.

– Feliz aniversário – ele se afasta de mim, sorri e me entrega um pacote pequeno e quadrado.

– Obrigada, mas não precisava se preocupar.

É tão estranho viver um momento que eu tanto fantasiei, que eu não sei exatamente o que sentir. Começo a abrir o pacote, enquanto falo para o Douglas entrar e sentar, e fico pasma com o que tem dentro da caixinha: um novo par de alianças.  

– Douglas… eu não sei o que dizer.

– Então não diga nada – ele diz, enquanto afasta os cabelos do meu rosto – eu só queria me desculpar com você, eu acho que não pensei no seu lado quando fiz o que eu fiz.

– Você não precisa me pedir desculpas – eu digo, apesar de não acreditar totalmente no que acabei de falar – ninguém em sã consciência consegue lidar com uma namorada louca por muito tempo.

– Vamos recomeçar? Do zero? – percebo que ele não rebate a minha descrição “namorada louca” e isso me irrita.

– Eu não sei…

– Não é isso que você quer?

– Eu não sei – repito.

E, então, antes que eu possa pensar no que dizer em seguida, ele me beija. E eu deixo, mas também quero dizer que tenho raiva por ele ter me avisado apenas na véspera que viria para cá. Por ele ter tanta certeza de que eu estive esperando por ele nos últimos 40 dias. Por ele achar que vê-lo hoje seria uma ótima surpresa de aniversário. E, principalmente, por ele pensar que poderia consertar todas as coisas erradas entre nós com um beijo e um novo par de alianças. Quando os lábios dele tocam de novo os meus, depois do que pareceu uma eternidade, é inevitável sentir que muitas coisas voltam para o lugar. Mas eu não sei dizer se ainda é o lugar certo para elas.

Assim que o Douglas volta para o quarto dele, para descansar, a primeira coisa que faço é pegar o meu celular. A segunda é me arrepender: são 15 ligações perdidas e 5 mensagens. Todas do Nicolas.

Feliz aniversário! Já chegou o depois, pra você me explicar o que aconteceu? :)

Estou preocupado. Espero que você esteja bem.

Posso fazer algo por você?

Sarah, eu não sei o que está acontecendo. Mas, se foi algo que eu fiz, me diga por favor.

Seja lá o que for, acho que você precisa de tempo. Vou deixar você em paz. Sabe onde me encontrar.

Ler as mensagens na ordem em que ele as enviou é praticamente uma sessão de tortura. A primeira é tão engraçadinha que me faz sorrir. E, em seguida, me sinto mal por fazê-lo achar que hoje tudo poderia estar normal. Quando chego à última, estou soluçando e me odiando. Quero responder todas as mensagens, mas não encontro nenhuma explicação plausível ou adequada. Talvez porque não haja uma sequer. Por um lado, não consigo resistir à tentação de me isentar da culpa: eu não falei sobre o Douglas porque não houve oportunidade, da mesma forma que o Nicolas não falou sobre nenhum relacionamento anterior. Como eu poderia prever que o Douglas viria a Buenos Aires procurar por mim? E como eu poderia, agora, simplesmente vomitar todas estas informações em cima do Nicolas? Quando, na verdade, nem eu sei o que eu quero. De repente, não importa mais se a culpa é minha ou não porque me sinto furiosa comigo mesma, com o Douglas, com o mundo. E, principalmente, com ela.

Mãe,

Acho que descobri por que é tão difícil para mim entender que ser feliz significa apenas isso: ser feliz. Porque a felicidade dura pouco, não é? Veja só, quando escrevi a última carta para você, há apenas três dias, tudo estava ótimo, eu estava feliz como há muito tempo não me sentia. E agora, dizer que estou triste é pouco. Eu estou também furiosa, exausta, perdida, decepcionada, com raiva e tudo o mais que você imaginar. Agora, o vazio não é apenas uma sensação. É tudo, ou quase tudo.

Viver com você e o papai me mostrou que a vida é assim: cheia de “momentos delicados” e vazia de dias felizes. E isso torna muito mais difícil para mim aceitar a felicidade. Mas, se quer saber, eu agradeço porque assim também fica mais fácil de lidar com tudo o que dá errado. Eu cresci com a sensação de que a minha vida poderia desmoronar a qualquer momento. Quando as coisas pareciam bem, eu já esperava pela próxima vez que ligaríamos o botão de alerta. Aprendi a me recuperar cada vez mais rápido e, se faltasse tempo entre uma crise e outra, eu arranjava um jeito de convencer a todos de que eu estava bem. Porque, no fundo, eu nunca fui a prioridade.

Mas, desde a última vez, nunca mais desligamos o botão de alerta. A minha vida realmente desmoronou. Eu ainda não me recuperei, mas convenci a todos de que estou bem. Menos a mim. E, então, eu me pergunto: onde você está quando deveria me ajudar a descobrir o que fazer com tanta tristeza e pouca felicidade? Ah, espera, eu já sei a resposta: se você estivesse aqui, então, talvez, a minha vida fosse diferente. E melhor.

Sarah

Capítulo 28

Sarah

Eu acabo dormindo com a cabeça apoiada na mesa e só acordo duas horas depois, com três batidas na porta. É óbvio que a maior probabilidade é de que seja o Douglas, mas, ainda assim, tenho a esperança de ver o Nicolas. Não sei bem o porquê, já que não tenho ideia do que eu faria ou diria caso ele aparecesse na minha frente. Quando abro a porta, vejo que a probabilidade venceu a esperança, e é Douglas quem está à minha espera. Ele está com cara de quem acabou de sair do banho e cheira a perfume recém-aplicado. Continua bonito e charmoso como sempre foi, mesmo assim, parece que algo se perdeu nesses dias que ficamos sem nos ver e eu não sei dizer o que é.

– E, então, aniversariante? Quer me dar o prazer da sua companhia para o jantar? – ele me pergunta como se nada tivesse acontecido, como se estivéssemos em Buenos Aires para mais uma temporada de férias.

– Claro – respondo, embora não esteja especialmente animada para o programa – pensou em algo?

– Não só pensei, como também fiz uma reserva em um lugar especial. Você tem uma hora e meia pra ficar linda. Ainda mais linda.

– Ok, você passa aqui? – dou risada porque, embora algumas coisas tenham mudado, outras permanecem iguais. E uma delas é: é difícil resistir às palavras do Douglas.

Me obrigo a pensar pelo lado bom e fico um pouco mais animada quando vou tomar banho. Afinal, de certa forma, as coisas não poderiam estar melhores: é meu aniversário, estou em um dos lugares que mais amo no mundo e com uma pessoa especial. Enquanto estou na banheira, começo a pensar no que usar e o vestido vermelho, acinturado e com a saia rodada, que o Douglas tanto gosta é o primeiro que me vem à cabeça. Lembro que o estava usando quando saí com o Leo e conheci o Nicolas e admito, pela primeira vez, que vesti-lo aquele dia foi uma forma de “protesto silencioso”. No entanto, usá-lo hoje poderia ter um significado muito maior. Assim que me decido por outro vestido, um que comprei aqui em Buenos Aires e ainda não usei, meu celular vibra.

Rebeca: feliz aniversário!!!!!!!! Gostou do presente?

Sarah: obrigada :) Acho que sim. A culpa é sua?

Rebeca: como assim, acha? A ideia foi do Douglas, mas eu que passei as informações. Ficou surpresa?

Sarah: é, acho que surpresa seria uma boa definição.

Rebeca: e vocês já estão juntos de novo?

Sarah: talvez. Ele me deu as alianças, mas ainda não estamos usando. Então, acho que não é nada oficial.

Rebeca: não estrague tudo de novo. E bom encontro :) :) :)

Eu tenho certeza que a Rebeca não fez ou falou nada por mal, muito pelo contrário. Mas, assim como fiquei com raiva do Douglas por ele achar que poderia simplesmente vir para Buenos Aires e ignorar todos os nossos problemas, fico brava com ela também. Ela apenas deduziu que a visita dele me faria bem e que eu não tinha planos para o meu aniversário e nunca quis saber se eu realmente estava apaixonada pelo Nicolas. Também fico irritada com o fato de que ela já sabia de todos os planos do Douglas – as alianças, o pedido de desculpas, o jantar e sabe-se lá o que mais -, como se eu fosse a pessoa mais previsível do mundo. Mas a maior mágoa se forma quando a conversa termina e ela me diz para não estragar tudo de novo. E eu não consigo parar de pensar que essa frase saiu de uma conversa do Douglas com ela. Como se eu tivesse estragado tudo porque quis. E como se fosse fácil simplesmente não estragar.

É claro que o restaurante que o Douglas escolheu é em Puerto Madero. Afinal, ele não só lembra que aqui é um dos meus lugares preferidos na cidade, como também sabe as lembranças que guarda. Depois de tudo o que aconteceu nos últimos meses, é estranho estar aqui com ele e eu me sinto como duas pessoas diferentes: uma está muito feliz por tê-lo de volta, mas a outra gostaria de acordar e perceber que os últimos dias não passaram de um sonho. Ou pesadelo.

– Você tá tão quieta.

– Impressão sua – sorrio e tento ser convincente.

– Não tá feliz?

– Claro que sim.

– Sabe sobre o que eu tava pensando? – mesmo sabendo que eu não sei, ele espera que eu pergunte “o que?” – e se você voltasse comigo? Daqui a três dias?

– Eu não sei, Douglas. Não sei se é o momento – dá pra ver que ele fica decepcionado com a minha resposta. Ops, talvez eu tenha saído do roteiro que ele idealizou com a Rebeca.

– Se você voltar comigo, vamos fazer tudo diferente.

– Diferente como?

– Não sei. A gente pode morar juntos. Ou ficar noivos. Sei lá, só quero que seja diferente. Só quero compensar tudo de ruim que aconteceu.

Se fosse um mês atrás, ou até mesmo antes de “tudo de ruim acontecer”, talvez eu tivesse levantado da mesa e saído do restaurante só para soltar fogos de artifício e gritar uns palavrões, de tão feliz que eu teria ficado. Ok, não era um pedido de casamento formal, mas a ideia estava ali, no ar, seria apenas uma questão de tempo. No entanto, hoje, me sinto incomodada porque ele trata tudo isso como uma forma de consertar o que talvez nem tenha mais conserto. Só queria que ele entendesse que algumas coisas não podem ser compensadas. Nunca.

– Olha, eu não sei mesmo, Douglas. Talvez eu precise de mais tempo pra pensar.

– Tempo pra pensar? – ele fala em tom de quase deboche e parece irritado.

– Sim. Muita coisa aconteceu nesse mês e pouco. Muita coisa mudou. Não posso simplesmente ir embora – eu digo e nem me reconheço.

– O que de tão importante pode ter acontecido que faça você pensar em ficar?

Eu sei o que de tão importante pode ter acontecido. O que de tão importante de fato aconteceu. Mas não posso contar para ele, não agora e não assim. Porque eu também ainda não sei o real tamanho das mudanças que aconteceram dentro de mim, o quanto eu gosto delas e quantas ainda irão acontecer. Não sei se quero apostar no desconhecido e esperar para ver ou se quero correr de volta para o meu porto seguro: a minha vida de antes, com tudo o que ela tem de bom e de ruim.

– Sei lá, eu ainda tô confusa. Preciso colocar as ideias no lugar.

– Ah, quer dizer que eu venho até aqui pra te resgatar e você ainda tem que pensar se quer aceitar o par de alianças que eu trouxe? – ele diz em tom de brincadeira, mas sei que esse é o jeito delicado que ele tem de dizer as coisas que o irritam.

– Não se trata de aceitar um par de alianças – respondo e, desta vez, deixo a raiva transparecer.

– Não, né? – Douglas diz, irônico – se trata de ver até onde a minha paciência vai por você.

Não sei o que responder sem estragar o resto da noite. Ou os dias que ainda temos pela frente. Peço licença e vou ao banheiro. Entro na cabine, abaixo a tampa do vaso sanitário e me sento. Tento processar tudo o que está acontecendo e tenho a sensação de que o Douglas pensa estar fazendo um grande favor para mim. E, então, eu percebo que ele não se parece mais com o homem que eu tanto amo. Ou amei. Ele se parece com um homem que acha que sabe o que é melhor para mim e que quer provar que está certo.

Capítulo 29

Quando me recompus e voltei à mesa, eu e o Douglas fizemos um acordo silencioso e demos uma trégua. Conversamos um pouco sobre o que aconteceu neste tempo que passamos separados, mas é claro que eu não falei sobre o Leo e o Nicolas, assim como ele talvez também tenha omitido algum detalhe do tipo.

– Você? Trabalhando como garçonete? – ele diz, incrédulo, quando falo sobre o emprego no café.

– Sim, qual o problema?

– Nenhum. É só que você sempre foi tão… cool. Nunca imaginei você trabalhando como garçonete.

– Não posso ser uma garçonete cool? – tento parecer tranquila, mas estou irritada. De novo.

– Tenho certeza de que você é. Mas ainda é engraçado.

– Não sei onde está a graça. Só sei que amanhã preciso estar no café às 8h.

– Ah, não, você tá de brincadeira.

– Nem todo mundo está de férias como você…

– Você poderia estar. Se quisesse – o Douglas responde e me irrita mais um pouquinho. Não gosto da forma como ele desmerece o meu trabalho, mesmo que seja porque, supostamente, sou boa demais para ele.

Enquanto caminhamos de volta ao hotel, o Douglas envolve a minha mão com as dele e, por alguma razão, pela primeira vez desde que ele chegou, eu sinto que as coisas poderiam dar certo de novo entre nós. Começo a pensar em não apenas aceitar as alianças, mas usá-las, e a imaginar como seria ir embora daqui a três dias. Quando chegamos à porta do meu quarto, ele pergunta se pode entrar. Sinto o pânico tomar conta de mim porque não estou preparada para nada mais do que alguns beijos – e olhe lá -, mas não consigo negar. E, então, eu faço uma coisa da qual não me orgulho, mas eu não posso irritar o Douglas mais uma vez esta noite. Antes mesmo de sentar na cama, começo a dizer que estou exausta, o que não é exatamente uma mentira. Ligo a televisão, me deito de um lado da cama e, em cinco minutos, finjo ter caído no sono. Não sei quanto tempo depois, durmo de verdade.

Acordo com dedos quentes na minha bochecha e, por um momento, me pergunto de quem poderiam ser. Ver o rosto do Douglas logo de manhã, antes mesmo de ver o meu próprio, me faz voltar no tempo. Um tempo em que eu tinha certeza do que queria. Quando me sento na cama, percebo que ele pediu café da manhã no quarto e não consigo evitar um sorriso. No entanto, apesar do Douglas sempre ter sido romântico e atencioso, um detalhe faz com que nada disso pareça natural: ele mede cada reação e precisa da minha aprovação. Antes, ele só fazia o que fazia porque tinha vontade. Agora, é como se ele estivesse se esforçando para incorporar o que foi no passado.

Depois de tomarmos café juntos na cama, troco de roupa e saio para trabalhar. Sozinha de verdade pela primeira vez desde que o Douglas chegou, começo a pensar imediatamente no Nicolas. Não que eu tenha parado em algum momento. No entanto, não sei distinguir o que é culpa e o que é saudade. Pego o celular várias vezes para escrever uma mensagem, mas continuo sem saber o que eu poderia escrever, como poderia me justificar. E, o pior, como faria para mantê-lo longe de mim se me aproximar de novo. Toda vez que vejo um homem alto e magro, acho que é ele, mas nunca é. Quando meu celular vibra dentro do bolso, torço para que seja uma mensagem dele. Mas é apenas Douglas me avisando que hoje vamos jantar em Palermo. Queria saber como foi que as coisas mudaram dentro de mim. E, o mais importante, até quando.

A sexta-feira é igual à quinta, com a exceção de que eu saio um pouco mais cedo e nós resolvemos passear na Plaza Francia, na Recoleta. Mais uma vez, é inevitável lembrar das nossas primeiras férias juntos e da promessa de amor eterno que ela trouxe. Assim como naquela época, é quase inverno e as árvores das ruas nada mais eram do que galhos secos cortando o céu azul. Por um breve momento, fecho os olhos e me pergunto: se eu apertá-los com força, será que posso esquecer tudo o que aconteceu e voltar a viver dias como os de antes? Uma parte de mim torce para que a resposta seja “sim”, mas a outra já sabe que algo está diferente e já não se encaixa mais. E, embora eu não saiba exatamente o que mudou, tenho certeza de que mudou para sempre. Quando já estamos perto da praça, eu e o Douglas ficamos em silêncio por um bom tempo. Ele aperta minha mão com força, me guia até um dos bancos em frente ao cemitério e tira a caixinha das alianças do bolso.

– Você já pensou? – é uma pergunta, mas eu vejo nos olhos do Douglas que ele pensa que já sabe a resposta.

– Sim. Mas ainda não cheguei a nenhuma conclusão.

– É só você pensar se quer ficar comigo ou não. Se a resposta for sim, então a gente vai embora amanhã à tarde.

– E se eu quiser ficar com você, mas precisar ficar mais um tempo aqui?

– Sarah, isso não faz sentido nenhum. Ou você fica comigo e volta comigo ou…

– Ou… você não vai voltar? – eu digo e sinto o arrependimento no mesmo instante.

– Eu vou fingir que não ouvi a última coisa que você disse. E eu não vou mais tocar nesse assunto até amanhã de manhã, quando você vai ser obrigada a decidir – ele tenta ignorar o que disse para mim há pouco mais de um mês. Mas o que ele acaba de falar é apenas um eufemismo da mesma coisa.

A ideia é esquecer o assunto por um tempo, mas, quando chegamos ao restaurante, em vez de trégua, o que existe entre a gente é um silêncio constrangedor. O pouco que falamos é sobre a comida e, assim que terminamos a refeição, decidimos ir embora. O Douglas sugere que a gente pegue um táxi, mas é cedo e o metrô ainda está funcionando. No caminho até a estação, ele não pega na minha mão e mal fala comigo. Sei que está chateado. E eu também estou. Ainda me sinto dividida sobre o que fazer e tenho poucas horas para decidir, mas não gosto nem um pouco das poucas opções que eu tenho, ou melhor, das poucas opções que ele me dá. E eu odeio como o Douglas parece se achar superior a mim, como se eu estivesse em débito eterno, por causa de tudo o que aconteceu. Quando passamos pela catraca do metrô, um homem esbarra em mim e eu deixo a minha bolsa cair. Ele dá meia-volta e, ao mesmo tempo, abaixamos para pegá-la. Quando levanto o olhar, eu vejo os cabelos da cor do outono.

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