Sobre A Mentira, A Letra Escarlate, a desigualdade entre os gêneros e a hipocrisia humana

Eu assisti A Mentira há muitos anos e lembro de tê-lo alugado pensando ser apenas uma comédia fofa com a Emma Stone. Não estava errada, no entanto, mais do que um filme leve e engraçadinho, A Mentira foi uma forma inteligente e bem-humorada de abordar assuntos extremamente pertinentes e transportá-los ao mundo young adult.

A sinopse é a seguinte: para evitar acampar com a família da melhor amiga Rhiannon, Olive, a personagem de Emma Stone, diz ter um encontro marcado com um amigo de seu irmão – o que, obviamente, é mentira. Olive passa um final de semana tranquilo e sem acontecimentos espetaculares, no entanto, após ser pressionada por Rhiannon, ela mente ao dizer que perdeu a virgindade durante o encontro. A católica fervorosa (e fofoqueira) Marianne escuta a confissão e, logo, a escola inteira está sabendo que Olive “perdeu a virgindade”. O boato foge ao controle e não demora muito até que rumores ainda mais graves e mentirosos estejam correndo pelo colégio todo. E é quando Olive passa a ostentar ironicamente um “A” escarlate no peito e começa a fazer uma espécie de experimento social.

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Qualquer semelhança com o clássico A Letra Escarlate NÃO é mera coincidência. Em uma releitura moderna da obra de Nathaniel Hawthorne, A Mentira mostra claramente a desigualdade entre os homens e as mulheres, especialmente quando o assunto são as diferentes consequências oriundas mesmo ato. Assim como em A Letra Escarlate, em que a Hester Prynne é extremamente discriminada após o adultério, enquanto o homem que a engravidou permanece anônimo e impune, Olive passa a ser vista como “piranha”, enquanto os meninos que alegam ter transado (ou algo do tipo) com ela são aclamados e vistos com certo respeito. Ou seja, a dinâmica era esta no século 17 e, infelizmente, 400 anos depois, nada mudou. E sabe o que é ainda pior? As Olives e Hesters da vida real não são consideradas vadias apenas pelos homens. Aliás, eu arriscaria dizer que as mulheres são até mais cruéis e radicais na hora de fazer tal julgamento e endossá-lo.

Se a dinâmica de um pequeno vilarejo, em que todos sabem tudo sobre todos, é a principal ferramenta para que a traição de Hester se torne pública, em A Mentira, além do boca a boca, a internet e a tecnologia têm papel fundamental para a “legitimidade” dos boatos sobre Olive (e ela mesma tira proveito destes recursos ao contar sua versão da história ao vivo, via internet). Agora, pense o seguinte: o filme foi lançado em 2010 e, desde então, graças ao crescimento das redes sociais e especialmente do WhatsApp, a propagação da informação tomou proporções ainda mais exageradas. Então, multiplique a gravidade de toda a situação por mil, pensando especialmente no vazamento de nudes e sex tapes, em que as julgadas são principalmente (se não exclusivamente) as mulheres.

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A Mentira ainda aborda o deprimente e inevitável “estava pedindo”, que parte da premissa que uma mulher que se veste provocativamente ou que tem fata de “piranha” é automaticamente obrigada a topar qualquer coisa com qualquer um. E é quando nos vemos em um beco sem saída, do qual não há possibilidade de sair com dignidade. Porque, se realmente aceitar, a mulher é vadia porque topou; mas se recusar, é vadia porque não aceitou. Ou seja, donas do próprio corpo e da própria vontade, sim, mas não sem consequências de proporções muitas vezes catastróficas.

O fanatismo pela religião e, principalmente, a hipocrisia também não passam despercebidas em A Mentira. Afinal, a carola Marianne não suporta o fato de Olive ser uma “piranha”, mas aparentemente não vê problemas em espalhar boatos sobre ela, sejam eles verdadeiros ou não. Mas não vou ficar aqui “dando sermão” e  prefiro apenas recomendar que todos assistam A Mentira e reflitam com seus botões – mas não sem perder o bom humor.

Título original: Easy A
Diretor: Will Gluck
Ano: 2010
Minutos: 92
Elenco: Emma Stone, Penn Badgley, Amanda Bynes, Stanley Tucci e Lisa Kudrow
Avaliação: 5 estrelas

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14 pensamentos sobre “Sobre A Mentira, A Letra Escarlate, a desigualdade entre os gêneros e a hipocrisia humana

  1. Muito legal O post! Especialmente porque eu não vi o filme e às vezes fico imaginando até que ponto vai a semelhança entre ele e o livro :D Agora deu aquela vontadezinha maior de assistir hahahaha <3

    Mas é um fato que, apesar de muitos avanços em relação à igualdade de gêneros terem ocorrido, ainda há muito a ser desconstruído pelos homens e também por nós, as mulheres. A Letra Escarlate pode não ter conquistado os nossos corações pela obra em si, mas a mensagem é muito forte, necessária e (infelizmente) atualíssima!

    Beeeeeeijo :*

    1. A semelhança entre A Mentira e A Letra Escarlate é mais sutil, mas a personagem da Emma tem a ideia de fazer essa espécie de experimento justamente depois de lê-lo. Então, com certeza foi inspirado, haha!
      E sim, a premissa de A Letra Escarlate é ótima, mas é assustador como ainda é atual :(
      Beijos

  2. Esse filme é simplesmente maravilhoso! <3
    Muito mais que uma comédia romântica, como você disse, tem um significado muito maior do que as demais, nós podemos nos vestir como quisermos, fazermos o que quisermos que ninguém tem nada a ver com isso – muito menos direito de julgar ou fofocar por achar diferente.

    Ainda não li A Letra Escarlate, mas sempre que vejo esse filme eu penso em lê-lo!

    Beijos,
    Giulia | http://www.1livro1filme.com.br

  3. É um filme gostoso de se ver e com uma mensagem para refletir em torno da discriminação. Em meu blog eu falo um pouco sobre esse filme. Inclusive estou mencionando seu blog que merece ser compartilhado por ter um material bem autêntico. Parabéns.
    Um grande abraço.

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