“Não gosto mais de fazer aniversário”

Era pouco mais de meia-noite e eu estava terminando os cupcakes para a festa de 9 anos da Liz, quando ouvi passos de pés pequenos e descalços atrás de mim. Em dias normais, eu ficaria brava por causa do horário, mas, além de ser sexta-feira, tecnicamente já era o aniversário dela.

– Não quero mais festa – anunciou Liz, com a certeza que só as crianças conseguem ter, antes mesmo de eu me virar para encará-la.
– Como assim, querida?
– Não gosto mais de fazer aniversário. E não quero mais festa.
– Como assim? – repeti, como uma boba, enquanto procurava a coisa certa a ser dita – Até hoje à tarde você estava me perguntando, de hora em hora, quanto tempo faltava para sua festa.
– Eu sei, mas mudei de ideia, mãe, e não gosto mais de fazer aniversário – ela anunciou, decidida, e eu me perguntei há quanto tempo ela havia parado de me chamar de “mamãe”.
– Querida, as pessoas não mudam de ideia por nada. O que aconteceu?

Liz já estava grande demais para o colo, mas fiz um esforço e coloquei-a sentada em cima do pequeno espaço vazio no balcão da cozinha. Algo me dizia que a conversa que estávamos prestes a ter exigiria olhos nos olhos.

– Não aconteceu nada, mãe. É só que…
– Só que… ? – encorajei-a.
– Só que eu estava pensando que os aniversários só são legais por causa dos presentes, dos doces, das festas, das visitas e dos parabéns.
– Claro que não, Lizzie! – respondi, exaltada demais, porque a verdade é que eu concordava com a minha filha – Os aniversários são legais porque são um dia especial para nós e para aqueles que nos amam.
– Hum… pra mim, poderia ser qualquer dia, desde que tivesse presentes, doces, festas, visitas e parabéns. É tipo um… como se diz?
– Prêmio de consolação – respondi automaticamente, porque sabia exatamente do que ela estava falando.
– Isso! Um prêmio de consolação por estar ficando mais velho.
– Não, querida – era difícil contrariar e justificar algo com o que eu mesma concordava – Você não se lembra, é claro, ninguém se lembra do dia em que veio ao mundo. Mas o dia em que você nasceu foi muito especial para mim. Eu estava louca para te conhecer e ver o seu rostinho pela primeira vez foi simplesmente o momento mais incrível da minha vida! E é por isso que o SEU aniversário é especial para mim!

Liz sorriu pela primeira vez desde que nossa conversa havia começado, mas assumiu um ar pensativo, como se estivesse tentando decidir se minha justificativa era satisfatória ou não. Confesso que precisei me esforçar para manter o semblante sério.

– É… talvez você esteja certa, mamãe – ela decidiu, mas, antes que eu pudesse respirar aliviada, completou, com a sabedoria de um adulto e a descontração de uma criança: – Mas é que ninguém gosta de estar um dia mais perto de morrer, né?
– É. Ninguém gosta, querida. Mas faz parte da vida, não faz? – concordei, depois de pensar por alguns segundos se deveria discordar ou ser sincera – Agora é hora de voltar para a cama e descansar porque amanhã é dia de festa, meu amor! Está animada de novo?
– Estou, mamãe! – ela respondeu e nem parecia a garotinha angustiada que havia entrado na cozinha há alguns minutos – Boa noite!

Observei minha filha descer do balcão da cozinha com um pulo e subir as escadas correndo, e foi inevitável sorrir. Às vezes é difícil entender, por mais óbvio que seja, que uma criança de 9 anos já tem seus próprios pensamentos. E eu queria dizer à ela que estava certa, que aniversários são uma droga e que presentes e parabéns só servem para nos fazer esquecer, nem que seja por um minuto, de que, na verdade, estamos apenas um ano mais velhos, um ano mais perto da morte.

No entanto, por mais que eu tente ser sempre honesta com a minha filha, algumas verdades têm o momento certo para serem ditas. E acho que esta, que chegou tão perto de ser desvendada, deve permanecer em segredo por mais alguns anos. Então, repito para mim mesma a frase que meu pai sempre me dizia quando eu reclamava de fazer aniversário: “algumas pessoas não têm a chance de envelhecer”. Muitas pessoas, pai, muito mais do que eu gostaria.

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8 thoughts on ““Não gosto mais de fazer aniversário”

  1. Seus contos são d+, Ná!! Parabéns!!!
    Eu nunca pensei nos aniversários dessa forma… Pra mim sempre foi um dia feliz e de comemoração. Nunca vi como uma data mais próxima da morte e sim como mais um ano a ser comemorado por estar viva.
    Acho que tudo é questão de ponto de vista.

    Beijos!

    1. Muito obrigada mesmo pelo apoio de sempre, Ká! Ganhei o dia :D
      Eu gosto de fazer aniversário, mas agora cheguei num ponto da vida em que tô querendo parar de avançar nos números, hahahaha! E meu pai realmente sempre diz que algumas pessoas não têm a chance de envelhecer e é verdade. Então, tento ver pelo lado de que “envelhecer” é ganhar um pouco mais de tudo na vida, coisas boas e ruins. Afinal, tudo tem os dois lados, né?
      Beijos!

    1. Hahahahaha! Tô vendo que você leva tudo pro lado doce da coisa, né? Eu gosto de fazer aniversário, mas tenho preguiça de festa. Porém, adooooro presentes e receber parabéns… Docinhos também fazem bem :D

  2. Ah eu amoo aniversário, por mais que o meu seja sempre nas férias e as pessoas quase nunca estarem por aqui, eu amo!
    E nunca olhei por esse lado de estar perto da morte, pra mim é mais uma data de comemoração mesmo.
    E odeio que esqueçam meu dia! hauahuahuhauahua
    =*

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