#LivroNamanita – Parte 3

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Capítulo 9

Mais uma vez, o Leo me acordou com uma mensagem. Mas, dessa vez, eu meio que já estava esperando.

Leo: bom dia. Espero que tenha gostado de ontem tanto quanto eu.

Sarah: foi ótimo!

Leo: quando podemos repetir?

Sarah: quando você quiser.

Leo: eu só entro no trabalho à tarde na terça-feira. Que tal um café às 10h?

Sarah: combinado :)

Repetir o encontro com o Leo não era exatamente algo que eu esperava ansiosamente. Mas, dispensar homens, ainda mais os bonitos e legais como ele, nunca foi o meu forte.

O café é pertinho do hotel em que estou (eternamente) hospedada, na rua Lavalle, no centro de Buenos Aires. Quando chego lá, às 10h02, o Leo já está sentado em uma mesa na calçada, com o sol batendo de leve nos cabelos, que estão mais loiros do que nunca. Quando me vê, ele levanta da cadeira para me receber e, quando me lembro do quão bonito ele é, fica mais difícil pensar em como sair dessa situação. Conversamos sobre amenidades e, quando surge aquele silêncio constrangedor, Leo o interrompe com prazer, como se estivesse esperando por ele.

– E aí, gostou do café?

– Adorei, super charmoso.

– Que bom, porque é aqui que você vai trabalhar.

– Mentira! – respondo e tento disfarçar a vontade de bater nele.

– Falei com a dona Juliana e ela topou na hora.

– Nossa, que ótimo! E quando eu começo?

– Amanhã. Vem cá, vou te apresentar a ela.

– Então você é a famosa Sarah – a dona Juliana diz em um portunhol carregado, pior que o do Leo.

– Famosa? – respondo e dou risada.

– O Leo é só elogios sobre você. Praticamente me obrigou a contratá-la – ela diz enquanto pisca com o olho esquerdo, e sei que está apenas brincando.

– Espero que eu possa corresponder às expectativas.

– Não tenho dúvidas de que pode – o Leo diz, e eu sei que a afirmação tem duplo sentido.

O café se transforma em almoço e as surpresas não param no fato de que agora eu tenho um emprego.

– Você tem programa para sexta-feira?

– Acho que não – quero dizer que sim, mas ele sabe que não conheço mais ninguém na cidade.

– Que bom. Meu amigo, aquele que ajudei com as burocracias da migração, chega na quinta. Queria que você o conhecesse, afinal, ele é o responsável por estarmos juntos – a palavra “juntos” me dá um nó na garganta, mas consigo disfarçar.

– Ah, seria ótimo! – minto porque, mais uma vez, não posso falar a verdade.

E quando eu termino de pronunciar “ótimo”, sei que me meti na maior enrascada da minha vida. Estou “junto” com um argentino que, além de lindo, gentil e generoso, me arranjou um emprego ilegal e acabei de aceitar conhecer o melhor amigo dele. O pequeno detalhe é que eu definitivamente não estou apaixonada, enquanto ele parece se encantar mais a cada dia.

Quando chego ao hotel, quero conversar com alguém sobre o fato de ser incapaz de falar “não” para o Leo. A Rebeca ainda não me respondeu aquele e-mail, então, não quero mandar outro. Só me resta uma opção.

Mãe,

Sei que as minhas primeiras cartas para você não disseram muito a meu respeito. Mas, nesse momento, você é meio que minha única opção, por isso, resolvi escrever de novo. Eu conheci esse argentino, o Leo, e pensei que ele poderia ser uma forma eficiente (e bem bonita) de esquecer o Douglas. Só que acho que descobri da pior maneira que até podemos substituir um homem por outro, mas nunca podemos substituir o que sentimos – e eu amava amo o Douglas, você sabe, e também o adorava. Só que agora não sei o que faço. Não é como se eu pudesse voltar para ele, isso não é uma opção. Mas também não posso simplesmente largar o Leo, ainda mais agora que ele me arranjou um emprego. O que será que você faria?

Sarah

Termino de escrever e continuo sentada à mesa do quarto, observando a rua através da janela. E, de repente, eu sei o que minha mãe faria se estivesse nessa situação. Porque ela já esteve e eu também. Um pouco antes de eu terminar com o André, meu primeiro namorado, para ficar com o Douglas, eu viajei com a minha mãe para Montevidéu, no Uruguai, em mais uma das tentativas do meu pai de superar os “momentos delicados”. Mas, daquela vez, devo admitir, veio na hora certa. Eu estava extremamente confusa e sem saber o que fazer porque o André era o meu namorado dos sonhos, mas o Douglas não saía da minha cabeça. Eu nunca cedi à tentação, mas, para mim, a traição não era apenas uma coisa física. Era também – e talvez muito mais – emocional e eu já havido ido longe demais. Contar para a minha mãe o que estava acontecendo não estava nos meus planos, mas foi impossível esconder.

– O que você tem? – ela perguntou durante um almoço.

– Nada.

– Sarah, eu te conheço.

– Não é nada.

– Eu sei que não conversamos tanto quanto deveríamos. Mas quero que saiba que pode contar comigo – eu sabia que isso tudo era clichê. Mas era o clichê que eu precisava ouvir.

– Eu acho que não gosto mais do André – praticamente cuspi as palavras.

– Como assim?

– Tem esse menino, o Douglas, ele faz design na faculdade e começamos a conversar sobre livros e ficamos amigos, só que agora eu acho que eu estou gostando dele muito mais do que deveria e acho que ele também gosta de mim – eu disse, ignorando vírgulas e pontos.

– Ah, meu bem, isso é normal.

– Não, mãe, você não tá entendendo. Eu gosto do André, mas o Douglas… é diferente de tudo.

– Eu estou entendendo, sim – ela respondeu com a maior calma do mundo – o que eu digo que é normal é se apaixonar por outro. Você só tem 19 anos…

– Tá, mas o que eu faço?

– Sabe, quando eu tinha a sua idade, também tinha um namorado incrível e também me apaixonei por outro. Quando percebi que isso estava acontecendo, pedi um tempo para pensar e me surpreendi quando descobri que não estávamos bem como eu achava.

– E o que você fez?

– Eu terminei com ele e comecei a namorar o outro, que, por acaso, era seu pai – ela respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia e natural do mundo.  

– Você faz parecer tão simples…

– Mas é simples, Sarah. Se você acha que não gosta mais do André é porque não gosta. Se esse Douglas conseguiu se infiltrar no relacionamento de vocês é porque existem buracos que você talvez se recuse a enxergar.

– Mas o André é tão bom pra mim…

– Eu sei que ele é. Mas ser bom não quer dizer ser o melhor.

Minha mãe estava certa. Realmente não conversávamos tanto quanto deveríamos, mas a verdade é que, sempre que eu precisava, ela tinha os melhores conselhos para me dar. Uma semana depois de voltar da viagem, eu reuni a coragem que precisava para terminar com o André. Não foi fácil, mas eu fui firme porque sabia o que estava fazendo e sabia que era o melhor para mim e para ele. E, então, ao afastar a lembrança da minha cabeça, a pergunta que me assombrou na outra noite se multiplicou por dois: onde está a menina que conquistou um garoto por ler um livro? E onde está a mãe que tinha os melhores conselhos do mundo?

Capítulo 10

Eu só tive dois empregos na vida e nenhum deles foi em um café. Por isso, antes de ir para o meu primeiro dia de trabalho em Buenos Aires, eu estava tão nervosa quanto ficaria se fosse assumir um cargo de diretoria ou presidência. Essas coisas de cozinha, sem mencionar o fato de ter que falar espanhol, nunca foram o meu forte e eu já sinto o peso das expectativas da dona Juliana sobre os meus ombros. Mas, para a minha alegria e alívio, descubro que serei apenas a garçonete, que pega os pedidos dos clientes e leva os pratos até as mesas. O clima no café é tranquilo, os outros funcionários me tratam bem e me orientam com a maior paciência do mundo. A dona Juliana, então, é um amor de pessoa e isso só me faz faz lembrar do quanto o Leo tem sido ótimo para mim – e como a recíproca não é exatamente verdadeira.

– E, então, você e o Leo? – dona Juliana pergunta, com um olhar malicioso.

– Somos apenas amigos.

– É mesmo? Não foi o que ele me disse.

– O que ele disse para a senhora? – respondo, tentando disfarçar o choque.

– Disse que vocês estão juntos – e lá estava a palavra que mais me atormenta nas últimas horas.

– Ah, não estamos juntos de verdade. Estamos saindo, nos conhecendo. Mas ele tem me ajudado muito, não sei como agradecer.

– Se ele é bom para você, apenas seja boa para ele. É o suficiente – ela diz e, com um sorriso enigmático, deixa a cozinha dos funcionários.

Mãe,

Hoje comecei a trabalhar no tal café e não foi tão ruim quanto eu pensava. Anotei só um pedido errado e troquei as mesas apenas três vezes. O pessoal que trabalha lá disse que é normal. Mas, a cada intervalo durante o expediente, as opções do cardápio, que eu ainda estou decorando, davam lugar ao à culpa que eu sinto por provavelmente não estar apaixonada pelo Leo. Enquanto isso, parece que ele pensa que vamos nos casar. Ok, casar é exagero, mas o cara já está dizendo que estamos “juntos”. E quer que eu conheça o amigo dele que é o responsável por estarmos “juntos”. E também já me perguntou várias vezes se quero ficar em Buenos Aires para sempre, mas a verdade é que ele nem sabe o real motivo pelo qual vim parar aqui. Antes de eu terminar com o André, você disse que “ser bom não quer dizer ser o melhor” e eu acho que isso se aplica ao Leo. Mas eu mal o conheço e sinto que, antes de tomar uma decisão sobre o que fazer sobre tudo isso, preciso descobrir se ele é apenas “bom” ou se é o “melhor”. E se ele não for nenhum dos dois, eu posso abrir mão do meu emprego. Afinal, não é como se o papai fosse parar de pagar pelos meus gastos. Isso sempre foi o que ele fez de melhor.

Sarah.

O trabalho no café é frenético e não sobra espaço para pensar muito na vida – ou no Douglas. A quinta e a sexta-feira passam voando e eu mal tenho tempo também para pensar no que vou vestir para encontrar o Leo. Quando acaba o meu expediente, às 18h, literalmente corro para o hotel e entro no chuveiro. Enquanto tomo banho, repasso meus vestidos e sapatos na memória e escolho um que – impossível não lembrar – o Douglas costumava adorar: vermelho, acinturado e com a saia rodada. Ele ameaça se manifestar em forma de lembranças, mas, dessa vez, eu agito as mãos no ar e, como em um passe de mágica, consigo me livrar delas. É quando o Leo me telefona para dizer que já está à minha espera.

– UAU! – é o que o Leo diz quando me vê e dá pra saber que ele está sendo sincero.

– E aí, tudo bem? – respondo e sorrio, sem graça.

– Tudo ótimo. Agora, melhor – ele diz e meu sorriso desaparece porque odeio esses clichês.

– Onde vamos?

– Vamos a um bar em Puerto Madero – NÃO NÃO NÃO NÃO. É tudo o que consigo pensar – tá tudo bem?

– Sim, sim, tudo ótimo – minto porque não posso dizer a verdade. E não posso fugir.

– Então hoje você vai conhecer o “culpado” por estarmos juntos – preciso me controlar para não revirar os olhos quando ele diz “juntos” – o nome dele é Nicolas, mas o chamo de Nic. Ele é um cara bem bacana, acho que vai gostar dele.

– Com certeza – eu digo porque não sei mais o que poderia dizer.

Quando chegamos ao bar, nem parece que estamos em Puerto Madero. Por ser de noite, aquele não parece o cenário de um dos momentos mais românticos da minha vida. Se eu soubesse que seria tão fácil, não teria demorado tanto para vir até aqui. O Nicolas/Nic ainda não está lá, então sentamos apenas os dois em uma mesa para quatro. Mal a minha bunda toca na cadeira e o Leo já está pegando na minha mão e querendo me beijar. Estou começando a achar que ele não é o “bom” e nem o “melhor” e até os olhos verdes e o cabelo loiro – sem falar em outros atributos – dele me parecem menos atraentes. Vinte e cinco minutos após o horário combinado, ouço o Leo dizer “olha só quem chegou” e se levantar para cumprimentar o Nicolas/Nic.

Quando me viro, percebo que não perdi meu tempo pensando em como seria a aparência do “culpado por estarmos ‘juntos’”, mas eu sei que o que os meus olhos veem é melhor do que qualquer coisa que eu poderia ter imaginado. Nicolas/Nic é alto e magro, mas na medida certa. Os olhos parecem não se decidir entre verde e mel e são emoldurados por cílios longos e curvados, mas não femininos. E os cabelos são a melhor parte: perdidos entre o loiro e o castanho, têm a cor do outono. Registro todas essas características entre o segundo que pouso o olhar nele e o momento em que ele sorri para me cumprimentar. E quando a mão dele toca a minha, eu sei que estou mil vezes mais perdida do que um minuto atrás.

Capítulo 11

Eu sempre fui uma garota de muitas paixões. Desde muito antes de dar meu primeiro beijo, eu já colecionava uma lista de garotos dos quais havia “gostado”. Todos acabavam da mesma forma, substituídos por novos, mas, desde essa época, a “arte” de se apaixonar se tornou um mistério que me fascina. Não é incrível que, entre tantas pessoas no nosso universo e no mundo afora, a gente se encante tanto com apenas uma? E mais incrível ainda é que, com sorte, algumas vezes acabamos correspondidos. Não importa se a paixão durou um dia ou 10 anos ou se se transformou em amor ou ódio. Importa é que existiu e, por isso, eu sempre me perguntei: qual a equação que leva à essa sensação, que pode ser grande ou pequena, duradoura ou efêmera, mas nunca ignorada?

Toda vez que eu percebia que estava apaixonada, tentava descobrir qual havia sido o momento em que a paixão aconteceu. Um olhar, um gesto, uma palavra, um sorriso, um rosto bonito… o que havia me levado à ela? Na maioria das vezes, era fácil saber. Porque a paixão pode nascer de um olhar, um gesto, uma palavra, um sorriso ou um rosto bonito. Mas o amor é a soma de tudo isso e mais um pouco. Ou muito mais.

Capítulo 12

O que fez eu me apaixonar pelo Douglas não foram os cabelos pretos que emolduravam o rosto angular perfeitamente ou os olhos castanhos e profundos. Também não foi o vício em livros ou o interesse quase aleatório por mim. Foi a forma despretensiosa e, ao mesmo tempo, corajosa com que ele veio falar comigo. A minha paixão por ele também não nasceu na primeira vez em que ele sentou ao meu lado, sem que eu sequer percebesse. Ela veio, aos pouquinhos, ao longo daquele mês em que eu fiz questão de notar que ele se sentava ao meu lado todos os dias e dividia comigo a paixão – pelos livros e por mim.

– Sabe, nesse momento, eu tenho dois desejos: um possível e um impossível – ele disse, com um olhar malicioso.

– É mesmo? Quais?

– O possível é conhecer o El Ateneo, em Buenos Aires…

– E o impossível? – eu perguntei, com o coração acelerado.

– Que você fosse comigo.

– Por que impossível?

– Porque seu namorado não iria gostar.

– É… eu acho que, se eu tivesse namorado, ele não iria gostar mesmo – falei, mas não tive coragem de fitá-lo nos olhos.

– Como é? – depois de segundos de silêncio, ele reagiu, incrédulo.

– Eu terminei.

– E por que não me contou?

– Sei lá, o assunto não surgiu e eu não quis parec…

Antes que eu me desse conta, antes que eu pensasse em ficar constrangida pela revelação que acabara de fazer, o Douglas já havia me envolvido nos braços e me beijava. E, de repente, os dois desejos dele se tornaram possíveis.

O Leo era o homem certo para se apaixonar à primeira vista. Indiscutivelmente bonito, sabia que agradava aos olhos da maioria e seu charme vinha exatamente daí. No entanto, para mim, a beleza dele não foi o suficiente para despertar a paixão. Nem o interesse por mim ou a generosidade. E muito menos a mania de dizer que estávamos “juntos”. Quando ele me beijou, não foi ruim, mas também não se pode dizer que foi bom. Foi ok. Mas, por alguma razão que eu não estava disposta a descobrir, aquele homem tão bonito e charmoso havia se apaixonado por mim praticamente à primeira vista. E era quase seguro dizer que o sentimento já havia evoluído. Depois que o Nicolas sentou à mesa e eu superei a vergonha por provavelmente ter parecido louca quando nos cumprimentamos, descobrimos que não tínhamos apenas o Brasil em comum: morávamos os dois em São Paulo e em bairros próximos – eu em Pinheiros e ele, na Vila Madalena. A partir daí, a conversa começou a se encaminhar, e parecia fluir até demais para o gosto do Leo.

– Então, vejo que vocês se deram bem – disse o Leo depois de pouco mais de uma hora, e eu arriscaria dizer que vi uma camada de arrependimento em seu olhar.

– Acho que mesmo que a Sarah não fosse São Paulo, teríamos nos dado bem – o Nicolas respondeu e sorriu. Achei ousado.

– O Nicolas me faz sentir ainda mais saudades do Brasil – eu disse. E também achei ousado.

– Bom, vou ao banheiro, enquanto isso, vocês podem conversar em paz – o Leo falou e eu pensei ter sentido certa ironia em seu tom de voz. Mas eu e o Nicolas não nos importamos e fizemos exatamente o que ele sugeriu: conversamos em paz.

– E, então, o que te trouxe “acá”? – o Nicolas perguntou.

– Nada específico – menti, mas, pela primeira vez, quis dizer a verdade – acho que é minha última chance de fazer uma loucura na vida. E você?

– Eu vim como correspondente internacional.

– Uau, que chique! Então você é jornalista.

– Sou. E você, o que faz?

– Sou garçonete. Quer dizer, sou formada em moda, mas, aqui, trabalho num café na rua Lavalle, no centro.

– Versátil – ele disse e eu pensei, por um momento, que estava flertando comigo – Pretende se mudar de vez para Buenos Aires?

– Ainda não sei. Só tenho visto de turista, então, teria que ir atrás das burocracias. Mas acho que vou acabar voltando ao Brasil. E você? – parecia bobo terminar quase todas as frases com “e você?”, mas eu não conseguia parar.

– Eu estou em período de experiência, por enquanto. Também não sei quanto tempo fico por aqui.

Antes que pudéssemos mudar de assunto ou encarar um silêncio constrangedor, o Leo voltou do banheiro com uma cara ainda mais infeliz do que antes.

– Preciso ir, amanhã acordo cedo – disse.

– Mas amanhã é sábado, cara – o Nicolas respondeu, em tom descontraído.

– É, mas eu preciso rever os detalhes de um caso – o Leo disse, ríspido – Você vem ou fica? – e dirigiu o olhar a mim.

– Vou, claro – quão deselegante eu seria se fizesse o que queria e ficasse?

Me despedi do Nicolas e não pude deixar de sentir uma ponta de tristeza por não termos trocado números de telefone. Mas qual seria o sentido disso, não é mesmo? O Leo permaneceu calado durante quase todo o caminho, até revelar que não estava me levando de volta ao hotel.

– Quero que conheça minha casa – “mas eu não quero”, pensei.

– Não pode ser outro dia? Estou cansada…

– Você não parecia cansada no bar – sério, quem ele pensava que era?

– Eu só estava tentando ser legal.

– Então tente ser legal agora – ele disse, praticamente deixando o portunhol de lado, e comecei a ficar com medo.

– Não, Leo, escuta. Eu quero conhecer sua casa, mas eu estou realmente cansada e…

– Tudo bem, Sarah, eu te levo para a sua casa – ele me interrompeu, agressivo – ah, não, espere, você não tem casa, tem?

– Não tô entendendo. O que tá acontecendo?

– Nada. Esquece.

– Não, me diz. Eu não mereço ser tratada assim e nem saber o porquê.

– Não é nada, sério. Me desculpe.

Eu não sou do tipo que aceita qualquer pedido de desculpa, mas pensei que discutir com o Leo só o encorajaria a pensar que realmente estávamos “juntos”. Então, preferi fingir que estava tudo bem, que não tinha importância. No entanto, quando chegamos à porta do hotel, ele começou a me beijar e a passar as mãos por lugares em que eu não havia permitido. Para não piorar a situação, não pedi que ele parasse, apenas retirei, gentilmente, suas mãos, dei-lhe o melhor beijo de boa noite que consegui e saí do carro. Se o que o Leo queria com as cenas de ciúme e “assédio” era demarcar seu território, ele conseguiu exatamente o oposto.

Capítulo 13

Acordei no dia seguinte com o meu celular tocando. Fiquei com medo que fosse o Leo, mas era só a Rebeca. Queria manter a distância da minha vida no Brasil, mas eu sabia que não podia fugir para sempre – principalmente da Rebeca – e também tinha os meus interesses. Em poucos minutos de conversa, conto para ela tudo sobre a noite da sexta-feira, mas não cito o quanto conhecer o Nicolas mexeu comigo. Porque nem eu mesma sei e, na verdade, acho que não quero pensar nisso. Mas, como sempre, a Rebeca capta cada detalhe e, mais uma vez, assume o que eu não quero por mim.

– Tá, esse Leo é um escroto, sinceramente – ela diz, com ar de revolta, depois que termino de contar toda a história – mas e esse tal de Nicolas, hein?

– O que tem?

– Sarah, eu te conheço. Você curtiu o cara.

– Claro que não, ele é amigo do Leo.

– E você não tá nem aí pro Leo. Então, que diferença faz?

– Ué, não posso simplesmente sumir da vida do Leo e ficar com o Nicolas. Até porque 1. eu nem sei se ele gostou de mim; 2. eu não tenho como falar com ele e não é como se eu pudesse pedir para o Leo.

– Mas você precisa despachar esse Leo logo. Chega, ele é babaca.

– Como? Ele me arranjou um emprego.

– E um namorado.

– Claro que não, só um emprego – respondo e dou risada – por enquanto.

– Arranja uma desculpa, diz que terminou o namoro há pouco tempo, o que nem é uma desculpa, e que não tá preparada para um relacionamento – a Rebeca sugere – mas não sem antes tentar descobrir o sobrenome do tal Nicolas, pra gente procurar no Facebook.

– Gente, por mais que ele seja escroto, eu não posso usar o cara assim, né?

E, então, eu tenho a certeza de que o Leo não é o “bom”, nem o “melhor”.

O fim de semana passou e o Leo não deu notícias, o que achei ótimo porque não queria mesmo falar com ele. É apenas o meu quarto dia no café, mas sinto que meu espanhol já melhorou e que começo a dominar algumas tarefas, como anotar os pedidos com mais rapidez. Às vezes, não lembro quais são os números das mesas, então, memorizo uma peça de roupa ou uma característica física marcante do cliente que fez o pedido e, assim, não erro na hora de entregá-lo. No começo, achei que seria difícil trabalhar no café porque é diferente de tudo o que já fiz na vida. Mas, preciso confessar que, mesmo com algumas trapalhadas, estou achando divertido, além de gostar do fato de que me distrai de todo o resto.

Às 18h13, termino de atender os meus últimos clientes do dia e passo na cozinha dos funcionários para deixar meu avental. Dizer que estou feliz é exagero, mas me sinto satisfeita por estar fazendo (direito) algo que possa ser considerado útil. Me despeço da dona Juliana e, com um sorriso discreto, começo a andar em direção à saída. No entanto, para minha infelicidade, assim que piso na rua, sinto uma mão segurar o meu pulso e sei que é o Leo.

– Sentiu minha falta? – ele pergunta e eu quero responder que não.

– Você sumiu.

– Queria ver se você ia me procurar.

– Por que eu deveria?

– Porque estamos juntos – ele diz, em uma combinação entre pergunta e afirmação.

– Olha, Leo, a gente não tá junto.

– Como é?

– É, a gente só tava saindo, se conhecendo.

– Não está mais?

– Por mim, não.

– Ah, então eu acolho você, te arranjo um emprego e é isso que eu recebo?

– Eu não pedi – sei que peguei pesado, mas eu não suporto que joguem coisas na minha cara. Ele fica em silêncio – pode soltar meu pulso?

– Você gostou dele – ele aumenta o volume da voz.

– De quem? – me faço de desentendida.

– Do Nicolas.

– Só achei ele legal.

– Mentira.

– Verdade.

– Sua…

E, antes que o Leo possa dizer a palavra desagradável que estava prestar a sair de seus lindos lábios, a dona Juliana sai do café. E eu perco o meu emprego com menos de uma semana de experiência. A princípio, eu não entendo porque perdi o meu emprego. Então, me desvencilho do Leo, corro atrás da dona Juliana e pergunto o que aconteceu.

– Você não pode deixar que sua vida pessoal interfira no seu trabalho – ela responde, com um tom de voz ríspido que eu nunca pensei que fosse capaz de usar.

– Mas eu nem sabia que ele estava me esperando – eu digo e não sei por que estou me justificando. Não é o tipo de coisa que costumo fazer.

– Não tolero escândalos no meu café, muito menos dos meus próprios funcionários.

– Me desculpe, dona Juliana, mas ele simplesmente agarrou o meu braço e eu não tive como me soltar.

– Eu também peço desculpas, Sarah, mas não tolero escândalos no meu café – ela repete. Entendo que não tenho como fazê-la mudar de ideia, então, me desculpo mais uma vez e vou embora.

Quando volto para a rua, olho para os dois lados e percebo que o Leo já foi. Acho covarde, mas também acho bom porque provavelmente eu acabaria com ele. Enquanto volto para o hotel, me sinto um pouco sem rumo, como se tivesse perdido um emprego que foi meu por anos. Ao mesmo tempo, me sinto boba, afinal, foram apenas quatro dias e não é como se eu quisesse me tornar gerente do café. Mas não estou acostumada com esse tipo de fracasso. Me sinto envergonhada e não tem ninguém com quem eu queira falar. Ou quase ninguém.

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