Livro x Filme: Lugares Escuros

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Quando li Garota Exemplar, achei que seria praticamente impossível levar tantos detalhes, reviravoltas e minuciosidades para o cinema e, por isso, pensei que o filme seria uma daquelas adaptações que você mal reconhece. Me enganei re-don-da-men-te: o longa, que é dirigido pelo sempre ótimo David Fincher, conseguiu ser praticamente 100% fiel à história de Gillian Flynn – e isso explica os longos 149 minutos de duração. Então, depois desta feliz experiência, acreditei que a adaptação de Lugares Escuros pudesse ser tão boa quanto a de Garota Exemplar – mesmo o filme tendo menos de 2 horas de duração. E me enganei re-don-da-men-te de novo.

Mas, antes de criticar a adaptação, vou elogiar o elenco. Para começar, nunca tive dúvidas de que Charlize Theron interpretaria a durona Libby Day sem problemas, já que a atriz sempre mostrou ser extremamente talentosa e versátil. Por isso, o resultado não foi nada surpreendente: Charlize conseguiu incorporar as particularidades de Libby e levar a personagem das páginas para a telona com perfeição. Nicholas Hoult também não deixou a desejar na pele do excêntrico Lyle – e, mais do que nunca, lembrou de Marcus, que interpretou aos 12 anos, em Um Grande Garoto. A sempre voluptuosa Christina Hendricks, de Mad Men, foi quem mais me surpreendeu, já que deixou o lado sensual de lado para viver a recatada e vulnerável Patty Day. Já Chloë Grace Moretz, de Se eu ficar, não foi, na minha opinião, a melhor escolha para interpretar Diondra: a atriz tenta parecer sexy e perigosa, como a personagem, mas, na maior parte do tempo, não convence.

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Ok, agora podemos voltar ao filme em si. O começo do longa é bastante fiel e a narrativa, que mescla o presente (por Libby) e o dia do assassinato (por Ben e Patty), também – alguns trechos do livro, inclusive, são “recitados” na íntegra e em off por Charlize, assim como alguns diálogos também foram usados. No entanto, depois do bem adaptado início, começam as modificações aparentemente sem motivos. Alguns exemplos: no livro, Libby decide revisitar o passado por dinheiro, mas também porque sente que é hora de descobrir a verdade. Já no filme, a ficha de Ben será destruída em três semanas e, por isso, se Libby não ajudar o grupo secreto a descobrir a verdade agora, não terá outra chance depois – e esta mudança acaba não tendo nenhuma relevância no filme; outra mudança é a ausência da tia de Libby, Diane. No livro, ela é o braço direito da mãe no passado e uma das histórias mal resolvidas de Libby no presente. E o que o filme fez? Matou Diane no presente, claramente para se livrar de mais uma subtrama e resumir a história.

Aliás, resumir a história é a maior característica da adaptação de Lugares Escuros. A maior parte dos detalhes da jornada de Libby em busca da verdade sobre o dia do assassinato foi deixada de lado, assim como o caso de Krissi Cates no passado, que é responsável pela dose extra de suspense da trama. O filme também não dá detalhes de como Patty e as duas filhas foram assassinadas, o que, no livro, é parte fundamental tanto para alimentar o mistério, quanto para descobrir o que realmente aconteceu na noite dos assassinatos. Gillian Flynn é expert quando o assunto é manipular o leitor e em Lugares Escuros não é diferente. O filme, porém, parece nem ter a intenção de confundir o espectador. Uma pena!

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O final era uma das partes que eu mais estava esperando, já que é realmente o ponto alto do livro. E talvez tenha sido a maior decepção. Mais uma vez, o longa resume completamente a história e, o que é mais grave, deixa muitos pontos soltos na trama. Para piorar, o desfecho recebeu uma dose especial de “efeito Hollywood” e, além de ser totalmente romantizado, entrega a moral da história completamente de bandeja. E para não dizer que só falei mal da adaptação cinematográfica de Lugares Escuros, aqui vai um elogio: como o livro mescla passado e presente, a autora utiliza bastante o recurso do cliffhanger, o que deixa o leitor louco de curiosidade. E isso, sem dúvidas, foi transferido com perfeição para as telonas.

Como filme avulso, Lugares Escuros também não é um dos melhores thrillers que já se viu. Por resumir demais uma história em que as maiores qualidades são justamente os detalhes e a forma como o insano acaba fazendo sentido, o longa criou apenas uma trama “forçada” e com uma série de falhas no roteiro.

Título original: Dark Places
Diretor: Gilles Paquet-Brenner
Ano: 2014
Minutos: 113
Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz e Christina Hendricks
Avaliação: 2 estrelas

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