Os príncipes encantados e as expectativas sobre o amor da vida real

Bonito, alto (mas não demais), sarado (mas não bombado), carinhoso (mas não grudento), fiel, companheiro, romântico, inteligente, engraçado, atencioso, bem-humorado… estas são apenas algumas das características que o “homem ideal” da mulher real deve ter. Coincidentemente, a grande maioria dos mocinhos dos filmes e livros “de menina” preenche, com folga, todos estes pré-requisitos. Afinal, toda garota pode sonhar, não é?

É e não é. Peraí, vou explicar

.pretty womanNão, Vivian, príncipe encantado não existe!

Já fui viciada em filmes e livros “de menina”, também conhecidos como comédias românticas e chick lits, o que significa que eu conheço muito bem esse universo de príncipes encantados modernos. Sim, já chorei e suspirei muito por essas histórias, mas mantive os pés no chão e, para mim, sempre esteve bem claro que contos de fadas, clássicos ou modernos, simplesmente não existem. Apesar disso, o gênero “de menina” foi meu favorito por muitos anos, até que li o primeiro livro que me mostrou um “amor real” (Um Dia, de David Nicholls), ou seja, o tipo de amor que sempre procurei viver e em que acredito. E assim eu comecei a cansar do “felizes para sempre”.

Tudo bem, eu sei que as comédias românticas e os livros de chick lit são puro entretenimento e não têm a pretensão de incitar as maiores reflexões do mundo. No entanto, podem gerar expectativas gigantes sobre os relacionamentos afetivos, o que pode ser igualmente “perigoso”. Prova disso é que, em 2011, uma pesquisa australiana concluiu que as comédias românticas (e, acredito eu, consequentemente os títulos de chick lit) atrapalham a vida amorosa porque os finais felizes fazem com que algumas pessoas tenham altas expectativas em relação aos parceiros – e que, na maioria das vezes, não são correspondidas. “Relacionamentos de verdade exigem trabalho e amor verdadeiro, ou seja, exige mais do que fogos de artifícios”, explicou Gabrielle Morrissey, uma das autoras da pesquisa.

Sim, eu enjoei de livros de chick lit, mas velhos hábitos não desaparecem de uma hora pra outra, então, quando estou a fim de uma leitura leve e descomprometida, escolho algo do gênero. Acontece que o que antes me divertia e arrancava suspiros, agora me irrita e, em alguns momentos, até me revolta. E foi assim que me senti mais uma vez, ao ler Perdida, de Carina Rissi), em que a protagonista, que não acreditava no amor, viaja no tempo e vive um romance intenso e capaz de mudar toda a sua vida. Durante os trechos mais melosos, confesso que me peguei fazendo caretas e me perguntando “sério?”, porque aquele amor insaciável e inexplicável simplesmente não existe – e se existe, não é saudável.

enchantedAté a princesa Giselle, de Encantada, preferiu o homem real ao príncipe

Olha, eu juro que acredito no amor. Só que não na versão desesperada e desenfreada e indestrutível que os finais felizes dos filmes e livros querem nos vender. Eu acredito no amor racional, que existe não só porque o universo/o destino/Deus/whatever quer, mas porque é cultivado todos os dias, das mais diferentes maneiras. Eu acredito no amor do mundo real, onde o “príncipe” talvez precise emagrecer alguns quilos, provavelmente não é um ator de Hollywood e, eventualmente, sofre de deficiência em romantismo ou senso de humor. Mas só porque o “príncipe” é apenas um homem, que, por mais perfeito que seja, terá defeitos, alguns irreparáveis, e nem sempre irá atender – tampouco superar – as expectativas, mesmo que realmente ame e se importe.

Tá. Mas, afinal, toda garota pode sonhar?

Claro que pode! Mas sonhe com um homem, e não um príncipe encantado, que não resolva todos os seus problemas e, sim, os compartilhe com você. Que te dê vontade de brigar de vez em quando, só porque você sabe que pode ser ainda melhor. Que te cause frio na barriga e te faça suspirar, mas que não dependa disso para te entreter. Que acrescente algo à sua vida e não apenas preencha um buraco. Que faça com que você não queira ser perfeita e, sim, melhor a cada dia. Que te cause expectativas que ele pode cumprir em vez de deixar que você imagine coisas impossíveis sozinha. Um homem que você seja capaz de amar não só “por causa de”, mas principalmente “apesar de”, e que te faça acreditar que o “felizes” é mais importante do que o “para sempre”.

Ps: o texto é sobre mulher-homem, mas vale para homem-mulher, mulher-mulher e homem-homem também.
Ps²: em defesa das comédias românticas, há que se dizer que os filmes mais recentes têm fugido dos clichês e estereótipos do gênero, como mostram longas como 
Amizade Colorida, Ele não está tão a fim de você, Mulheres ao Ataque, entre outros. Já sobre os livros de chick lit, não se pode dizer o mesmo.

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6 pensamentos sobre “Os príncipes encantados e as expectativas sobre o amor da vida real

  1. Eu ia comentar: assino embaixo, mas acho q é um comentário bem pobre né…
    Mas oq dizer dps de ler o texto td e ficar acenando positivamente? Pois é!
    Nem adiantaria eu ficar parafraseando seu texto tbm.
    No final de td apenas concordo e bato palmas! =D
    Bjjinho

  2. Dependendo do meu humor livros ou filmes que são comédia românticas acabam me deixando mais deprimida. Algumas histórias, mesmo que a gente esteja careca de saber que elas não existem, ficam na nossa cabeça e ascendem uma luzinha de desejo na nossa cabeça a qual ficamos pensando “ok, mas e se…”. Resumidamente, costumam ser o retrato da frustração.

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