“Tenho até amigos que leem…”

– E aí, o que você tem lido ultimamente?
– Bukowski, Dostoievski, Hemingway e… E. L. James. É de mulherzinha, mas ninguém é de ferro, né?

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Queria muito que o diálogo acima fosse pura ficção, mas, infelizmente, não é. É, aliás, algo muito mais comum do que eu gostaria e atende pelo nome de “preconceito literário”. Se você tem a sorte de não saber do que se trata, eu faço um resumo: preconceituoso literário é aquele que acredita que só os livros e autores considerados clássicos e/ou intelectuais valem a pena – o que, obviamente, não quer dizer que ele tenha lido – ou realmente entendido – esses livros considerados clássicos e/ou intelectuais. Mero detalhe!

Aí você pode argumentar que os outros não têm nada a ver com o que você lê ou deixa de ler e que não se importa com o que dizem. Mas: 1. sabemos que, na prática, não é bem assim, ainda mais hoje em dia, com tudo o que compartilhamos nas redes sociais; e 2. você provavelmente já foi ou é vítima E praticante do preconceito literário. Não tente negar!

Vou contar uma historinha que ilustra muito bem tudo isso:

Comecei a ler por prazer aos 17 anos e só escolhia livros de chick lit, que também atendem pelo termo pejorativo “de mulherzinha”, porque achava que os outros estilos eram chatos – preconceito e pré-conceito detected. Por muito tempo, fiquei presa aos títulos do gênero (azar o meu), até que cansei de me sentir cobrada para ler livros “melhores” – o detalhe é que essa cobrança podia até vir dos outros (e vinha, juro), no entanto, a pessoa que mais me julgava era eu mesma. “Affe, 20 e poucos anos nas costas e lendo livros de adolescente”, era o que eu pensava – e essa foi a principal razão para que eu começasse a me aventurar por outros gêneros.

E eu agradeço, de verdade, por ter sido “vítima” do preconceito dos outros e, principalmente, do meu próprio, porque foi assim que evoluí. E quando digo que evoluí, quero dizer que amadureci como pessoa e que expandir os horizontes literários foi apenas um reflexo natural de tudo isso. Sei que não acontece dessa forma para todos – e tudo bem amar chick lits, quadrinhos, young adults ou whatever para sempre -, mas, no meu caso, tenho certeza de que apenas fui feliz em escolher o momento certo para experimentar outros estilos de leitura, o que definitivamente não quer dizer que agora só leio “livros bons”.

Fim da historinha, vamos à moral:

Se eu me sinto melhor porque agora posso dizer que já li clássicos e vencedores do Prêmio Pulitzer? Sim, me sinto. Mas não pelo que os outros vão achar e, sim, por ter cada vez mais propriedade para falar sobre o que gosto ou não – e, consequentemente, derrubar preconceitos ou transformá-los em opiniões contundentes. Às vezes me pergunto se vou  ler young adults e me apaixonar por personagens fictícios para sempre e, obviamente, ainda não sei a resposta, mas tenho certeza de que tudo bem se for “sim”. Porque ao deixar o meu preconceito comigo mesma pra lá, superei também o preconceito dos outros.

E sabe o que mais? Hoje eu tenho é pena de quem é preconceituoso literário. Porque, na verdade, eles são suas maiores vítimas, como eu mesma fui um dia. Por exemplo, a pessoa do diálogo do início do post, que pode ou não ser ficcional, até lê E. L. James e outros livros “de mulherzinha”, mas, coitada!, está sempre se justificando, pois acha que deveria estar lendo algo “melhor”. Como ela, eu já deixei – e inevitavelmente vou deixar – de ler muitas coisas legais por preconceitos e pré-conceitos bobos e, por muito tempo, me permiti ser definida por aquilo que leio ou deixo de ler. Mas, realmente, ninguém é de ferro.

No mundo ideal, o preconceito literário (qualquer preconceito, obviamente) não deveria existir. Mas não vivemos no mundo ideal e eu não sou hipócrita, então admito que também tenho os meus: detesto autoajuda, não vejo graça em eróticos, clássicos me dão sono e vivo muito bem sem histórias sobre vampiros. Em minha defesa, já li muitas obras na tentativa de mudar de opinião, mas, nesses casos específicos, não aconteceu. O que aprendi, porém, é que o meu preconceito com certos tipos de livros não precisa migrar para quem os lê e que, muitas vezes, o segredo é guardar o que penso para mim mesma. Afinal, como leitora voraz, defendo que o importante é ler algo que mexa com você, independentemente do que for, e ser livre de conceitos, pré-conceitos e preconceitos.

Apenas permita-se :)

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11 thoughts on ““Tenho até amigos que leem…”

  1. Ah o velho e temido assunto do que tem maior valor…
    Sinceramente? Pra mim toda leitura é válida se vai te acrescentar alguma coisa e te faça se mexer para ir além daquilo.
    Agora senta que lá vem eu querer debater literatura:
    Vamos definir literatura de mulherzinha: século XIX eram os romances de folhetim, sim, aqueles que hoje são os dos cânones literários como Machadinho (tenho intimidade imensa), Dumas (da Pri), Aluísio Azevedo, José de Alencar e muitos outros. Agora voltando para o século XXI, mulherzinha é o que? Romance? Erótico? Ou qualquer outro que fujam da estigma do cânone literário? Porque olha… essa classificação pra mim é falha. Afinal, uma das maiores escritoras de textos eróticos, Hilda Hilst, não era nem um pouco mulherzinha.
    E o que é clássico? Se a gente for levar em conta a definição de Calvino para o termo, eu posso já arriscar que Harry Potter já é um clássico. Tá vendo? Estou até citando um “grande” filósofo para defender a Rowling.
    Tudo isso só para dizer que: não existe esse negócio de gavetinhas onde separamos as obras de acordo com que se parece. Quer ler um livro? Leia, não precisa ficar justificando sua escolha. Não se atenha apenas aquilo que você acha que te transformará mais culto, sério, não funciona.
    Eu posso ao mesmo tempo ler E. L. James e amar/odiar, como posso ler Borges e amar/odiar. Nenhum dos dois precisam ter o mesmo peso e a mesma medida, são tipos totalmente diferentes, e dependendo do momento tem o seu significado.
    Agora eu juro que paro por aqui. Um beijo! haauhauahau =D

    1. Concordo com tudo, best, mas vai explicar isso pras pessoas.
      Eu super defendo os “clássicos atuais” e, mesmo não tendo lido, classifico Harry Potter nessa categoria. Mas muita gente ainda tem a mente muito fechada para entender que os conceitos mudam com o tempo e com a “evolução” da sociedade. Como eu disse, adquiri novos hábitos de leitura, mas não necessariamente abandonei os antigos. Aprecio leituras mais densas, mas não as acho necessariamente melhores que as outras. Tudo depende também a que cada obra se propõe e um chick lit, por exemplo, tem o intuito principal de divertir. Enfim, meu ponto principal no texto é justamente incentivar a leitura independente de status e, sim, pelo prazer de ler algo que converse com você :)

  2. Concordo com tudo o que vc disse, Ná! Já cansei de ouvir comentários sobre os livros que eu leio, e o pior: por pessoas que não os leram ou que não leem nada mesmo. Bitch, please.
    Eu já liguei um phoda-se grandão e leio o que eu quiser. Meus horizontes literários também se expandiram bastante e me sinto orgulhosa por isso. Como vc, consegui superar alguns preconceitos que eu mesma tinha e me sinto bem com isso.
    Curti o post!

    1. O comentário que eu mais amo #SQN é: “ah, é por isso que você lê tantos livros”, querendo dizer que é porque leio “livros bobos”. Mas é isso o que você disse: geralmente quem faz esses comentários é quem lê, tipo, um livro por ano. E tudo bem, não sou melhor que essa pessoa por isso, mas não vem ME desmerecer, né? Bitch, please!

  3. Acho que é meio impossível não ter nenhum preconceito literário. Mas, entre a curiosidade e a vontade de ter motivos verdadeiros pra falar mal, acabo lendo até as coisas que acho que não vou gostar — e, claro, muitas vezes quebro a cara e gosto bastante!
    Tenho tanta preguiça de me meter nessas conversas, que geralmente sou meio grossa e respondo que estou lendo livros. E, no fim, o que importa é simplesmente isso, não é? Ler. Mesmo quando não curto tanto a história, fico feliz e satisfeita por ter lido. =)

    1. Você pegou o espírito da coisa, Camila :)
      Mesmo quando estou odiando um livro, faço o máximo pra terminar, justamente pra embasar minha opinião e não ficar soltando críticas ao vento.
      Mas é o que você disse mesmo, o importante é ler, só lamento por esse preconceito bobo existir e afetar tanto os alvos como quem o tem.
      Beijos!

  4. Eu confesso!!
    Quando iniciei a faculdade em 2007, havia sempre aquele debate “você precisa ler os clássicos, você precisa ler isso, não leia aquilo, fulano não é bom”. Por um tempo confesso que fui seguindo essa ideia maluca de alguns professores. Ficava me sentindo culpada caso pegasse outro livro para ler que não fosse da biblioteca. E sabe que foram os anos que menos li?? Fiquei lá presa nos títulos obrigatórios para o curso e achando que aquilo era melhor que qq outra coisa. Gente, cada um com seu cada qual! “Deixa os menino brinca” é isso que eu digo para todo mundo agora! hahaha. Tanto é que só aos 26 anos eu fui começar a ler Harry Potter e olha, to adorando!!

    1. Hahahahaha! O que aconteceu com você foi exatamente o que aconteceu comigo: fomos vítimas de preconceito e o praticamos com nós mesmas! O importante é deixar essa besteira de lado e ler o que você quiser. Como eu disse no texto, hoje leio muitos estilos diferentes, mas só porque eu quero. O resto é detalhe :D

      1. Exato!! Mas quando se tem 17 anos é difícil pensar assim, né? E me preocupa se perdemos futuros leitores por isso… não sei! Pega um livro e escuta “ah, isso é ruim! Ah isso não é literatura”… encosta, não pega mais e acaba sei lá, perdendo interesse em ler. Posso estar viajando também e levando isso muito a sério. Mas esse tipo de comentário, para mim, é desfavor!

      2. Ana, com certeza perdemos leitores por isso! Eu mesma sou um exemplo! Nunca li os livros que a escola mandava porque não me dou bem com clássicos e literatura brasileira/portuguesa. Então, sempre achei que “ler er chato”. Só peguei gosto quando comecei a ler o que eu queria (Meg Cabot hehe), aos 17 anos! Sou muito a favor de mesclar literatura clássica, porque é importante saber o valor das obras brasileiras e portuguesas, com livros contemporâneos. Mas ATÉ PARECE que os professores iriam se dar ao trabalho…

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