#LivroNamanita – Parte 2

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Capítulo 4

Antes de pedir o tal “remis” no aeroporto, me flagro parada no meio da área de desembarque, observando o pedacinho do Río de la Plata e céu azul entre o abrir e fechar da porta automática. Minha vontade é atravessar a avenida, sentar nos banquinhos à margem do rio e ficar ali por quanto tempo tivesse vontade. Mas acho que, com duas malas grandes e uma mochila enorme, não seria uma tarefa fácil, tampouco uma atitude inteligente. No entanto, quando lembro que terei muito tempo para contemplar a paisagem, desisto da ideia e a vontade de me esparramar na cama espaçosa e macia do hotel vence a de admirar o rio em um banquinho duro e desconfortável.

Quando entro no remis e o motorista começa a dirigir em direção ao centro da cidade, onde eu ficaria hospedada, é como voltar no tempo. Um tempo em que nem tudo estava bem, mas com certeza estava melhor. Quando completamos um ano de namoro, eu e o Douglas estávamos de férias e viemos para cá. Ele escolheu a capital argentina porque não tinha muito dinheiro, mas queria sair do Brasil. E eu concordei porque nunca negaria um convite para Buenos Aires e sempre quis que ele conhecesse um dos meus lugares preferidos no mundo. Passamos uma semana na cidade e, no penúltimo dia, Douglas pediu que eu o levasse até o local que eu mais gostava. Fiquei entre os bosques de Palermo e Puerto Madero, mas escolhi o segundo porque era mais perto do hotel.

– Calma, não é o que você está pensando – disse ele, sorrindo, enquanto tirava do bolso uma caixinha de veludo azul.

– Não estou pensando nada – menti – mas não importa, sei que vou gostar – respondi, dessa vez com sinceridade, embora uma parte de mim estivesse levemente desapontada.

– Eu pensei em pedir você em casamento durante a viagem, mas cheguei à conclusão de que ainda é cedo. A gente mal fez 20 anos… – justificou – de qualquer forma, eu queria você soubesse que só não coloquei a ideia em prática porque eu tenho certeza de que tempo é uma coisa que nunca vai faltar para nós dois.

– Mas não pre… – eu comecei a responder, mas ele colocou o dedo sobre os meus lábios, uma maneira delicada de dizer “cala a boca que eu tô falando”. Em seguida, ele abriu a caixinha, que guardava duas alianças prateadas com nossos nomes gravados do lado de dentro. Primeiro, ele me entregou um pequeno envelope e, depois, colocou a aliança no meu dedo anelar da mão direita.

– Quero que você leia a carta quando eu não estiver por perto, tudo bem? – assenti – é só um bilhete, na verdade, nada demais.

Coloquei a aliança no dedo dele também e sorri. Sim, quando vi aquela caixinha azul, pensei que seria pedida em casamento, com direito a por do sol e tudo o mais. Mas o Douglas tinha razão, não faria sentido ficarmos noivos aos 20 anos de idade, com 1 de namoro e sem terminar a faculdade ou ter um emprego decente. Com esses pensamentos na cabeça, relaxei e admirei o brilho prateado que a luz do sol, já quase fraca, conferia aos cabelos pretos dele. “Que sorte eu tenho”, pensei, e os cantos da minha boca subiram sem que eu percebesse. Na primeira oportunidade que tive, li a carta e cheguei à conclusão de que “sorte” era uma palavra pequena para mim.

Sarah,

Sei que as coisas não têm sido fáceis pra você ultimamente e gostaria de poder oferecer muito mais do que um par de alianças. Mas queria que você soubesse que, nesses dois anéis, existe mais do que um compromisso. Existe uma promessa. Quando estiver triste ou se sentindo desamparada, olhe para o seu dedo e lembre-se de que estou sempre aqui pra você. E sempre estarei.

Um beijo,

Douglas

Uma lágrima escapou dos meus olhos e manchou a palavra “sempre”. Pela primeira vez em muito tempo, ou simplesmente pela primeira vez, eu senti que não estava sozinha, que tinha com quem contar. O Douglas não imaginava, mas aquele simples bilhete, e agora as alianças, significavam até mais do que um pedido de casamento poderia significar: eram a promessa de um amor que duraria para sempre. Naquele dia, nem passou pela minha cabeça que, dali dois anos, eu estaria de volta a Buenos Aires, mas sem aliança, sem promessa, sem amor eterno, sem Douglas. Com essas lembranças, originalmente felizes, transformadas em tristes, fui jogada de volta à realidade. E ela me mostrava que eu estava sozinha.

Capítulo 5

Sozinha, faço o check-in no hotel em frente à Plaza de la Republica e subo para o meu quarto o mais rápido possível. Pela janela, as luzes da avenida e as pessoas reunidas na praça me lembram de que a vida também é feita de presente e não apenas de memórias. Mas como eu posso parar de pensar no passado se tudo o que eu faço parece me levar de volta a ele? Até mesmo relaxar na banheira me faz lembrar de como a pele do Douglas ficava enrugada, de tanto tempo que ele ficava debaixo d’água. A recordação me faz sorrir, com mais tristeza do que saudade, e eu decido que, apesar de sentir falta do Lipe e da Rebeca e de ter assegurado a eles que manteria contato, é melhor eu me manter o mais longe possível da minha vida no Brasil. Porque ela representa, de certa forma, o meu passado e lidar com essas lembranças já é difícil o suficiente.

Mas, antes que eu possa focar nos dias que ainda virão, lembro que as pessoas do meu “passado” precisam saber se cheguei viva ou não. Saio da banheira na mesma hora e, apenas com a toalha enrolada no corpo, corro até o quarto para pegar o celular. Entro de volta na água, mando um Whatsapp para o meu pai e para a Rebeca e, depois, sinto uma pontada de ciúme e até decepção por imaginá-la comendo pizza e tomando cerveja com o Lipe, como costumávamos fazer nas noites de sábado. E então, eu percebo que a vida “sem mim” pode não ser a mesma, mas continua – e que isso também se aplica ao Douglas.

A água já deu uma esfriada, mas ainda não quero terminar o banho. Abro o ralo para esvaziar um pouco a banheira e, ao mesmo tempo, ligo a torneira de água quente. Olho para a parede de azulejos brancos à minha frente, onde estão pendurados dois roupões, e até mesmo esse detalhe me chateia. Sabia que seria difícil lidar com as lembranças que Buenos Aires me traz, mas não vim para cá por acaso. Buenos Aires é o lugar que EU amo e essa cidade é muito mais minha do que do Douglas. Sei que é idiota pensar dessa forma e que, no fim, a cidade não é minha nem dele. Mas achei que, se eu viesse para cá sozinha, seria capaz de exorcizar as minhas lembranças. Pensei que seria mais fácil. Que eu poderia reescrever a história com as minhas novas experiências. Talvez funcione, mas eu não vou descobrir isso tão cedo e isso será mais como um tratamento de choque.

O clichê diz que devemos tirar lições dos lugares que visitamos, das pessoas que conhecemos e das situações que enfrentamos. Eu concordo, afinal, um clichê quase nunca é um clichê por acaso. Mas eu também acho que as lembranças são tão importantes quanto as lições. Porque os lugares que visitamos, se transformam. As pessoas que conhecemos, se vão. As situações que enfrentamos, passam. E o que fica pra sempre são as memórias. Eu pensei que poderia substituir as lembranças que tinha do Douglas em Buenos Aires – a MINHA Buenos Aires – por novas. Mas o cérebro não é um pen drive de 2GB e eu não posso simplesmente colar um arquivo em cima do outro.

Saí da banheira e, enfim, me esparramei na cama. Quando abri os olhos de novo, já era de manhã. É muito estranho acordar e não precisar fazer nada, a não ser levantar e descer alguns andares, caso eu não queira perder o café da manhã incluso na diária. Eu amo café da manhã de hotel, então, sei que deixar o conforto da cama é um sacrifício necessário e que será totalmente recompensado. Ao chegar ao restaurante, reencontro não apenas o “banquete”, mas, mais uma vez, as memórias. Como a vez em que tentei copiar os ovos mexidos do hotel para o Douglas e não consegui. Ou quando eu estava tão distraída com as opções quase infinitas que sentei na mesa errada. Ou a simples lembrança da troca de olhares satisfeitos após o café da manhã. Ainda é difícil lidar com tudo isso, e não sei se um dia será fácil. Mas chacoalho a cabeça, como se isso pudesse realmente afastar as memórias, e digo para mim mesma que isso é algo que preciso enfrentar. Depois de me acabar no restaurante, volto para o quarto apenas para pegar a minha bolsa. Saio pelas ruas de Buenos Aires e, dessa vez, eu sei que as lembranças irão me assombrar.

Capítulo 6

Na semana seguinte à minha chegada em Buenos Aires, tudo o que eu faço é tentar reescrever a minha história na cidade, além de me deliciar com o café da manhã do hotel e evitar, digo,  atualizar Lipe, Rebeca e, (bem) eventualmente, meu pai. Já visitei quase todos os lugares que mais gosto, mas não tive coragem de ir a Puerto Madero. Quer dizer, saber que a minha própria memória irá me assombrar por quanto tempo eu ficar aqui é uma coisa. Procurar formas de tornar o que já é difícil ainda pior é outra bem diferente. Se chama burrice. Sim, estou morrendo de vontade de curtir o por do sol em frente à Puente de la Mujer. Porém, só quero voltar lá quando for capaz não só de lidar com as lembranças que vou desenterrar, mas de ter a certeza de que eu ainda terei memórias melhores para guardar.

No entanto, quando a segunda semana se aproxima, ser turista já perdeu a graça e é quando a aventura volta a se parecer mais com loucura. Voltar ao Brasil não é uma opção, não só porque sou orgulhosa, mas porque viver tudo isso é algo que devo a mim mesma. É domingo, então, me esforço ao máximo para sair da cama e aproveitar o tempo livre para ir ao tradicional mercado de San Telmo. Quando chego à Plaza de Mayo, meu celular vibra e é a Rebeca. Não estou no lugar ideal e quero me manter firme ao trato que fiz comigo mesma, mas não posso simplesmente colocar uma pedra sobre o passado, que um dia será meu presente novamente.

– Oi, onde você tá? – ela perguntou.

– Na Plaza de Mayo, tava indo para feirinha de San Telmo.

– Ah, eu amo esse lugar! Será que você pode trazer umas lembranças pra mim?

– Claro, o que você quer?

– Não sei, pode escolher, é você quem vai pagar mesmo – ela responde e dá risada – e quero que me entregue quando voltar, não me manda pelo Correio, não.

– Ok, mas pode demorar…

– Quanto tempo você vai ficar por aí?

– Eu nem sei quanto tempo posso ficar aqui legalmente e eu preciso de um emprego. Não dá pra viver às custas do meu pai pra sempre.

– É, melhor você se informar. Só não demora muito, sei que você é auto-suficiente e tudo, mas eu sinto sua falta – ela diz e, de repente, fica sem graça porque, apesar de tudo, não costumamos falar esse tipo de coisa uma para a outra.

– Ah, Becs, eu também sinto falta de vocês. Muita.

– Ok, preciso ir, o Lipe chegou! – ela diz, como quem sinaliza que o “momento sensibilidade” acabou.

Depois que desligamos, eu encaro o celular por um tempo e um sorriso discreto aparece no meu rosto. Estou distraída e não percebo que um moço não só estava me observando durante toda a conversa, como também se aproxima de mim e toca o meu braço. Me assusto e arregalo os olhos.

– Te assustei? – ele diz, em um portunhol estranho.

– Um pouco. Posso ajudar? – respondo sem saber se sorrio ou faço cara feia. Porque ele é bem bonito.

– Na verdade, eu que queria ajudar você. Sem querer, ouvi sua conversa e só queria esclarecer que você pode ficar em Buenos Aires por três meses apenas com o visto de turista. Mas, para trabalhar, você precisa do CUIL e, para ter o CUIL, precisa do DNI.

– Ah, acho que entendi. Bem, obrigada – respondo e decido sorrir, mesmo que não tenha entendido muito.

– De nada. Você deve estar se perguntando por que sei de tudo isso, se sou daqui.

– É, acho que sim – admito, mesmo que parte de mim esteja ressabiada.

– Um amigo brasileiro está vindo trabalhar aqui e estou ajudando com as burocracias.

– Entendi – respondo e quero dizer mais alguma coisa, mas não consigo pensar em nada.

– Se quiser, posso ajudar você também. Virei quase um expert – ele fala e sorri, revelando duas fileiras de dentes incríveis.

– Seria legal, eu acho.

– Bom, então, fica com meu número e, qualquer dúvida, me ligue ou escreva. E me dá o seu também, só pra eu saber quem é, caso você entre em contato.

– Tudo bem, obrigada – e o observo enquanto ele vai embora. De repente, eu tenho certeza de que o verei de novo, ainda que nem saiba seu nome.

Pensei que procurar presentinhos para o Lipe e a Rebeca na feirinha de San Telmo seria uma ótima forma de não pensar nas malditas lembranças que descer a rua Defensa me traria. Mas, para a minha surpresa, foi o argentino sem-nome e prestativo o responsável pela minha distração. Eu não pensei que alguém pudesse chamar a minha atenção dessa forma nesse momento, muito menos tão depressa. Quando chego ao hotel, fico pensando se esse é um sinal de que eu deveria entrar em contato com o argentino prestativo sem-nome e o que eu poderia escrever. E, então, sem nenhum aviso, o Douglas invade meus pensamentos e me pergunto se ele está pensando o mesmo tipo de coisa e se é tão difícil para ele quanto para mim. Viro para o outro lado e fico aliviada por não ter como saber porque tenho medo da resposta.

Capítulo 7

Acordo com o toque do celular e fico surpresa ao descobrir que recebi uma mensagem do argentino prestativo sem-nome – e que agora tem nome ou, pelo menos, um apelido: Leo. Como ainda estou sonolenta, esfrego os olhos para ter certeza de que não li errado e digito a senha para desbloquear o aparelho.

Leo: graças ao meu amigo, descobri mais algumas coisas sobre a migração para a Argentina. Será que você está interessada? :)

Meu primeiro impulso é mandar uma mensagem para a Rebeca e perguntar o que devo responder. Mas lembro que estou tentando ser auto-suficiente e decido agir por conta própria. Afinal, é apenas uma mensagem.

Sarah: sim :)

Leo: podemos marcar um café ou jantar e eu te conto?

Sarah: claro. onde e quando?

Leo: sexta, às 20h, no Central Market, em Puerto Madero?

Tantos restaurantes à disposição e ele escolhe justamente um que fica em Puerto Madero. Não sei se encaro isso como um sinal de que está na hora de reescrever a minha história nesse cenário ou se devo dar uma desculpa e sugerir outro lugar. Escolho a segunda opção porque prefiro correr o risco de ser rude do que chorar feito louca em um encontro com um argentino gato.

Sarah: o Central Market é tão turístico… eu acho que queria conhecer um restaurante mais local.

Leo: claro, sem problemas. Então, eu te pego na sexta, às 19h30, ok?

Sarah: ok :)

Então, é oficial: esta é a primeira vez em quase quatro anos que eu flerto com alguém. E acho que perdi a prática porque achei cada palavra que escrevi tão inadequada. O problema é que agora o argentino sem-nome prestativo, digo, o Leo parece ter perdido o poder de me distrair, como aconteceu no domingo. Pelo contrário, essa troca de mensagens com segundas intenções apenas me levou para mais uma viagem no tempo e, de repente, estou no segundo ano de faculdade, lendo a última página de A Menina que Roubava Livros na lanchonete, antes da aula começar.

– “Os seres humanos me assombram” – disse uma voz que não conhecia.

– Como? – demorei para perceber que essa era a frase que eu havia acabado de ler.

– Eu gostei muito desse livro – respondeu o garoto que sentou ao meu lado sem eu sequer perceber.

– Ah, sim. Bom, eu acabei de terminar.

– Eu vi, desculpe interromper, mas não resisti, é meu livro favorito. Ah,  meu nome é Douglas – e quando ele sorriu, alguma coisa dentro de mim sorriu também.

– Tudo bem, não tem problema – sorri, com sinceridade – meu nome é Sarah.

– Sarah… – ele disse, como se estivesse saboreando meu nome.

– É, Sarah… – respondi porque não sabia mais o que dizer.

– Bonito nome.

– Obrigada.

– Bom, vou nessa. A gente se vê.

E, se quando o Douglas sentou ao meu lado, eu não percebi, o oposto aconteceu quando ele se levantou e saiu. Antes de desaparecer pela porta da sala de aula, Douglas virou para trás, como quem sabia que eu ainda estava olhando, e piscou para mim. Meu olhar tentou fugir por todos os lugares possíveis, mas não conseguiu, e eu acabei sorrindo para ele de uma forma que meu namorado não iria gostar nem um pouco. Depois que as lembranças escapam e eu sou capaz de fechar novamente essa “gaveta mental”, estou sorrindo e chorando e me perguntando como a garota que conquistou um garoto simplesmente por ler um livro terminou tão sozinha.

Capítulo 8

Os dias se arrastaram e a sexta-feira chegou. Se quando eu tive a ideia de vir a Buenos Aires, alguém tivesse me falado que, em menos de duas semanas, eu teria um encontro marcado, eu jamais teria acreditado. Mas acho que isso só aconteceu porque eu não planejei, nem sequer esperei. Não posso mentir, quando o Leo veio falar comigo, eu reparei no quanto ele é bonito na mesma hora e saber que ele podia estar interessado em mim foi ótimo para a minha autoestima. Mas eu sentia como se estivesse traindo o Douglas, talvez porque pensar que ele poderia estar fazendo o mesmo me causava arrepios. E isso me dava a certeza de que eu só havia aceitado o convite do Leo porque, na verdade, não tinha razões para recusar.

No entanto, saber disso não me impediu de escolher o meu melhor vestido para o jantar e me esforçar ao máximo para encontrar a melhor versão de mim mesma – pelo menos por fora. Confesso que pensei no Douglas muitas vezes enquanto me arrumava. No quanto ele gostava do vestido azul-marinho e justo que eu escolhi. De como ele me elogiava por sempre me trocar tão rápido. Da forma que insistia para que eu usasse pouca ou nenhuma maquiagem. Do quanto adorava quando eu usava saltos altos, mesmo que eu quase ficasse do tamanho dele. Do quanto me amava. E do quanto eu odiei conjugar todos estes verbos no passado. E, então, sentada na beirada da cama e na versão que o Douglas mais gostava de mim, eu percebo quantas razões eu tenho para não sair com o Leo. Mas, teimosa, não dou o braço a torcer e convenço a mim mesma de que essa ainda é uma ótima ideia.

O Leo acabou se revelando um dos caras mais gentis que já conheci na vida. Chegou pontualmente às 19h30, desceu do carro, me cumprimentou com um beijo na bochecha e abriu a porta para mim. Durante o caminho até o restaurante, que ficava em Palermo, conversamos sobre os assuntos curinga sobre os quais as pessoas conversam em um primeiro encontro: música, livros, filmes, trabalho e uma dose moderada de família. Leo tem 26 anos, adora música eletrônica, não tem paciência para ler, é viciado em filmes de super-heróis e se formou em direito. Até aí, nosso único ponto em comum era o fato de sermos filhos únicos.

– E por que você veio para Buenos Aires? – ele perguntou com seu portunhol quando nos acomodamos no restaurante, que era chique e parecia caro.

– Achei que era uma boa hora para me aventurar – menti parcialmente, porque não poderia dizer a verdade, não num primeiro encontro – preciso aproveitar enquanto ainda sou jovem e tenho um pai que topa me sustentar.

– E você pretende ficar por aqui?

– Não decidi ainda. Quer dizer, por enquanto, só posso ficar por no máximo 90 dias, como você mesmo me explicou.

– E você queria um emprego?

– Sim – essa não é bem uma verdade, mas fico sem graça de dizer que não.

– Talvez eu possa ajudar você.

– É mesmo? Como?

– Quando eu era mais novo, trabalhei em um café no centro da cidade – Leo começou a explicar e, com uma taça de vinho em uma das mãos, não parecia o tipo de cara que havia trabalhado em um café – é um lugar simples, que provavelmente não vai poder te pagar muito. Mas a dona me adora e tenho certeza que ela toparia pagar você por fora.

– Sério? – eu disse e fingi empolgação.

– Sim – ele respondeu e sorriu, satisfeito – vou falar com ela.

– Nossa, seria muito legal. Daí eu poderia começar a pensar em ficar por aqui – menti de novo.

– Bom, eu espero que você fique – Leo disse e sorriu, espremendo os já pequenos olhos verdes.

– É, eu acho que eu também – respondi e percebi que, na verdade, eu não queria ficar. Mas, antes que eu pudesse me assustar com essa revelação, fui pega de surpresa pelos lábios do Leo, que pousaram sobre os meus assim que terminei a frase.

– Desculpa, não consegui resistir. Espero que este seja um bom motivo para você ficar.

– Ah, claro, não tem problema – eu rebati, em um tom casual demais, e tive a certeza de que foi uma das piores respostas que eu poderia dar. Com o clima já perdido, pedi licença e fui ao banheiro.

Não queria fazer xixi, retocar a maquiagem ou lavar as mãos. Eu queria ir embora pela descarga ou pelo ralo da pia. Eu queria fugir. Eu estava em um jantar romântico com um cara que, além de gentil e lindo, era generoso e estava claramente apaixonado por mim – se é que dá para se apaixonar tão rápido por alguém. Mas eu só conseguia pensar em tudo o que parecia estar errado naquele encontro: eu odeio música eletrônica, amo livros, não tenho mais paciência para filmes de super-herói e, de advogado na minha vida, já basta meu pai. No entanto, quando voltei à mesa alguns minutos depois, o Leo não parecia ter notado nada disso. Pelo contrário: quando eu sentei ao lado dele, ele entrelaçou os dedos nos meus e me olhou como se já fôssemos eternos apaixonados.

Quando voltei do encontro, senti que precisava contar o que havia acontecido para alguém. A Rebeca insistia em conversar pelo FaceTime, mas eu odiava, então, resolvi escrever um e-mail.

Oi Becs, tudo bem?

Acabei de voltar de um encontro com um argentino, o Leo, que conheci logo depois que nos falamos no domingo, na Plaza de Mayo, lembra? Pois é. Ele é bem bonito e gentil, por isso, decidi aceitar o convite para jantar. Mas eu não acho que vá me apaixonar e não sei se isso é bom ou ruim. Ele cismou que quero um emprego e disse que pode me ajudar, mas essa foi a desculpa que ele usou para me abordar, então acho que só está disfarçando. Enquanto conversávamos, ele me beijou e eu meio que não senti nada – será que isso é normal quando se está tentando superar um término? Quando ele se afastou, me bateu um desespero e eu precisei ir ao banheiro. Queria ir embora, mas não podia. Sei que é cedo para pensar em algo mais sério, mas e se eu nunca mais for capaz de me apaixonar de novo? Quero dizer, o cara é gato, sabe? Mas eu sei que não é o suficiente. Bom, acho que é isso.

Beijos,

Sarah

E, então, quando eu termino de escrever o e-mail, a verdade sobre aquela noite, embora fosse óbvia, me atinge como um soco: o Leo não era e jamais seria o Douglas.

Depois de deitar na cama, encarei o teto branco do quarto de hotel enquanto tudo o que eu mais evitava tomava conta dos meus pensamentos. Depois do dia em que eu terminei A Menina que Roubava Livros, fiz questão de sentar no mesmo lugar todos os dias para ler. No terceiro, o Douglas apareceu e, então, eu não só percebi quando ele se sentou ao meu lado, como também sorri. Se naquele dia ele sabia que eu ainda estaria olhando quando entrou na sala de aula, dessa vez, eu é que tinha certeza de que ele se sentaria do meu lado.

A Revolução dos Bichos também é seu livro favorito? – eu perguntei para quebrar o silêncio.

– “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Também gosto dessa frase, só que não tanto. Mas eu trouxe esse para você ler – ele disse e me entregou outro livro de Markus Zusak, A garota que eu quero.

– Ah, é do mesmo autor de A Menina que Roubava Livros? – eu respondi, pensando se o título do livro não era sugestivo.

– Isso, gosto muito dele. E, sei lá, achei que você poderia curtir esse.

– Ok, vou ler depois que terminar A Revolução dos Bichos. E aí eu te devolvo.

– Não precisa devolver, é um presente.

– Presente? Mas eu mal te conheço.

– Eu sei, mas me deu vontade de te dar um presente. E eu comprei na promoção.

– Ah, tudo bem, então.

– Certo, vou nessa – o Douglas respondeu e, antes que eu pudesse pensar em algo mais para dizer, ele se levantou e, dessa vez, não olhou para trás. Mas estava tudo bem porque eu sabia que ele sentaria de novo ao meu lado.

E eu estava certa. No mês seguinte, o Douglas se sentou ao meu lado quase todos os dias. E todos os dias falávamos sobre livros que havíamos lido ou queríamos ler. Às vezes, ele me trazia algum e se justificava: “esse eu tô te emprestando. Sabe como é, salário de estagiário”. Aos poucos, nossas conversas migraram das histórias dos livros para as nossas histórias. E quando eu percebi, já era muito tarde: meu namorado não iria gostar nem um pouco do meu novo amigo, mas eu gostava. E demais.

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