Bling Ring – A Gangue de Hollywood – Nancy Jo Sales

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No final de 2008, os adolescentes Rachel Lee e Nick Prugo entraram na propriedade de Paris Hilton em Hollywood e levaram alguns dos valiosos pertences da socialite. A invasão foi tão bem-sucedida que abriu portas não só para outras visitas à residência de Paris, como também às casas de outras celebridades, entre elas Rachel Bilson e Brian Austin Green. Em fevereiro de 2009, Nick e Rachel invadiram a propriedade de Audrina Patridge, famosa pelo reality show The Hills, e foram flagrados pelas câmeras de segurança. As imagens foram veiculadas pela mídia, mas não foram o suficiente para que as autoridades identificassem os culpados. Com isso, a confiança de Nick e Rachel apenas cresceu e a gangue de Hollywood ganhou novos membros: Alexis Neiers, Tess Taylor, Daiane Tamayo, Courtney Ames, Johnny Ajar e Roy Lopez. Ainda em 2009, os adolescentes invadiriam as casas de Orlando Bloom e Lindsay Lohan antes de serem finalmente pegos. A polícia, no entanto, ainda não tinha como provar que a então batizada Bling Ring era realmente a culpada pelos roubos. Até Nick confessar os crimes e entregar seus cúmplices.

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Me interessei em ler Bling Ring – A Gangue de Hollywood depois de assistir ao filme homônimo de Sofia Coppola, que foi baseado na obra de Nancy Jo Sales. No entanto, antes de começar a leitura, pensei que o livro penas narrasse a história real de forma ficcional. Me enganei. A obra de Sales não segue ordem cronológica e intercala reflexões da autora com fatos e aspas conseguidas por ela por meio de entrevistas com os membros da gangue, pessoas ligadas a eles e autoridades envolvidas na investigação do caso. O recurso exige atenção do leitor, mas deixa a obra mais dinâmica, ao mesmo tempo em que adiciona credibilidade jornalística ao material. O livro contém muitos erros de gramática e digitação (como Mark Jacobs, por exemplo), pois deve ter sido editado às pressas para que chegasse ao Brasil junto com o filme.

Em sua obra de estreia, Sales não só relata os fatos e “bastidores” da Bling Ring, como também propõe uma profunda e pertinente reflexão sobre a “relação” entre anônimos e celebridades. A princípio, pensei que Bling Ring – A Gangue de Hollywood seria uma boa leitura para jornalistas de entretenimento, mas logo expandi o público-alvo para os jornalistas em geral, enquanto formadores de opinião e filtros de informações. Mas, conforme avancei na leitura, percebi que, na verdade, a obra de Sales deveria ser lida também pelo público consumidor de notícias que, de certa forma, é representado pelos membros da gangue.
A reflexão de Sales gira bastante em torno da internet, que tem papel fundamental na história da gangue de Hollywood por permitir que Rachel e Nick conseguissem os endereços das celebridades e ainda examinassem as casas delas via satélite, em busca de brechas para entrar nas propriedades. Mas, mais do que isso, a internet é a principal responsável pelo comportamento que os levou a cometer estes crimes. Com a democratização oferecida pela web, se tornar uma estrela instantânea não é a mais difícil das tarefas. Justin Bieber é apenas um dos exemplos deste fenômeno, já que ficou famoso após ser descoberto por um agente que assistia aos seus vídeos no YouTube. O Instagram e os blogs também fabricam “celebridades” e o Brasil tem casos expressivos. Os exemplos mais recentes são as “garotas-fitness” Carol Buffara e Michelle Franzoni, que postam dicas fotos de suas rotinas de malhação e, juntas, somam mais de 500 mil seguidores. Mas o maior exemplo no País (e, quiçá, no mundo) são, com certeza, as “blogueiras de moda”, que já há muito tempo não “vendem” mais roupas e tendências e, sim, um estilo de vida que grande parte considera ideal.
A internet também possibilitou a propagação de materiais que, antes, eram 100% privados – e deveriam continuar privados, mas essa é outra discussão -, como vídeos sexuais e fotos de nudez. Porém, para algumas pessoas, o vazamento deste tipo de informação não foi exatamente uma tragédia. Kim Kardashian, por exemplo, ficou famosa após a divulgação de uma sex tape, em que ela aparece com o cantor Ray J. No mesmo ano, a socialite passou a estrelar, ao lado de sua família, o reality show Keeping up with the Kardashians. Paris Hilton também deve sua fama a um vídeo de sexo: a sex tape da socialite vazou em 2003, alguns dias antes do lançamento de seu reality show, The Simple Life, que protagonizou ao lado da amiga Nicole Richie. Neste contexto, também fica clara a parcela de “culpa” dos famigerados reality shows, responsáveis por vender o cobiçado estilo de vida dos famosos e gerar novas “celebridades”. No entanto, a grande questão aqui é que tanto Paris quanto Kim ficaram mundialmente conhecidas por razões pouco nobres, mas ganharam status de celebridades, virando ícones de moda e estilo de vida e faturando milhões com programas, publicidade, produtos, etc.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que a internet e as redes sociais são capazes de transformar “qualquer um” em celebridade, também pode aproximar os anônimos dos famosos, tornando-os mais acessíveis por meio do compartilhamento de momentos triviais do dia a dia. E esta, segundo Sales, é uma das razões para que os membros da Bling Ring tenham se sentido encorajados a entrar na casa das celebridades e roubá-las. Também é pela internet que os famosos ostentam seus bens e, principalmente, seus estilos de vida ideais. E esta ostentação foi o que, em partes, encorajou os membros da Bling Ring, todos vindos de famílias bem-estruturadas financeiramente (com exceção de Johnny Ajar), a fazerem o que fizeram. A ideia é a de que as celebridades são tão ricas que é quase justo roubá-las. Elas não precisam de tudo aquilo e, provavelmente, nem iriam perceber que haviam sido furtadas. De fato, algumas das vítimas demoraram semanas para perceber tudo o que havia sido levado, mas, ao saberem dos roubos, o que mais os incomodava não era o prejuízo material e, sim, a violação da privacidade e da segurança, como mencionara Lindsay Lohan.
A ironia é que, após a descoberta dos roubos, os membros da Bling Ring alcançaram a fama que tanto cobiçavam e até ganharam fãs. O próprio Prugo não entendia como podia ter ganhado uma página no Facebook que reunia pessoas que o admiravam por ter cometido atos que, aparentemente, a sociedade como um todo repudiava. A mídia, por sua vez, não só acompanhava de perto as audiências da Bling Ring, como também enviava paparazzi atrás dos membros da gangue. E assim, Nike, Rachel e companhia se tornaram os protagonistas das manchetes de sites e revistas, como o TMZ e a Vanity Fair (publicação para a qual Sales cobriu o caso), onde eles conheceram o mundo das celebridades e o que se tornou, posteriormente, um eficaz meio de “espionar” suas vítimas.
A história e os desdobramentos da Bling Ring exemplificam a memória curta e, principalmente, a falta de discernimento das pessoas em geral, principalmente em relação aos famosos. Recentemente, celebridades como Scarlett Johansson, Carolina Dieckmann, Miley Cyrus, Rihanna, entre outras, foram expostas em fotos em que aparecem nuas ou usando drogas e, nos primeiros dias, foram fortemente julgadas. Mas, logo, o assunto foi esquecido e todos ficavam no aguardo do próximo escândalo. Já no âmbito da falta de discernimento, um dos exemplos mais chocantes é o Maníaco do Parque, que tinha fãs (?) e recebia cartas de mulheres apaixonadas. Claro que este tipo de comportamento demanda uma análise psicológica muito profunda, mas, por alto, se alguém é capaz de se apaixonar por um homem que violentou e matou mulheres, por que não ser fã de alguém que “apenas” roubou casas de celebridades?
Bling Ring – A Gangue de Hollywood é a sintetização do comportamento de grande parte da sociedade nos dias de hoje. É sobre a busca, muitas vezes desenfreada, por um estilo de vida cobiçado pela maioria, como se “os fins justificassem os meios”. O pior é que, para quem almeja apenas a fama, e não o reconhecimento, e o glamour, os fins acabam mesmo justificando os meios.
Título original: The Bling Ring
Editora: Intrínseca
Autor: 
Nancy Jo Sales
Ano: 2013
Páginas: 304
Tempo de leitura: 5 dias
Avaliação: 5 estrelas
**Bling Ring – A Gangue de Hollywood foi transformado em filme homônimo, dirigido por Sofia Coppola e lançado em 2013. No longa, os membros da gangue receberam outros nomes, mas são retratados de acordo com a história real. A adaptação tem o tom ácido da crítica em relação ao comportamento dos acusados, mas abre mão das reflexões propostas por Nancy Jo Sales na obra original.
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6 thoughts on “Bling Ring – A Gangue de Hollywood – Nancy Jo Sales

  1. O texto ficou muito bom, mas se olharmos por outro lado fazer um filme e publicar um livro sobre tal assunto, insignificante eu diria, é lamentável, mostra o quanto estamos perdendo com esse avanço desproporcional da internet e consequentemente da privacidade.

    1. Jéssica, concordo que estamos perdendo mesmo muito tempo com o avanço da internet e suas consequências, mas acho que o filme e, principalmente, o livro têm mais o intuito de alertar a sociedade para este comportamento inadequado.

  2. Eu não li o livro, mas tenho vontade de conhecer a visão jornalística da história… O filme eu achei incrível e a todo momento eu pensava “PQP. Eu não acredito que isso é real, que existiram pessoas que fizeram mesmo isso!!”
    E é bem isso o que vc falou… Está td tão banalizado, que criminosos viram celebridade. Ninguém merece!

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