Jogos Vorazes: 8 questões pertinentes por trás da história

Jogos Vorazes é um distópico Young Adult, e isso não tem como negar. No entanto, a obra de Suzanne Collins é muito mais rica do que aparenta e, apesar de ter clichês como um triângulo amoroso, aborda questões pertinentes e que não podem ser ignoradas. Como toda distopia, Jogos Vorazes leva problemáticas atuais ao extremo e por isso é tão fácil de se identificar, apesar de, a princípio, parecer uma história tão distante da nossa. E assim nasceu a minha divagação do dia.

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A sociedade do espetáculo
Em Jogos Vorazes, os Estados Unidos receberam o nome de Panem que, em latim, significa “pão”. Pode parecer uma escolha arbitrária ou, no mínimo, curiosa da parte de Suzanne Collins. No entanto, a verdade é que a autora se inspirou na expressão “panem et circenses”, que conhecemos como “pão e circo” e que descreve a política criada pelos antigos romanos para aplacar a insatisfação do povo com os governantes. E é exatamente isso o que os Jogos Vorazes representam em Panem: além de um lembrete da primeira guerra no país, os Jogos também são um espetáculo sangrento usado para entreter e alienar ainda mais os habitantes da Capital.

Pode até ser que, na vida real, os reality shows (ainda) não sejam usados como arma do governo, no entanto, com certeza entretêm – muitas vezes, até demais – a população.  Mas a maior e mais assustadora semelhança entre os Jogos Vorazes e os realities de verdade é a manipulação dos participantes e, consequentemente, dos telespectadores. E com os programas cada vez mais mostrando a “realidade” sobre tudo e com a loucura que parece habitar o mundo, não me seria uma surpresa tão grande se um dia existisse algo mais parecido com os Jogos Vorazes.

A preocupação excessiva com a aparência
A preocupação excessiva com a aparência recebe muitas críticas de Suzanne Collins em Jogos Vorazes, a começar pelo visual excêntrico e cirurgicamente alterado dos habitantes da Capital – e qualquer semelhança com a realidade com certeza não é mera coincidência. Assim que se torna tributo, é a vez de Katniss passar por uma verdadeira transformação de beleza que, mesmo sendo aceitável, parece ligeiramente desnecessária, já que ela está prestes a lutar até a morte. As críticas à ditadura da beleza continuam ao longo de toda a série e atingem o ápice com as revelações de Finnick sobre o que acontece com os vitoriosos “desejáveis” dos Jogos Vorazes.

O poder das mulheres
Mais do que protagonista de uma história sobre revolução ou de um triângulo amoroso, Katniss é a personificação da força e da independência da mulher. Antes mesmo de se oferecer como tributo no lugar de Prim e ir para os Jogos Vorazes, Katniss já havia assumido os postos de provedora e chefe de família, deixados pelo pai, morto nas minas anos antes. Ao ir para os Jogos, ela demonstra também força e inteligência físicas e se responsabiliza por Peeta, recusando  qualquer gesto de cavalheirismo do personagem. Além de Katniss, a presidente do Distrito 13, Alma Coin, e a comandante do Distrito 8, Paylor, também representam o poder e a capacidade de liderança das mulheres.

O governo totalitário e o poder
Talvez a guerra particular entre Katniss e o presidente Snow seja um tanto fantasiosa e exagerada para a vida real. No entanto, retrata bem a sede pelo poder e coloca mais uma vez em discussão aquilo que Maquiavel já cansou de dizer – que “os fins justificam os meios”. Será? Em Jogos Vorazes, não existem limites para que o presidente Snow mantenha não apenas o controle, mas principalmente o poder sobre Panem. De certa forma, é ele quem escolhe quem morre e quem vive, não só por meio dos Jogos, mas também através das condições extremas em que vivem os habitantes de alguns distritos – o que, claro, nunca é por acaso e sempre é conveniente para a Capital. E se ignorarmos as licenças poéticas da história, será que não é exatamente isso que vivemos atualmente?

A desigualdade social
Com a ditadura imposta pelo presidente Snow, seria impossível que Panem não sofresse com a desigualdade social. A verdade é que, dos 12 distritos, apenas o 2 tem certas regalias, já que apoia a Capital e, de certa forma, os Jogos Vorazes, com os carreiristas. Os outros 11 vivem em maior ou menor grau de pobreza, fome, condições precárias, exploração e violência.

A moral e a ética
A discussão sobre moral e ética permeia toda a obra de Suzanne Collins e aparece em diversas situações. Mas é claro que Katniss é quem enfrenta a maior batalha entre o que é certo, o que é errado e até onde é aceitável ir para proteger aqueles que amamos.

A resiliência
A realidade de Katniss pode ser uma exceção, mas a verdade é que não é tão diferente assim de tragédias como os conflitos no Oriente Médio, os recentes ataques terroristas em Paris, entre outros acontecimentos lamentáveis. Acredito que para a maioria de nós, felizmente, seja difícil realmente mensurar o que é ser “o Tordo da revolução” ou ter que lidar com a realidade calamitosa que muitos têm que enfrentar. Mas a lição de resiliência serve para todos, em quaisquer situações, porque, no fim das contas, a maior dor do mundo é sempre a nossa. E não é questão de egocentrismo ou falta de empatia, é questão de ser humano.

A heroína e o mocinho
Desde o início de Jogos Vorazes, é possível perceber a intenção de Suzanne Collins de inverter os papéis entre Katniss e Peeta: ela, uma atiradora exímia, caçadora imbatível e chefe da família; ele, um padeiro talentoso, ótimo decorador de bolos e habilidoso com as palavras. Embora nos filmes, o Peeta seja muito mais frágil do que nos livros, fato é que em ambas as “versões” da história ele é, na verdade, o mocinho a ser resgatado por Katniss – seja na arena ou na Capital. Mas se ela o resgata fisicamente, será que ele não faz o mesmo por ela no, só que psicologicamente?

Eu, como fã incondicional do personagem, sempre defendi sua inteligência emocional que, em muitas situações, pode ser mais importante do que a física e, definitivamente, é mais útil a longo prazo. Mas, infelizmente, muitas vezes, ouvi deboches por ele ser “padeiro, fracote, baixinho (no caso dos filmes) e inútil” e que “o Gale é muito mais bonito, másculo e forte”. E a reflexão que eu proponho aqui é social e transcende as barreiras de #TeamPeeta e #TeamGale: se nós, mulheres, queremos ser fortes e independentes, não deveríamos aceitar homens que não são o estereótipo do macho alfa? E se desejamos ser vistas como iguais, o primeiro passo não é vê-los também como tal?

***

Resenha de Jogos Vorazes
Resenha de Em Chamas
Resenha de A Esperança
Livro x Filme de Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1
Como foi reler Jogos Vorazes?

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5 pensamentos sobre “Jogos Vorazes: 8 questões pertinentes por trás da história

  1. Nossa… Que post profundo e reflexivo, Ná!!
    Muito bacana as questões abordadas… Sobre algumas eu já havia pensado bastante durante as leituras e os filmes, mas outras nem tanto. Como a moral e ética.
    Quem fala que esse tipo de livro é bobinho, fantasioso demais e mimimi, deveria começar a pensar out of the box, porque de bobinho não tem nada.

    Faltam 7 horas!!! \o/

    1. Eu “se” empolgo de vez em quando, né? Hahaha!
      Alguns desses pontos eu já tinha notado em 2013, mas essa releitura me apresentou a novos ângulos, talvez até pelas discussões que cresceram nestes dois anos. E aí eu tinha que botar pra fora, haha!
      Faltam 6 horas!

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