#LivroNamanita – Parte 4

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Capítulo14

Nicolas

Não dá pra negar: o Leo me ajudou pra caramba com as burocracias da migração para a Argentina. Mas, agora, o cara acha que somos melhores amigos. Como sei que ele pensa que estou em dívida, me sinto na obrigação de aceitar o convite para jantar e conhecer a namorada dele. Segundo o Leo, é por minha causa que eles estão juntos. Não entendo por que pode ser importante que eu a conheça, mas o cara realmente parece achar que ela vai curtir saber quem é o “responsável” por eles terem se encontrado. Talvez ele pense que isso pode ser romântico e, como esse é um assunto que eu definitivamente não domino, não vou discutir. Além disso, um cara boa pinta como o Leo deve saber o que agrada uma garota e não me custa nada ajudar.

No meio do caminho, quase desisto. Desço na estação errada do metrô e acabo tendo que andar o dobro até chegar ao bar, em Puerto Madero. De todos os lugares que já visitei em Buenos Aires, este é um dos mais bonitos, por isso, tenho vontade de parar em frente a Puente de la Mujer para tirar uma foto. Mas já estou 25 minutos atrasado e sei que ainda terei muitas chances de voltar aqui. Quando abro a porta do bar, a mistura de tantos tons diferentes de voz denuncia que o local está cheio e fico automaticamente tenso porque odeio ter que procurar por pessoas em lugares lotados – ainda mais quando vi a pessoa em questão menos de cinco vezes na vida. Mas, para a minha sorte, o Leo logo me avista e agita um dos braços. A namorada dele está de costas e, só pelos cabelos loiros, já sei que é uma gata – o que deve ser praticamente uma regra, em se tratando de alguém como o Leo.

Ela demora para se virar, acho que não percebeu que o “responsável” pelo seu mais novo romance chegou. Mas, quando o faz, um segundo é o suficiente para entender o desespero do Leo em agradar essa garota: ela não é apenas uma gata. Quando me vê, sua expressão calma dá lugar à surpresa e eu não entendo o porquê. E sei que parece loucura, mas eu já gosto da complexidade que essa garota parece ter. Ela me cumprimenta e se apresenta – se chama Sarah -, então, recupera a expressão tranquila e começa a conversar. Assim como eu, Sarah vem de São Paulo e descubro que morávamos em bairros próximos. Enquanto fala, ela gesticula e sorri, o que a deixa ainda mais bonita, e eu tenho vontade de ficar quieto só para assisti-la – e acho que o Leo pensa o mesmo, pois está calado há uns bons minutos. Mas não consigo porque ela me faz sentir interessante e, então, eu quero falar não como um homem que quer se exibir, mas como alguém que tem algo a compartilhar.

Não sou como grande parte dos homens e não gosto de loiras. Acho uma beleza óbvia demais. No entanto, Sarah não tem nada de óbvia, ela é um contraste: é viva e alegre, mas, ao mesmo tempo, seus enormes olhos verdes parecem demonstrar certa tristeza; fala sobre si sem censura, mas a forma como o sorriso, às vezes, desaparece aos poucos denuncia mistérios que não revela a ninguém. Sei que é impossível saber de tudo isso sobre uma pessoa em poucas horas, mas parece que eu sei. Acho que é a cerveja. Espero que seja a cerveja.

Capítulo 15

Sarah

Acordo às 7h24 da terça-feira e quase pulo da cama, achando que devia estar no café em menos de uma hora. Então, eu lembro que não tenho mais emprego, nem namorado em potencial. E a primeira constatação me chateia muito mais. Mesmo sem compromissos ou deveres, me levanto e decido que mereço um “dia doce”, o termo que minha mãe inventou para o dia seguinte a qualquer coisa desagradável. Quando eu tinha uns 7 ou 8 anos, tive uma dor de barriga tão horrível que precisei ir ao hospital e tomar soro. Uns dois ou três dias depois, acordei me sentindo bem e fiquei tão feliz que minha mãe me deixou faltar de novo na escola para sairmos, apenas nós duas. Ela disse que eu poderia comer e fazer o que quisesse, que era para compensar os dias que passei indo ao banheiro e ao hospital. Quando voltamos para casa, no final da tarde, meu pai já havia chegado e perguntou por onde havíamos andado. “Tivemos um dia doce”, ela respondeu. Desde então, as decepções e frustrações apenas cresceram, mas o dia seguinte a elas sempre foi o “dia doce” para mim.

E, desta vez, não é diferente. Coloco uma das minhas roupas preferidas, desço para tomar o café da manhã do hotel e como tudo o que tenho vontade, sem me preocupar com a quantidade de calorias. Quando coloco os pés na rua, sorrio de leve com a ideia de que posso fazer quase tudo o que quiser e, então, percebo que a minha tendência a piorar o que já está ruim se manifesta. Deixo que ela me guie, enquanto me delicio com o vento frio de Buenos Aires, ainda que ele castigue os meus lábios e bochechas. Entro na rua Lavalle, em direção à rua Florida, e passo o mais rápido que posso pelo café, pensando em como o centro daqui me lembra o de São Paulo, só que é melhor frequentado e mais bem cuidado, e isso me faz sentir um pouco em casa. Quando percebo, estou na porta do El Ateneo.

Eu digo para mim mesma que fui ao El Ateneo porque queria comprar livros. E que isso não tem nada a ver com o Douglas. Porque, com ele, eu fui ao Grand Splendid, que fica na avenida Santa Fe, e agora estou em uma das unidades da rua Florida. No entanto, a verdade, eu sei, é que eu estava a fim de cutucar a ferida, mas não tive coragem de ir até o fim. A sensação de fracasso que tomou conta de mim na noite passada apenas aumentou e eu não vejo razões para não chegar ao fundo do poço de uma vez. Quero dizer, economizaria o meu tempo. Sendo assim, não me incomodo em procurar livros que nunca li e vou direto nos que me levam de volta ao Douglas.

Encontro Alta Fidelidade, de Nick Hornby, em inglês no alto de uma prateleira e me estico para pegá-lo. Como ainda é cedo, há lugares para sentar e ler. É o que faço. Releio algumas das minhas passagens favoritas e, quando chego à última, deixo uma lágrima cair. Fecho o livro correndo, com medo de que alguém perceba que acabei de borrar uma página, mas não há ninguém por perto. O trecho que li nem é triste, mas as lembranças que me traz são. Alta Fidelidade é um dos favoritos do Douglas e, quando ele me emprestou, já depois que começamos a namorar, eu ainda não havia assistido à versão cinematográfica do livro, tampouco lido algo do Nick. Mas, gostei tanto que, quando fomos ao El Ateneo, no último dia de viagem, o vi em inglês e quis comprá-lo para ter na minha coleção.

– Por que você não escolhe um que ainda não leu? – o Douglas perguntou, gentilmente, quando eu peguei o livro da prateleira.

– Porque eu quero esse.

– Mas esse você já leu.

– Já, mas aquele era seu e eu gostei tanto, que quero ter na minha coleção.

– Desnecessário – ele disse, como se estivesse bravo – um dia, a minha coleção vai ser nossa e aí vamos ficar com dois livros iguais.

– Quase iguais. Esse é em inglês – eu respondi, em tom de deboche, e nós dois demos risada.

No fim, desisti de levar o Alta Fidelidade e o Douglas escolheu três livros que nenhum de nós dois havia lido. Ele dizia que queria comprar livros para nós e não para mim ou para ele. E eu deixei porque, naquele momento, eu realmente acreditava que, um dia, a coleção dele seria nossa. Que a promessa feita, ainda que sem querer, há menos de 24 horas nunca seria quebrada. Mas, agora, eu tenho mais livros que eu já li para comprar do que nunca.

Saio do El Ateneo sem livros novos e com as lembranças mais vivas do que antes. Funcionou. Sinto que mereço um pouco mais de tortura, então, ando por toda a rua Florida, vasculhando a minha memória em busca de algo que me faça sentir ainda pior. Parece loucura, eu sei, mas, muitas vezes, o que eu mais quero é que a dor venha toda de uma vez. No entanto, por mais que eu tente, ela nunca vem. E sei que nunca virá. Quando já estou cansada de andar, mas não de me torturar, decido voltar ao hotel. Antes, passo em um daqueles mercadinhos onde tudo é pelo menos o dobro do preço e compro duas garrafas de Quilmes. Mal entro no quarto e já estou tentando abrir a primeira, que não está mais tão gelada quanto deveria. Não me importo. Quando estou terminando a segunda, pouco mais de uma hora depois, me sinto anestesiada por fora. E o oposto por dentro.

Mãe,

Às vezes, tudo dentro de mim dói. É quando eu mais lembro de você. E a cada vez que tudo dentro de mim dói, fica mais claro que eu nunca entendi você. Que ninguém nunca entendeu você. E eu acho que foi por isso que você foi embora, para ter uma nova chance, para poder recomeçar. Às vezes, muitas vezes, eu também só quero ir embora. Não importa como, quando ou para onde. Talvez, quando minha dor for maior do que eu posso suportar, maior do que qualquer outra coisa, boa ou ruim, que exista na minha vida, eu crie coragem. Mas, enquanto isso, não consigo parar de pensar que, se alguém no mundo gosta de mim como eu gosto gostava de você, então, eu não posso simplesmente ir embora, sem terminar o que eu comecei, e deixar tantos por ques para trás. Exatamente como você fez.

Sarah

Capítulo 16

Nicolas

Já faz cinco dias que conheci a Sarah e, desde então, já pensei nela mais vezes do que me lembro. Não vou dizer que estou apaixonado porque isso nem é possível, afinal, dividimos apenas pouco mais de três horas de um total de 25 anos, no meu caso. Mas não posso negar que alguma coisa nessa garota me intrigou. E não foram apenas os cabelos loiros e longos, os olhos grandes e verdes, os lábios grossos e convidativos ou outros atributos que prefiro não mencionar. Foi algo além.

O mais irônico é que vim para Buenos Aires, em grande parte, para fugir de uma mulher. E, nem uma semana após a minha chegada, já estou atrás de outra. Não, não estou atrás de outra. Mas gostaria de estar. No entanto, não posso alimentar essa vontade de descobrir o que é esse “algo além”. Seria loucura. A garota é namorada do cara que acha que é meu melhor amigo na cidade. E, como se isso já não fosse o suficiente, eu não faço ideia de como encontrá-la. A não ser que… bem, ela mencionou que trabalha em um café na rua Lavalle, no centro de Buenos Aires.

Capítulo 17

Sarah

Abro os olhos e, em seguida, os fecho quase involuntariamente. A luz da manhã faz parecer que minha cabeça irá explodir e, então, eu me lembro da noite passada e sei que vou enfrentar a pior ressaca dos últimos tempos. Permaneço na cama, com os olhos fechados, pelos minutos seguintes, até que o telefone do quarto interrompe o silêncio. É o concierge do hotel, dizendo que tem uma visita para mim. A primeira pessoa que me vem à mente é o Douglas. No entanto, se ele não deu notícias até agora, quase um mês depois da nossa briga, por que se importaria em vir até Buenos Aires? Enquanto me troco, com pressa, penso ainda na Rebeca e no meu pai, mas sei que eles não viriam sem avisar. Por último, percebo que tenho esperanças de que seja o Nicolas, o que não faz nenhum sentido, já que mal o conheço e ele nem sabe onde eu “moro”. Quando abro a porta do quarto, o óbvio está parado à minha frente: Leo.

– Posso entrar?

– Claro – respondo, apesar do medo de ficar a sós com ele.

– Queria me desculpar – penso em fingir que não sei o que ele está falando, mas apenas digo que tudo bem – não sei o que deu em mim, eu perdi o controle.

– Está tudo bem. Mas isso não quer dizer que vamos voltar a sair.

– Eu sei. E eu não vim aqui para pedir por isso – ele diz, e não parece o homem que segurou o meu pulso com tanta força há apenas dois dias – eu só queria que você soubesse que esse não é o meu melhor momento.

– Eu entendo, Leo. Está tudo bem, mesmo – repito, com pressa que ele vá embora. Mas ele se senta na beirada da minha cama desarrumada.

– Há quase dois anos, a Patrícia terminou tudo comigo, disse que eu só pensava em trabalhar. E eu sei que é um clichê ridículo, mas eu só percebi o quanto a amava quando a perdi. Em poucos meses, ela estava casada e feliz com outro – ele diz e eu assinto, dando permissão para que continue – desde então, nenhuma mulher chamou a minha atenção de verdade… até aquele dia, na Plaza de Mayo. Confesso que olhei para você porque o seu cabelo parece o da Patrícia. Mas as semelhanças acabam aí. Quando falei com você, adorei o seu jeito e pensei que, de repente, nem tudo estava perdido para mim.

– Mas, talvez, você tenha se precipitado… – digo, em tom suave.

– Sim. Eu acho que quis mostrar para mim mesmo que eu podia ser melhor do que fui para ela. Mas acho que exagerei na dose e envolvi você da maneira errada.

– As coisas foram rápidas demais, Leo. Eu nunca te disse, mas eu acabei de sair de um relacionamento longo e não estou pronta para algo sério por enquanto.

– Eu já achava que você não estava no mesmo ritmo que eu – ele praticamente me interrompe, como se não tivesse ouvido o que eu disse – mas, quando vi a forma que você olhou para o Nicolas, fiquei louco. Eu fui mais gentil do que nunca e não foi o suficiente.

– Ser bom nem sempre é o suficiente – eu respondo, lembrando do conselho da minha mãe.

– E, então, eu tive a brilhante ideia de te apresentar ao Nicolas e tudo o que eu esperava ver nos seus olhos enfim apareceu. Mas por causa dele, não minha.

– Leo, você está imaginando coisas. A gente veio da mesma cidade e…

– Não, Sarah. Eu sei o que eu vi – ele me interrompe, novamente, mas sua voz é suave – e eu fiquei muito bravo com você, mas mais ainda comigo. Por achar que seria fácil assim.

– Eu entendo – digo, com sinceridade.

– E eu vim aqui para te explicar tudo isso. Entendo que as coisas tenham dado errado entre nós, mas não quero que você fique pensando que sou aquilo que mostrei na segunda-feira.

Eu digo que acredito nele, porque realmente acredito, e ele se levanta para ir embora. Quando chega à porta, ele se vira para mim e eu enxergo novamente o loiro, alto e bonito que vi pela primeira vez na praça e não o homem possessivo e temperamental que conheci dias antes. Quando sei que ele já foi embora, começo a pensar em como esta situação é irônica: somos donos de dois corações partidos, buscando por nossos ex-namorados em lugares onde nunca iremos encontrar: em outras pessoas. E estamos de volta ao ponto de partida.

Estou na banheira há mais de meia hora, pensando se devo ou não ligar para a Rebeca. Temos nos falado por e-mail, mas sei que ela está chateada comigo, pois sempre dá a entender que estou fugindo dela. E eu realmente estou. É difícil não conversar sempre com ela e/ou o Lipe, ainda mais com tudo o que tem acontecido, mas, ao mesmo tempo, faz parte da minha missão de me tornar auto-suficiente. Sei que isso a deixa louca porque é como se ela estivesse pagando caro pelos próprios conselhos. Quando comecei a namorar o Douglas, pouco tempo depois de terminar com o André, a Rebeca começou a me dizer que eu poderia ficar bem sozinha. Ela tinha medo que eu tivesse aceitado o pedido do Douglas por não saber como me comportar sem alguém ao meu lado. “Amiga, você sabe que é auto-suficiente”, ela repetia quase todos os dias. Na maior parte do tempo, eu ficava de saco cheio, mas, no fundo, eu realmente me sentia auto-suficiente quando ela dizia isso. Logo ela entendeu que eu realmente gostava do Douglas e que isso não me tornava dependente de alguém além de mim mesma. Até que tudo mudou.

Antes de decidir se ligo ou não para a Rebeca, o telefone do meu quarto toca novamente. Sei que, se fosse ela, ligaria no meu celular, mas não consigo não achar que, de alguma forma, ela ouviu os meus pensamentos. Levanto, enrolo uma toalha no corpo e, quando atendo o telefone, sei que, obviamente, a Rebeca não tomou nenhum conhecimento do meu dilema.

– Sarah? – diz uma voz que não reconheço.

– Sim.

– É a Juliana, do café.

– Ah, olá, como vai? – respondo e tenho medo do que vem a seguir.

– Tudo ótimo. O Leo passou aqui agora pouco e me explicou o que aconteceu na segunda-feira. Gostaria de saber se você quer retomar o seu emprego.

– Com certeza – digo sem titubear.

– Ótimo. Vejo você amanhã, às 8h.

Desligo o telefone e sorrio para mim mesma. Porque nada me faria mais feliz agora do que ter com o que ocupar a minha cabeça.

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