Resenha de A Resposta – Kathryn Stockett

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Em 1962, na cidade de Jackson, Mississippi, a prioridade da maioria das mulheres é casar e ter filhos. Mas não para Eugenia Phelan, ou apenas Skeeter. Aos 22 anos, ela tem muito orgulho de seu diploma universitário, o que não satisfaz sua exigente e tradicional mãe, que não irá descansar enquanto não vê-la subir ao altar. Skeeter, no entanto, sonha em morar em Nova York e ter uma carreira bem-sucedida como jornalista. Inspirada por Constantine, a empregada negra que a criou e que sempre foi seu porto seguro, ela começa a trilhar um caminho que pode mudar muito mais do que apenas seu mundo.

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A dedicada Aibileen é uma das negras que trabalham para casas de famílias brancas em Jackson, Mississippi. Sua especialidade é cuidar de crianças e a carinhosa Mae Mobley é sua 17ª. No entanto, após a morte do filho, o lado mais revoltado e amargo de Aibileen, que nem mesmo ela conhecia, despertou, mudando sua forma de enxergar os problemas do seu mundo. Minny também trabalha em casas de famílias brancas, mas, ao contrário da melhor amiga, Aibileen, é desbocada e não leva absolutamente nenhum desaforo para casa. Por isso, apesar de cozinhar à perfeição, tem dificuldades em manter a boa reputação e os empregos. Após ser dispensada mais uma vez, Minny é admitida por Celia Foote, uma mulher diferente de todas as outras, de quem irá conhecer as loucuras e os segredos – além de uma uma realidade surpreendente.

Só o que sei é que eu não vou dizer nada. E eu sei que ela não vai dizer o que quer dizer também e é uma coisa estranha o que acontece aqui, porque ninguém tá dizendo o que quer dizer e, mesmo assim, de algum jeito, é uma conversa que tá acontecendo.

Hoje em dia, o preconceito e a discriminação estão, mais do que nunca, em pauta. E, ainda que o comportamento da sociedade esteja longe, muito longe, do ideal e o racismo ainda exista – e provavelmente com muito mais força do que pensamos ou vemos no nosso dia a dia -, A Resposta nos mostra como era ainda mais difícil e cruel ser negro nos anos 1960, especialmente em Jackson, Mississippi. Ao dissecar as relações repletas de antíteses entre empregadas negras e famílias brancas, a obra de Kathryn Stockett também nos faz enxergar o quanto o caminho até o fim da segregação racial é longo e o quanto ainda falta, apesar do tanto que já se percorreu. Embora o foco de A Resposta seja o preconceito racial, por ser passar nos anos 1960, é impossível não abordar também o machismo incutido na sociedade e como uma mulher diferente das outras, que tinha ambições e priorizava a carreira, como Skeeter, era discriminada e incompreendida – e é inevitável notar como esse comportamento ainda reverbera no mundo atual, ainda que em menor escala, assim como o racismo.

Eu podia dizer que ela não entende por que uma mulher de cor não pode criar um nenê de pele branca no Mississippi. É uma vida difícil, solitária, não pertencer a nenhum lugar.

Embora trate de um tema que, por si só, já é delicado, polêmico e, portanto, rico, o grande mérito de A Resposta é narrar a trama por meio das histórias de vida de Aibileen, Minny e Skeeter, que se conectam tanto em suas diferenças, quanto em suas semelhanças. Adorei como Stockett conseguiu diferenciar uma personagem da outra apenas pelo modo de “falar” e, apesar de ter lido o livro em português, consegui escutar os sotaques carregados de Aibileen e Minny. A adaptação cinematográfica de A Resposta recebeu o nome de Histórias Cruzadas e preciso admitir que o título é mais do que apropriado, já que a obra de Stockett nada mais é do que três tramas paralelas, que se encontram em um grande e determinante ponto em comum, regadas a mistérios, dilemas, segredos e inquietações.

O que mais gostei em A Resposta foi a forma como a autora mostrou o paradoxo que existe no fato de que as famílias brancas confiavam seus filhos às empregadas negras, ao mesmo tempo em que não as deixavam usar o mesmo banheiro, por medo de contrair “doenças das pessoas de cor”. Para completar, após alguns anos, as crianças carinhosas, que às vezes chegavam a chamar as babás de “mãe” e que não enxergavam as diferenças invisíveis entre as cores, cresciam e se tornavam os mesmos adultos preconceituosos que seus pais foram.

Todo mundo se importa. Preto, branco, lá no fundo, todo mundo se importa.

A sinceridade que existe em todos os pontos de vista da narrativa de A Resposta é incrível e acredito que tenha sido possível pelo fato de que o livro provavelmente é uma espécie de espelho da vida da própria autora. Kathryn Stockett nasceu em 1969, em Jackson, Mississippi, pouco após o ápice dos movimentos contra a segregação racial, e foi inspirada em sua própria empregada negra, Demetrie, que ela decidiu escrever o livro. E A Resposta conquista não só pela temática super pertinente ou pela abordagem democrática e honesta, mas também pelas personagens tridimensionais e carismáticas, de quem aprendemos a gostar por seus defeitos, qualidades, erros e acertos. Com uma narrativa inteligente, sensível, bem-humorada e envolvente, Kathryn Stockett nos apresenta às dicotomias que fazem da lealdade, da hipocrisia, da confiança e da crueldade ingredientes de uma relação praticamente impossível de desvendar, mas, talvez, passível de se transformar.

Título original: The Help
Editora: Bertrand Brasil
Autor: Kathryn Stockett
Ano: 2009
Páginas: 567
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 5 estrelas

*A Resposta foi adaptado ao cinema em 2011 e recebeu o título de Histórias Cruzadas. O longa conta com Emma Stone, Viola Davis e Octavia Spencer – que faturou o Oscar por sua atuação – nos papéis principais. 

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17 pensamentos sobre “Resenha de A Resposta – Kathryn Stockett

  1. Meu Deus! Esse livro é aquele típico livro que você vai lendo e ele vai te instigando a não ficar quieta. Tantas coisas brutais e cruéis e ao mesmo tempo outras histórias simples e tocantes. Ele mexe em todos os sentidos.
    Eu não sei de quem eu gosto mais, acho que é impossível fazer essa separação, até porque cada uma tem seu modo de ser e agir, e isso que faz elas especiais.
    Tem tanta coisa que me fez relembrar o “To kill a mockingbird”, e quando é citado claramente um personagem da história quase levantei e aplaudi. hahahahhaha
    Em alguns momentos da leitura me peguei pensando em um monte de coisa que ainda acontecem atualmente e que por incrível que pareça passa totalmente despercebido, quando se trata da representação de posições sociais e a gente não dá conta, mas enfim, não vou me prolongar no assunto porque estou escrevendo quase uma dissertação aqui.
    E antes que me esqueça: logo no começo quando a Skeeter está procurando emprego e ela vê um anúncio sobre uma vaga em um editorial destinado a seleção de mulheres e depois a mesma vaga destinada para homens, só que com o valor do salário um pouco maior, já me ganhou nesse ponto! Eu pensei: meu Deus!, vai abordar feminismo também no livro, existe a possibilidade de não gostar disso?
    Agora eu preciso assistir o filme porque ainda não assisti, e espero que me ganhe tanto quanto o livro.
    Um beijo =D

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