#LivroNamanita – Parte 1

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Capítulo 1

“Por que você não vai se tratar?” é uma pergunta que uma pessoa faz à outra durante uma briga e cujo subtexto é “você é louca”. Também vale dizer que quem faz esta pergunta, tão clichê quanto cruel, nunca deseja realmente saber o porquê, apenas quer desaparecer e fingir que não deixou o outro sem ter para onde correr. Bem, pelo menos foi assim que me senti quando o Douglas me fez a tal pergunta.

– E enquanto você não se tratar, eu não vou voltar – ele continuou.

O grande problema era: eu já estava me tratando.

Capítulo 2

Douglas olha para mim com uma expressão que parece um misto de pena e raiva e vai embora. Eu o ouço abrir e fechar a porta e, mesmo a 10 andares de altura, escuto-o ligar o carro. E, pela primeira vez, eu não vou atrás. Não porque eu não quero que ele volte e me abrace até tudo ficar bem outra vez – embora nenhum abraço no mundo tenha esse poder agora. Mas porque estou paralisada por saber que, desta vez, ele está falando sério e realmente não pretende voltar. O vazio começa a tomar conta de tudo e meu quarto, tão pequeno e aconchegante, parece um espaço maior do que eu jamais serei capaz de preencher. Quero, ao mesmo tempo, desaparecer e me transformar em mil, assim talvez possa preencher aquele excesso de nada. Mas é claro que nenhuma das coisas acontece e eu permaneço sentada na beirada da cama por mais tempo do que consigo lembrar. Uma parte de mim, a mais otimista, deseja ouvir uma batida na porta, indicando que o Douglas voltou. Outra, menor, quer ligar para os meus melhores amigos, Lipe e Rebeca, e vomitar tudo o que aconteceu nesta noite. Mas a maior e mais realista sabe que o Douglas não irá voltar e não quer que Lipe e Rebeca apontem os meus defeitos para mim. Eu já os conheço.

Pela primeira vez na vida, passo a noite em claro porque eu sei que preciso de um novo rumo e me sinto desesperada demais para fechar os olhos. Flashbacks da minha fatídica briga com o Douglas tomam conta dos meus pensamentos sem a minha permissão e eu me pergunto, como sempre, por que não posso voltar no tempo e fazer tudo diferente. Mas a verdade é que, mesmo que tivesse esse poder, eu provavelmente teria feito tudo igual quando ele me disse que estava pensando em viajar sozinho durante as férias. Porque o que eu precisava não era de uma máquina do tempo e, sim, de uma lavagem cerebral.

– Seriam só uns quatro dias – ele tentou justificar.

– Mas eu vou entrar de férias na semana seguinte, você não pode esperar? – respondi, o tom agressivo.

– Eu vou esperar. Nós vamos viajar juntos quando eu voltar.

– Ah, então já está decidido que você vai viajar sozinho?

– Não, só estou dizendo que…

– Bom, se é tão importante pra você passar esses quatro dias sozinho, então vá – interrompi e, em seguida, fiz mais uma ameça que eu não seria capaz de cumprir – mas, de repente, é melhor nem voltar.

– Quer saber? Já estou cansado dos seus chiliques – ele respondeu, mais bravo do que eu jamais havia visto – tudo o que não inclui você se transforma em briga. Qual o seu problema?

– Isso mesmo, briga comigo pra poder viajar e…

– Por que você não vai se tratar? – ele perguntou e eu paralisei.

Como os pensamentos e flashbacks, através dos quais eu tento entender como cheguei àquele ponto, se recusam a me abandonar, resolvo recorrer à minha terapia de emergência: a caixa de cartas e bilhetes antigos. Quando eu fico triste ou frustrada com alguma coisa – e, agora, eu me sinto as duas coisas -, costumo mergulhar nestas lembranças, que nunca tem respostas para nada, mas me confortam e me fazem lembrar que, em algum momento, eu fui querida por alguém. Mas, nesta noite, é diferente. São pouco mais de 4h da manhã e é  exatamente nesta caixa que eu encontro a solução para o meu problema: um papel todo amassado com o número da minha conta-poupança. Acesso-a pela internet e lembro que minha família pode ter muitos problemas, mas a falta de dinheiro, definitivamente, não é um deles. Quando vejo o saldo, tenho uma ideia e, sem pensar, entro no site de venda de passagens aéreas.

Eu tive a chance de conhecer cidades incríveis, mas sempre alimentei um carinho especial por Buenos Aires. Talvez porque, para mim, ela seja uma versão menos louca, mas não menos interessante, de São Paulo. Não vou dizer que não fiquei encantada e apaixonada por outras cidades, mas nunca pensei “eu poderia morar aqui”. No entanto, desde a primeira vez que fui à capital argentina, eu senti que, de alguma forma, eu pertencia àquele lugar – ainda que falar espanhol não seja exatamente o meu maior talento. Meus amigos nunca entenderam esse carinho especial e sempre me perguntavam por que eu acabava sempre escolhendo Buenos Aires para passar algum tempo. Eu nunca soube responder e não seria agora que eu tentaria entender ou fazer diferente: sem sequer pesquisar, compro uma passagem para a capital argentina. Só de ida.

Só depois que finalizo a compra e recebo a confirmação em meu e-mail, por volta das 5h30 da manhã, que paro para pensar no que fiz. Parece loucura, mas nunca algo fez tanto sentido na minha vida – e talvez isso signifique que eu estou mesmo louca. Meu avião parte daqui a 48 horas e eu não tenho a menor ideia de quais são os meus próximos passos. Dormir parece uma boa opção, mas eu simplesmente não consigo ficar na mesma posição por mais de dois minutos. Pelo menos, os pensamentos que habitam a minha cabeça não são mais única e exclusivamente sobre o Douglas. Continuo perdida em meio a eles e, lá pelas 6h30 da manhã, descubro que nem toda escuridão vai embora com o fim da madrugada. Como meu plano é comunicar apenas o meu pai sobre a viagem, para que, quando (e se) ele percebesse minha ausência, não chamasse a polícia e mandasse arrombar a porta nova que tinha custado metade do meu salário, resolvo sair da cama.

Às 8h da manhã, eu já estou na sala de espera da empresa do meu pai e é inevitável lembrar da minha mãe reclamando – “quando você decide uma coisa, é muito rápida para conseguir o que quer” – e sentir uma pontada de culpa. Como sempre, ele é pontual e, quando chega, com uma expressão surpresa, sorri, parecendo confuso. Eu nunca visito o meu pai, muito menos em seu escritório, então, ele tem razão em ficar tenso.

– Oi querida, o que está fazendo por aqui?

– Preciso falar com você.

– Nada que possa ser resolvido por Facebook ou Whatsapp? – ele responde, com ar de deboche.

– Eu vou para Buenos Aires – eu não queria fazer rodeios e as palavras simplesmente escorregaram dos meus lábios.

– Mas de novo? Quantas vezes esteve lá? Já pensou em voltar a Nova York?

– É diferente, não são apenas alguns dias.

– Quer morar lá? – ele pergunta, novamente com tom irônico.

– Na verdade, acho que sim. Não sei quanto tempo ainda, mas queria que você soubesse – rebato e ele nota que eu estou falando sério.

– Bom, sendo assim, boa sorte. Precisa de algum dinheiro?

Essa conversa ilustra tão bem o que sobrou da minha relação com meu pai, que automaticamente me transporta para diversos episódios antigos da nossa história. O primeiro que me lembro aconteceu quando eu tinha uns 8 anos: ele me mandou para a Disney com a minha tia, pois a nossa família, também conhecida como nós dois e minha mãe, estava passando por “momentos delicados”, que eu nunca sabia do que se tratavam. Aos 10, ele me deu um computador de última geração, que iria “me ajudar a estudar” – depois eu entendi que, na verdade, o computador iria me distrair, o que, com sorte, me impediria de fazer tantas perguntas sobre os “momentos delicados” que ainda vivíamos. Aos 14, ele praticamente me obrigou a viajar para Bariloche com a turma da escola, para comemorar a formatura da oitava série. Acontece que  dividir a sala de aula com aquele povo já era ruim o bastante, imagina sair do País? Mas claro que ele não sabia disso e não estava interessado em descobrir. “Vai ser bom para você se distrair”, ele disse, só que eu não sentia que precisava me distrair.

Quatro anos depois, eu passei três dias inteiros trancada no quarto, após ser reprovada no teste para o que teria sido meu primeiro estágio, e ele sentou na beirada da minha cama apenas para dizer: “comprei um apartamento para você”. Em seguida, me entregou um cartão crédito, que eu poderia usar para decorar o espaço como quisesse, e voltou para a sala. Eu sei que esse é o sonho da maioria das pessoas, ainda mais aos 18 anos, e teria sido o meu também, se o meu pai não tentasse suprir as minhas necessidades emocionais com coisas materiais. E não era apenas porque ele achava ser possível, era também, e principalmente, porque era mais fácil – e pouco efetivo, mas disso talvez ele não soubesse.

Mesmo com as mágoas recém-despertadas pela breve retrospectiva, resolvo aproveitar os benefícios de ter um pai rico e aceito o dinheiro que ele me oferece. Fico aliviada por não precisar explicar a situação ou convencê-lo de que essa é a melhor decisão, mas acho que uma parte minha esperava que ele me pedisse para ficar ou pelo menos tentasse entender o que estava acontecendo. Na mais íntima camada do meu ser, aquela que era desprovida de qualquer orgulho, eu confesso que fiquei triste ao perceber que eu não tinha muito a deixar para trás. Quando volto para casa, começo a empacotar as minhas coisas e, contrariando os meus planos iniciais, decido contar aos meus amigos sobre a viagem. Talvez eu ainda queira que alguém tente me impedir, e não só para que eu tenha uma desculpa para ficar.

Sarah: oi, tudo bem? Tenho uma novidade :)

Lipe: oie, tudo e você? Conta!

Sarah: vou me mudar para Buenos Aires.

Lipe: como assim? Quando? Como? Por quê?

Sarah: acho que é hora de recomeçar. Preciso de um tempo pra mim. Embarco amanhã.

Lipe: como é bom ter um pai rico! Mas já vai amanhã? Não dá tempo para uma despedida?

Sarah: ha ha ha, engraçadinho. Tenho um pai rico que prefere gastar dinheiro do que conversar comigo por mais de 10 minutos. Sobre a despedida, você sabe que não teria muito mais do que duas pessoas pra convidar.

Lipe: hm, é verdade. Precisa de alguma ajuda?

Sarah: se quiser me ajudar a empacotar algumas coisas, pode vir.

Lipe: ok, estou aí em 10 minutos.

Sarah: oie, como você tá?

Rebeca: bem e você? Sumiu esses dias…

Sarah: tomando algumas decisões. Aliás, vou para Buenos Aires amanhã.

Rebeca: fazer o que? Nem me convidou… :(

Sarah: preciso respirar novos ares, recomeçar, pensar na vida…

Rebeca: e seu emprego? Você não pode fazer isso por aqui?

Sarah: eu não vou trabalhar há alguns dias. Acho que se eu não pedisse demissão, eles mesmos me demitiriam.

Rebeca: boa desculpa. Tem certeza de que essa é a melhor opção? E o Douglas?

Sarah: a gente terminou. Quer dizer, ele terminou comigo.

Rebeca: ah, então tá tudo explicado.

Sarah: claro que não. Não é você que sempre me diz que sou auto-suficiente? Só quero fazer algo por mim.

Rebeca: é, sou eu, sim. Mas até parece que você está indo embora pra ver se ele se arrepende.

Sarah: não tem nada a ver, você nem sabe o que aconteceu. Bom, vou terminar de arrumar as minhas coisas.

A conversa com a Rebeca me irrita porque, muito mais vezes do que eu gostaria, ela parece me conhecer melhor do que eu  mesma. Ou, pelo menos, tem a coragem de assumir o que eu não quero por mim. E é quando a pergunta inevitável surge em minha mente: será que estou fazendo tudo isso para que o Douglas se arrependa? Tenho certeza de que uma parte de mim precisa se afastar desse caos por um tempo – não sei exatamente como, pois o caos sou eu mesma. Mas, sinceramente, outra parte espera, sim, que ele vá até o aeroporto e me impeça de viajar, em uma cena típica de comédia romântica. Ele me abraçaria, nós rodopiaríamos pelo saguão do aeroporto e, sabe, eu nem me importaria de jogar fora o dinheiro da passagem. Quer dizer, teria sido um investimento.

Capítulo 3

Sentada na beirada da mesma cama que havia me consolado há apenas duas noites, contemplo o vazio – desta vez, físico – que toma conta do meu futuro antigo quarto. É difícil olhar para o lugar que foi minha casa nos últimos quatro anos e não saber quando será a próxima vez que estarei aqui. Mas, ao mesmo tempo, é reconfortante saber que posso deixar tudo o que fui neste lugar para trás e que, mesmo assim, quando eu voltar, ele ainda estará aqui, esperando por mim. Em silêncio, agradeço a mim mesma por ter agendado a viagem para apenas 48 horas depois, tempo suficiente para organizar o que eu precisava, mas não para encontrar uma brecha para pensar em desistir. Quando comprei a passagem, viajar pareceu uma solução óbvia e incrível para o meu problema. Mas, desde que fui indiretamente forçada por Rebeca a admitir que, talvez (veja bem, talvez), o Douglas seja o maior motivo para eu mergulhar nessa ideia, confesso que tudo isso pareceu mais com loucura do que aventura. Mas eu já não tenho mais alternativa e, em menos de 12 horas, estarei em Buenos Aires e pronta para recomeçar. Pelo menos, é o que eu espero.

Quatro horas antes do meu voo, Lipe e Rebeca, que haviam insistido em me levar ao aeroporto enquanto meu pai se limitara a dizer “boa sorte, precisa de dinheiro?”, tocam a campainha e é quando meu cérebro e, consequentemente, eu mesma entendemos o que está prestes a acontecer. Mas, se falta tempo para desistir, sobra orgulho e eu opto por fingir que estou extremamente grata por, enfim, estar a caminho do aeroporto. Abro a porta e recebo Lipe e Rebeca com meu maior e melhor sorriso – e acho que exagero porque eles parecem um pouco assustados. Assim que o Lipe sai do apartamento para levar as minhas malas para o carro, a Rebeca assume o seu papel preferido: o de advogada do diabo.

– Você tem certeza de que quer fazer isso? – ela me pergunta, com um tom que é mais de preocupação do que de reprovação, mas que é o suficiente para me deixar na defensiva – você sabe, ainda pode voltar atrás.

– Por que teria mudado de ideia? – retruco, um pouco agressiva demais – o máximo que vai acontecer é eu voltar daqui uma semana – reúno todo o bom-humor e auto-confiança que consigo para acalmar meus próprios ânimos.

– Ai, amiga… eu sei que você vai ficar brava comigo de novo, mas eu ainda acho que o Douglas é o grande motivo por trás dessa sua ideia.

– E se for? Qual o problema?

– O problema é que essa não é a razão certa pra tomar uma decisão como essa. Se estiver fazendo isso por ele, não tem como ser por você, entende?

– “Eu sou auto-suficiente” – respondo, irônica, para irritá-la. E consigo.

Entramos no carro totalmente quietos e assim permanecemos por todo o caminho até o aeroporto. Lipe, na direção, porque sente o clima pesado e não sabe o que dizer. Rebeca, sentada no banco do passageiro, porque já disse tudo o que queria – e até o que não devia. E eu, no banco de trás, porque tenho medo que, se abrir a boca, coisas que eu não quero acabem escapando. Trocamos muitos olhares, mas não falamos nada enquanto eu despacho as malas, nem mesmo enquanto compro cruzadinhas, meu ritual durante os voos. No portão de embarque, Rebeca quebra o silêncio.

– Se cuida – ela diz, não sei se porque é o que quer falar ou se porque é o que se tem a dizer nessas horas.

– Pode deixar – respondo, e um sorriso triste escapa porque, na verdade, já estou com saudades.

– Bom, isso não é uma despedida de verdade, né? E tem Facebook, Whatsapp, Skype… – diz o Lipe, tentando amenizar o clima, como sempre.

– É verdade – respondo e sorrio de novo, dessa vez, aliviada – vocês não vão escapar de mim tão fácil.

– Então arranje logo um celular quando chegar e nos avise.

– Sim, senhor – respondo e reviro os olhos, como se estivesse de saco cheio. Mas não estou.

Ficamos em silêncio, mas que, dessa vez, não é constrangedor. É de cumplicidade e saudade antecipada. Talvez não seja, de fato, uma despedida, mas para nós é o que parece. Durante os três anos do colegial, nos víamos todos os dias úteis, fazíamos trabalhos e estudávamos para provas juntos e saíamos aos finais de semana. Quando fomos para a faculdade, cada um para um canto da cidade, nos encontrávamos pelo menos uma vez a cada duas semanas, contrariando todas as estatísticas. Nos últimos cinco meses, ocupados com nossos trabalhos, mas livres da vida de estudante, conseguimos aumentar a frequência e, às vezes, passávamos finais de semana inteiros no meu apartamento, assistindo a filmes, conversando, bebendo ou simplesmente curtindo a companhia um do outro. Agora, a pergunta que insistia em se enfiar entre os meus pensamentos era: como vai ser daqui pra frente? Eu não sabia, e Lipe e Rebeca também não. Mas eu arriscaria dizer que, se existem coisas que nunca mudam, nós três éramos uma delas. O silêncio é confortável, pois sabemos mais ou menos o que ele significa. Mas eu preciso ir, então, mais uma vez, Rebeca se adianta.

“Não se esqueça que você é auto-suficiente”, ela diz e, dessa vez, não para me irritar ou ter razão. O Lipe sorri, como quem concorda, e nos envolve em um brega abraço a três. Não era como o Douglas aparecendo para me impedir de viajar, é verdade, mas eu não me importo porque é exatamente o que eu preciso para transformar isso tudo em algo por mim e não por ele. Me desvencilho do abraço e sorrio. Quando viro em direção ao portão de embarque, sozinha, deixo as lágrimas caírem.

Deixo o sentimentalismo para trás e lembro o quanto odeio avião. Odeio. Eu sei que, estatisticamente, os riscos de acidentes são muito maiores entre carros do que aviões. No entanto, também estatisticamente, acredito que as chances de sobrevivência sejam infinitamente maiores em terra firme do que no ar. Mas, como não estava disposta a passar horas espremida dentro de um ônibus, foquei nas estatísticas positivas a favor dos aviões.

Quando estou no ar, costumo dividir meu tempo entre cruzadinhas e cochilos e, como o voo entre São Paulo e Buenos Aires não dura nem três horas, pensei que não teria problemas em manter o ritual. Acontece que terminei mais de cinco cruzadinhas antes mesmo da decolagem e o sono nunca se manifestou. Com apenas 40 minutos de voo, termino a revistinha e penso que poderia começar um diário de bordo. Assim, se o meu avião caísse e eu morresse, alguém poderia, de repente, encontrá-lo e publicar minhas memórias. E aí elas poderiam ser adaptadas ao cinema e meu livro passaria a ser vendido com a capa do filme. Mas acho que eu não iria me importar, pois estaria morta. E isso me faz pensar que, neste momento, uma parte minha gostaria de estar morta, assim não se importaria com uma porção de coisas.

De qualquer forma, pensando melhor, o plano só daria certo se 1. meu avião caísse; 2. meu avião caísse em terra firme; 3. alguém encontrasse meu diário no meio dos destroços; 4. esse alguém gostasse muito das minhas memórias; 5. esse alguém que gostou muito das minhas memórias fosse influente na indústria literária; 6. eu estivesse indo para o Japão, e não para a Argentina, e tivesse tempo de voo suficiente para escrever algo digno. Com tantos contras e poucos prós, resolvo usar os espaços em branco da revista de cruzadinhas para escrever algo que, com sorte, seria mais útil do que um diário de bordo.

Durante os três meses em que eu fiz terapia, Silvia, a minha analista, insistiu para que eu escrevesse cartas para a minha mãe. “Isso pode ajudar mais do que você imagina”, dizia ela, em todas as sessões. Uma parte de mim nunca acreditou, enquanto outra sempre quis descobrir como isso poderia ser útil. Mas as duas eram orgulhosas demais para tentar e, de repente, entender como as cartas poderiam me ajudar. Na minha última sessão, discuti com Silvia e, mesmo sem eu ter dito nada, ela soube que, quando cruzei a porta do consultório, não era mais sua paciente. Esperta, mesmo com tão pouco tempo de convívio, ela já me conhecia o suficiente para saber que, às vezes (ok, quase sempre), eu funcionava melhor quando não era observada, e disse: “Sarah, se você escrever, ninguém precisa saber”. Eu não tive dúvidas sobre o que ela estava falando e ela teve a certeza de que, em algum momento, eu iria escrever – e de que ninguém iria saber.

Mãe,

Quando eu tentava fazer terapia, a minha analista sugeriu que eu escrevesse “cartas para a minha mãe”. Antes que reclame, deixe eu dizer que tentei explicar a nossa situação. Mas ela insistiu e disse que me faria bem conversar com você. Neste momento, eu estou em um avião, rumo a Buenos Aires, para tentar recomeçar a vida. Ah, caso esteja se perguntando, eu comecei a terapia para tentar tapar o buraco que você deixou.

Att,

Sarah

Ok, parece que esse negócio de escrever “cartas para a minha mãe” não foi exatamente uma boa ideia. Sério, quem escreve “Att” em uma carta para a própria mãe? Como ainda faltava pelo menos 1h de voo, resolvi tentar de novo.

Mãe,

Que tal se eu contar algumas coisas que você talvez não saiba sobre mim? Tenho 22 anos (acho – espero – que isso você sabe) e me formei em moda no final do ano passado. Eu detestei o curso, especialmente as meninas afetadas que o frequentavam, mas sempre adorei o meu trabalho. Primeiro, eu fui estagiária da Barbara, uma produtora de moda que me ensinou muitas coisas, depois de fracassar no teste para trabalhar em uma revista. Fiquei com a Barbara durante três anos e, no último de faculdade, fui contratada como vitrinista em uma agência que monta os displays de várias lojas legais. Eu realmente amava o meu emprego, mas tive que pedir demissão para poder viajar por tempo indeterminado porque me sinto uma completa bagunça.

Sarah

Resisto à tentação de adicionar “ah, caso esteja se perguntando, eu decidi viajar por tempo indeterminado para tapar o buraco que você deixou” e apenas assinei, sem “Att” desta vez. Ainda não era o tipo de carta que alguém normal enviaria para uma mãe normal. Mas tudo bem porque realmente não éramos mãe e filha normais e, comparada à primeira tentativa, a segunda até que estava satisfatória. Como se esperasse as tais “cartas para a minha mãe” fazerem efeito, recosto a cabeça no banco e observo a paisagem repleta de um nada em tons de verde e azul. Para a minha surpresa, o sono não apenas se manifesta, como também me domina, e eu só acordo com o tranco do avião tocando o solo. Espero os desesperados pegarem suas bagagens e só depois apanho a minha mala, que estava debaixo do banco da frente. Quando saio do avião, sinto o ar frio do outono portenho tocando a minha pele, respiro fundo e penso que, se Buenos Aires tivesse um cheiro, seria de liberdade.

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11 pensamentos sobre “#LivroNamanita – Parte 1

  1. Já quero mais dessa historia! Como você pode pensar que seu livro não era digno de ser compartilhado???? Amando e já estou curiosa para saber dessa nova fase de Sarah!

  2. Meu Deus preciso dos outros capítulos do livro, amei esse pedaço! O que a Sarah vai fazer? Quando vc vai liberar? Amei vc escreve muito bem. Obrigada

  3. Nossa!! Se tivesse mais uma duzia de capitulos, com certeza leria tudo. mesmo voce falando para nao ppr expectativa, fica dificil. Esse e um tipo de livro que prende a minha atencao do inicio ao fim.
    ansiosa por mais.

    Ana Rosa
    @leiturasdeumarosa

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